Verbo de ligação


A arte de habitar
01/08/2017, 15:27
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Tenho um caso de amor com a minha casa. Me dá alegria ali despertar, tudo tão em paz. Cedo abro as janelas, que venha o perfumado frescor da manhã e o canto dos pássaros tomar conta de todo o meu dentro.

O segundo aroma, ansiado e imperioso, sou eu que preparo: café. Bom na solitude. Bom no encontro. Evoca aconchego e preenche todos os cômodos.

Em cada porção do espaço de morar está tudo declarado. No que é visível ou não, os valores, os desejos, as dores, as crenças, os vazios, as vitórias, as pretensões, as possibilidades, os temores, os afetos. Casa é a foto psíquica de quem vive nela.

Parecem-me entediantes vivendas meramente utilitárias, previsíveis, do modelo “aqui eu sento”, “aqui eu cozinho”, “aqui eu durmo”. Casas interessantes contam histórias. O que demanda que o dono assimile a própria identidade, conheça seus trunfos e fragilidades, saiba de onde veio, onde está e vislumbre perspectivas futuras, planos e sonhos.

O que desejo viver? O que gosto de fazer? Quem eu quero perto de mim? É fundamental refletir sobre isso. Quanto mais estampa esses anseios, mais força e presença o lar ganha.

Pois não há quem transforme qualquer lugar em um encanto? Não há pessoas que sabem produzir beleza e harmonia com os recursos que têm à mão, ainda que escassos? Um amigo me contou que conheceu um sobrado simples onde, além da escada, havia um escorregador para as crianças descerem ao pavimento inferior. Um presente de pais para filhos e sinal inequívoco de que nessa família reinava generosidade, humor e imaginação.

Por outro lado, não há quem viva em domicílios tão sem alma, sejam palácios ou barracos, que a gente tem vontade de sair correndo? Porque o que conta é a riqueza do coração! E penso mesmo que seja do feminino, como aspecto nutridor da vida manifesto no homem ou na mulher, a capacidade de animar a própria habitação.

É saudável que a casa seja dinâmica. Que seja periodicamente repensada, rearranjada, que receba detalhes e que outros sejam retirados. Plantas e animais, do lado de dentro ou de fora, vivificam o espaço e são boa companhia.

E, por falar em convivência, acolher e confraternizar são práticas profícuas para o ambiente caseiro e para todos os envolvidos. O tempo que se passa perto de amigos fertiliza a vida. Mas não se abre a porta a pessoas cuja frequência ou comportamento não se aprecia. Cada um é guardião da sua morada e ali só deve permitir o que deseja.

Silêncio, tanto quanto possível, é fundamental. Mas música é tudo de bom. Porque há músicas que nos fazem sentir em casa, às vezes uma casa familiar, outras, uma casa adorável que a gente havia esquecido que vivia em nós.

E, assim, em sinal de gratidão por este teto sobre a minha cabeça, pelas paredes que abrigam minha intimidade e por este temporário chão que recebe meus passos, o centro da minha sala permanece sem móveis. Para que eu possa lembrar, a qualquer momento, que a vida é pra ser celebrada e, enquanto eu estiver de pé, sempre é tempo de dançar.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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Quarto da poeta Cora Coralina (1889-1985), no Museu Casa de Cora Coralina, em Goiás Velho-GO (Foto: Eduardo Vessoni)



A irretocável autoestima de Dorival Caymmi

“Eu vou pra Maracangalha, eu vou”, anuncia, radiante, o nosso grande Dorival.

“Eu vou de uniforme branco, eu vou, eu vou de chapéu de palha, eu vou”, continua. Vestido com tal elegância e leveza, a bordo da festiva canção, além do generoso sorriso, não é difícil supor que esteja se dirigindo a um lugar muito estimado.

E se é tão bom, será também boa ideia chamar alguém especial para ir junto. Então ele avisa: “Eu vou convidar Anália, eu vou”. Codinome encomendado para rimar com Maracangalha, Anália é o nome da mulher, namorada, amante ou companheira. Enfim, aquela com quem ele quer compartilhar o prazer dessa jornada.

Nesse ponto, onde se insere o refrão, letra e melodia experimentam uma inflexão, indicando, ainda com alegria, mas uma alegria diferente da anterior, que ele está ciente da possibilidade de que, por um motivo qualquer, Anália não queira ou não possa ir. Nesse caso, já sabe o que fará: “Se Anália não quiser ir, eu vou só (…) Eu vou só, eu vou só, sem Anália, mas eu vou”.

