Verbo de ligação


Cada um é instrutor, menos eu
06/04/2018, 21:15
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A inusitada frase é do escritor japonês Eiji Yoshikawa, falecido em 1962, aos 70 anos. E me inquietou desde que a li pela primeira vez.

Pode soar, a princípio, enigmática e até incoerente. Mas parece-me tão instigante que nunca deixei de refletir sobre ela. Entendimento em construção, assim a desvelo: ser humano, sou aprendiz e, como tal, tenho como tarefa observar o mundo e me instruir sobre a vida.

Para que se realize esse estudo, sirvo-me, por exemplo, dos procedimentos que as pessoas utilizam. Ao assistir a alguém que se porta de maneira sincera, generosa, benevolente, eu aprendo. Com os seus bem-sucedidos atos, constato o que funciona, o que é bom – entendendo como “bom” aquilo que beneficia todos e promove a vida.

Mas também me esclarecem aqueles que têm atitudes egoístas, ignorantes ou destrutivas, porque identifico o prejuízo que derramam sobre o seu entorno, e inevitavelmente sobre si próprios.

Dedicam-se a obter ninharias, inclusive de grande vulto, mas nunca encontram paz ou gratificação verdadeira. Porque é sempre superficial e ilusório o ganho particular que custa o sofrimento alheio. E assim, tomando o malfeitor como professor, certifico-me de como não devo agir.

A natureza também é mestra, grandiosa e sublime. Por isso atento às suas leis, ciclos, dinâmicas e compensações. E, ainda, lúdicas conselheiras, as crianças ensinam o tempo todo, com alegria, inocência, lucidez e criatividade.

Por outro lado, quando afirmo que não ocupo o papel de instrutor, isso não quer dizer que ninguém possa aprender com as minhas atitudes. E nem que eu não tenha desenvolvido virtudes ao longo da vida. Pois, se faço o que amo, ofereço o meu melhor a todo o planeta e essa contribuição não costuma passar despercebida.

Entretanto, para garantir a integridade do meu exercício, devo recolher a pretensão egoica de ser reconhecida como mentora, para não dar vazão à vaidade. Porque esse sentimento me causa ilusão de superioridade e, portanto, distorce a minha percepção do que é real, atraindo o erro, a humilhação e o sofrimento.

Daí o meu respeito a esse precioso princípio, de execução permanente: cada um é instrutor, menos eu.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Imagem: internet)

                                         

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toque de mestre
29/05/2015, 18:09
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Conta-se que um discípulo do mestre Bashô (1644-1694), poeta japonês e grande codificador da sucinta modalidade poética haikai, escreveu o seguinte poema:

uma libélula rubra
tirai-lhe as asas
uma pimenta

Bashô, evitando a cena cruel, corrigiu o haikai:

uma pimenta
dai-lhe asas
uma libélula rubra

libélula