Verbo de ligação


Com o amor que eu um dia deixei pra você

De novo andaram de mãos dadas pela rua. O fim de tarde mais que gentil, as árvores antigas no largo passeio da avenida, o canto doce dos passarinhos ao se recolherem, enfim o mundo se abria para que transitassem.

À mesa, face a face pronunciaram todas as sílabas do passado difícil, de paixão muita e desencontros demais.

Aludiram às dores comuns e às particulares, não sem lágrimas. Confessaram motivos. Trocaram peças. Revelaram segredos.

Vinte anos transcorridos, era mesmo deles a canção buarquiana, que lhes trouxera tanto encanto quanto angústia: “Não se afobe não, que nada é pra já…”

Almas despidas, surgiram acolhedores e, solidários, admitiram a legitimidade humana do que se ofereceram.

Então constataram preciosidades: por tanto tempo distantes, e ainda eram íntimos. Tantas inquietudes se foram, e haviam se tornado mais amáveis.

Tudo o que parecera tão emergente agora descansava nas prateleiras do tempo. Enquanto eles, por sua vez, podiam descansar um no abraço do outro. Com a alegria dos moços e a calma dos velhos. Que tinham todas as idades.

Mais do que nunca, foram namorados.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Ouça aqui Futuros Amantes, de Chico Buarque)

adri-23

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Encontro
12/06/2016, 12:45
Filed under: Prosa | Tags: , ,

Encontro de dois é estudo finíssimo.

Desperta com um fenômeno talvez explicável e ainda assim indescritível chamado atração. Para o que a aparência conta – como não? É o primeiro sinal. Mas não o único. E nem o fundamental.

Diz mais um olhar que arrebata, um jeito de ser que encanta, uma presença que se destaca, ainda que discreta, um conjunto de qualidades que despertam o interesse.

A voz expressa muito. É das imagens mais profundas do outro: timbre, densidade, afinação, dicção, musicalidade – aí muito se revela, a quem sabe ouvir.

Então pode advir a vontade de conhecer mais. E de trocar afetos com aquele mundo diverso, que num momento roçou neste. Os lábios ganham sede de beijar, de visitar o novo continente. E o corpo vai se rendendo.

Circunstância prazenteira e tão propícia a destemperar! Que paixão é tudo, menos normalidade.

Mergulhar nessa experiência e manter o centro: eis o desafio. Tornar-se capaz de se entregar sem esquecer a própria identidade.

Onides Bonaccorsi Queiroz

 

Leonid AFREMOV by Catherine La Rose (29)

Leonid Afremov (óleo sobre tela)