Simples e espontânea, irrompe essa flor filosófica na canção, o que a diferencia da grande maré de apologia à dependência emocional que inunda a música popular. Expedidos os devidos alvarás para a deliciosa insanidade dos recém-apaixonados – que ninguém é de ferro, aqui não há “eu só vou se você for”, “só tem graça se você estiver junto”, ou “eu não existo sem você” – mil perdões, Vinícius!

Como personagem da própria obra, Caymmi existe sim e, ao contrário de muitos, provavelmente da maioria, sabe disso. Sabe que está presente e vivo. Sabe que é um boa-praça, sente-se bem consigo e com a vida que tem. Confia na sua capacidade de desfrute e se entende merecedor de degustar o que lhe dá prazer. Então, a companhia da amada é obviamente bem-vinda e até desejada, mas não é condicionante para o seu saboroso passeio.

Seja como for, feliz da vida, ele vai a Maracangalha! Que, a propósito, é uma localidade da Bahia próxima de Salvador.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Ouça aqui Maracangalha, com Tom Jobim e Danilo Caymmi)

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O cantor, compositor, violonista, poeta e pintor Dorival Caymmi (1914-2008) (Foto: internet)

 



Com o amor que eu um dia deixei pra você

De novo andaram de mãos dadas pela rua. O fim de tarde mais que gentil, as árvores antigas no largo passeio da avenida, o canto doce dos passarinhos ao se recolherem, enfim o mundo se abria para que transitassem.

À mesa, face a face pronunciaram todas as sílabas do passado difícil, de paixão muita e desencontros demais.

Aludiram às dores comuns e às particulares, não sem lágrimas. Confessaram motivos. Trocaram peças. Revelaram segredos.

Vinte anos transcorridos, era mesmo deles a canção buarquiana, que lhes trouxera tanto encanto quanto angústia: “Não se afobe não, que nada é pra já…”

Almas despidas, surgiram acolhedores e, solidários, admitiram a legitimidade humana do que se ofereceram.

Então constataram preciosidades: por tanto tempo distantes, e ainda eram íntimos. Tantas inquietudes se foram, e haviam se tornado mais amáveis.

Tudo o que parecera tão emergente agora descansava nas prateleiras do tempo. Enquanto eles, por sua vez, podiam descansar um no abraço do outro. Com a alegria dos moços e a calma dos velhos. Que tinham todas as idades.

Mais do que nunca, foram namorados.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Ouça aqui Futuros Amantes, de Chico Buarque)

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Da escuta aos passantes
23/05/2017, 15:08
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Se quiseres compreender algo da alma humana, por um momento fecha os olhos. Assim perceberás melhor. Em silêncio à beira da estrada, ouve os passos de quantos puder. Escuta o que diz cada um.

Verificarás que apressado é o andar dos trabalhadores, homens e mulheres na suada busca do pão. Testemunha os seus pensamentos, tantas vezes aflitos e fatigados, ao defender a sobrevivência sua e dos seus.

E em se lembrando das famílias, não deixes de ouvir o passeio das crianças, que, tão leves, gostam mesmo é de ir aos pulos. Regozija-te com tanta vida, tanta alegria que permeia esse vívido trotar, pleno de fé, confiança e imaginação. Instrui-te com os pequenos mestres da liberdade.

Mas, tarefa das mais desafiadoras, ouve também as passadas de quem caminha com dureza e de quem causa sofrimento aos demais. Pressente a dor surda de quem é prisioneiro do medo. E lembra-te de que secura emocional e autoritarismo não são sinais de força, mas de fragilidade.

É prudente, entretanto, não julgar os seus portadores, para que a vida não te coloque em embaraço equivalente e não te vejas obrigado a descobrir que muitas vezes não é tão fácil superar certos obstáculos do caminho. Observa sempre e confere, adiante, a colheita desses, apenas para constatar como é que não se faz.

Ah, reserva sempre um momento para ouvir os passos visionários dos artistas, dos poetas do cotidiano. E lhes sê grato, porque, rasgados pelos sofrimentos, eles romperam fronteiras e aprenderam a voar, capturando frequências que alimentam os sonhos de todos.

E não deixes de registrar o esforço da marcha vacilante dos anciãos, nem de respeitar a sua lentidão; reverencia a história que carregam, muitas vezes penosamente. Compadece-te pelo peso do corpo do qual a vitalidade se vai retirando, e também o desafio extremo da consciência que se aproxima da hora de despedir-se deste mundo.

