Verbo de ligação


Escrever bem em quatro lições
25/07/2016, 14:25
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Há textos sofríveis, há textos corretos, há textos brilhantes e, entre essas categorias, uma gama de graduações. Mas de que depende a qualidade dos escritos?

Saber escrever não é um atributo mágico. Dom existe, é a facilidade para perceber como funciona o mecanismo sobre o qual se está debruçado. Mas todo fazer dispõe de técnica e exige treinamento. No decorrer desse estudo, vale examinar alguns fatores determinantes para o resultado satisfatório do trabalho.

A começar, o domínio da linguagem. A linguagem é a ferramenta do comunicar. Precisa ser explorada e conhecida, e aí será manejada com competência. Quem deseja escrever bem, sobretudo profissionalmente, tem que mastigar diária e macrobioticamente a gramática e a ortografia.

Sem conhecer a função sintática das palavras e locuções dentro de uma frase, é difícil redigir com clareza, e o texto resultará truncado ou inconsistente. Sem identificar sujeito, predicado e objeto, não se aprende a utilizar a vírgula, nem a fazer concordâncias sensatas. Sem conhecer regência verbal e classes gramaticais, não se pode saber se ocorre crase. Tudo isso e muito mais constrói o sentido coerente do conteúdo que se comunica.

Afinal, também dentro do universo textual, os elementos são alinhavados com o fio da lógica. Sem acatar esse princípio, qualquer bom argumento fica comprometido. Sem carregar essa virtude, qualquer escrito pode se tornar um engodo e incorre em desrespeito com o leitor, que está entregando o que tem de mais valioso: sua atenção e seu tempo. A contrapartida do redator é esforçar-se para garantir que esse indivíduo se sinta recompensado.

Ao longo do aprendizado, há que se prever que, gradativamente, as provas irão se tornando mais complexas. Porque linguagem é jogo, e, a exemplo do que ocorre em muitos deles, quanto mais se avança, mais elevado será o nível de dificuldade.

Vale lembrar também que um bom jogador acolhe os desafios, trabalha para vencê-los e se sente gratificado com esse processo, pois sabe que da superação extrai trunfos – um texto de padrão superior, por exemplo. Sabe também que o jogo não acaba, que sempre há um conhecimento para ser conquistado e isso o instiga.

Resumindo: o intento é dominar a técnica e colocá-la ao próprio dispor, para se dizer o que se quer. A aquisição dessa capacidade gera genuína sensação de poder, autoconfiança e faz o redigir fluir com segurança.

Conhecer outros idiomas auxilia no processo. Especialmente se pertencerem a famílias linguísticas distintas. Cada língua tem um pulso e um arcabouço. Por serem diferentemente estruturadas, induzem a cognição a trilhar vias não convencionais e esse processo torna a mente mais vasta e flexível.

Exercitar a leitura é um segundo ponto fundamental. Será muito difícil ter prazer em manejar a linguagem se a pessoa não gosta de ler. É uma atividade que amplia horizontes e povoa a mente de possibilidades didáticas, vocabulares e imaginativas. Não bastasse, ler provoca frequentemente vontade de escrever.

É bom que se leia textos de gêneros literários diversos. Cada um tem específicos objetivos e linguagens: crônicas, contos, artigos, poesias, reportagens, romances, cartas e até bulas de remédio, que os amantes das letras não enjeitam nada.

Ainda, que não se deixe de registrar o linguajar das ruas, nem de se reparar nos sotaques e na musicalidade das falas, o que também é uma forma de leitura, e das mais curiosas. Afinal, a linguagem é espelho da cultura.

Obviamente, é indispensável praticar a escrita, e esse é o terceiro ponto. Escrever é o exercício que se faz para ouvir o som do seu instrumento-texto.

É o momento em que se identifica em que aspectos o fazer desliza ou emperra, e é quando se verifica o que se sente enquanto escreve, tanto pelo teor do texto quanto pelo exercício em si. Como todos os fazeres, é um dado de nosso relacionamento com a vida, e pode ser altamente eloquente, expressivo e terapêutico.

Com a produção esboçada, é conveniente ler e reler. Ler em voz alta, ou com os dedos nos ouvidos, atentando para o ritmo do que foi escrito.

Ah, se possível, que se deixe o texto “dormir”, o que significa largá-lo, abandoná-lo, esquecer-se dele por algumas horas, ou dias.

O certo é que, após uma noite de sono, ficamos renovados e nossa compreensão se modifica. No “dia seguinte”, com incrível facilidade, conseguimos esculpir o texto de forma mais apurada, fazendo as podas corretas e introduzindo o que lhe falta. Encontrando as palavras que nos escapavam e as ideias que concluem ou preenchem um raciocínio.

Já o quarto e último elemento fundamental na construção de um texto interessante são as boas ideias. E boas ideias só se tem refletindo, isto é, pensando ou meditando. A reflexão é o estofo do redigir.

Então é preciso estar alerta ao entorno, seja a casa, a sociedade, o planeta e o espaço sideral. E também conectado com o senso de interioridade e de existencialidade. Há uma profusão de informações nesses campos, a serem analisadas, cruzadas, relativizadas.

Daí surgem pensamentos estimulantes, inquietantes ou esclarecedores, que podem dar origem a textos originais e atraentes, que, afinal, é o que o redator qualificado busca.

Por fim, nada como poder se deleitar com uma produção textual inteligente e caprichosamente lavrada. O freguês agradece.

Onides Bonaccorsi Queiroz

clarice

A escritora Clarice Lispector (Foto: internet)



das vantagens de ser bobo – clarice lispector
25/07/2013, 14:37
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O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea, onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

A escritora Clarice Lispector (1920-1977)

A escritora Clarice Lispector (1920-1977)