Verbo de ligação


ainda estamos aqui
30/06/2009, 02:22
Filed under: Poesia | Tags: ,

Minhas mãos,

minhas mãozinhas queridas,

tenho-as diante dos olhos.

Parecia que éramos íntimas,

mas eu as ignorava.

Tanto as usei friamente,

a ostentar anéis, vernizes e gestos.

Empunhava defesas à solidão.

Mas foi só num certo dia,

dia certíssimo de que bem me lembro

eu olhei minhas mãos e as vi.

Sorri contente

ao reencontrar aquelas

que trago desde a infância,

sem suspeitar que me ausentara delas

e guardava-lhes saudade.

Encontrei as mesmas mãozinhas,

os mesmos dedinhos,

as mesmas unhas,

tudo como que criança

e dizendo, inocentes:

ainda estamos aqui.

E eram tão lindas as minhas mãos

que eu enfim as amei e disse: obrigada.

Porque foram leais, porque me apoiaram,

mesmo no desdém do meu desamor.

Enquanto ainda as criticava, cruel:

“grandes demais estas mãos”.

Estas? As únicas que tenho. As minhas.

Que me trazem o alimento à boca, que me lavam,

que receberam meu filho,

gerentes de toda a maternagem.

Mãos são quase mães.

Grandes, sim, talvez para me lembrar

das amplas possibilidades da doação.

Mãos que sabem me alegrar quando danço,

cúmplices em liberar o gesto exato.

Mãos que buscam, tocam, detêm.

Quero-as perto, limpas,

bem honestas.

Para que eu veja, sim,

que vão se ressecando,

as unhas endurecem,

porque envelheço

e delas me despedirei.

Mas agora é tempo:

cuido que sirvam, façam pontes

e entreguem afagos.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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