Ao cultivar a escuta aos passantes, deixa germinar em ti a solidariedade também por aqueles que não podem andar. Que, ainda assim, possam cumprir a travessia que lhes cabe.

Finalmente, mas também por princípio, para gostar de viver e ser feliz, escuta os próprios passos. E cuida que esse caminhar acompanhe as batidas do teu coração, porque ele é o senhor de todo ritmo.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Katie M. Berggren – óleo sobre tela)



Consultório sentimental
23/04/2017, 21:44
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Então a paixão vai ficando desconfortável.

Aquele sentimento que já foi de alegria, arejamento, descoberta e bem-querer se torna sombrio, opressivo, monótono, triste e ressentido.

Logo, inconveniente. Pior que estéril, venenoso.

Mas o enamorado irredutível, tenha em algum momento sido bem sucedido ou não em seu intento de buscar reciprocidade, nega-se a abrir mão da paixão que sofregamente carrega.

Meu amigo mineirinho filosofa sobre tal comportamento com lentes de humor: “Ocê já botô reparo qui tem uns tipo qui num é paxonado, é incutido?”

Verdade. Por quê, haverão de perguntar ao portador da dolorosa afeição, se ela lhe faz tão mal?

Para responder, ele elencará razões às dezenas, especialmente para se manter no papel que escolheu executar. Mas é bem provável que nem a si permita averiguar suas motivações mais profundas, que de fato o prendem.

Embora o acometimento de paixão em si seja legítimo, belo e respeitável, o apego a ela tem outro propósito e origem. Que nunca se localiza fora do apaixonado.

Antes, nos seus registros primeiros de vínculos afetivos, acolhedores ou hostis, nas primeiras histórias vivenciadas, nas suas carências, medos e desejos.

É, portanto, na harmonização desse campo que o candidato à emancipação emocional deve projetar seu foco, em vez de ficar atribuindo ao outro a culpa pela sua infelicidade.

Assim, permitir que a paixão se vá quando deixou de ser prazenteira é uma decisão adulta, que exige entendimento, disposição e coragem.

Porque se é verdade que ela coloca lentes cor-de-rosa entre a nossa percepção e o mundo que nos cerca, abrir mão desse anteparo é certamente assustador.

É ser lançado de novo à vida comum, àquela senda que já se mostrava tão desprovida de atrativos.

O apaixonado contumaz não quer voltar a esse lugar, que lhe parece de uma crueza e de um naturalismo insuportáveis. Por isso resiste.

Entretanto, esse singelo âmbito que tanto se evita é a nossa verdadeira casa. Somos nós mesmos. É a nossa vida, nossa instância de direito – por tempo determinado: eis um detalhe a não ser esquecido.

Ser humano é aceitar a responsabilidade de tornar o universo pessoal significativo, fecundo e… apaixonante!

Serviço para a vida inteira. Mas é bem remunerado.

Palavra de quem já se apaixonou muito, às vezes se deu bem, às vezes com os burros n’água; de quem já foi alvo de paixão e às vezes pôde retribuir, às vezes não; de quem volta e meia empresta seus ouvidos para confidências de gente apaixonada e também observa a paixão alheia; de quem já se perdeu na paixão, mas continua buscando se encontrar.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Foto: Adriana Queiroz)



A serpente da qual se deve conhecer o nome
16/03/2017, 23:04
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Eis que a novidade se apresenta. Entra pelos olhos, pelos ouvidos, pelos poros. Percorre todas as vias internas, contagia as células.

Então emerge o mal-estar. Uma sensação que parece ficar flutuando na semiconsciência, nauseante. E o desejo de não pensar mais no ocorrido.

Mas a lembrança retorna à mente. Envolta em raiva: o ressentimento de que aquilo tenha acontecido. Porque incomoda. Na verdade, raspa em algo muito suscetível que está dentro: um desejo, um sonho, uma cobiça, um anseio. E fere.

Como fere aquela específica felicidade do outro quando a mesma expectativa em nós se encontra frustrada! E talvez estivesse esquecida. Mas foi despertada pelo evento. Ou não, esteve todo o tempo ali, latejando insatisfação.

É a serpente da inveja.

Demonizada pela maior parte das pessoas, como se não fizesse parte da experiência humana. Temida e negada quase sempre, por projetar, no âmbito das crenças do ilusório senso comum, o seu portador a um constrangedor patamar de inferioridade moral.

É assim incompreendida que a inveja se perpetua. Se as valiosas informações que traz a bordo são rejeitadas, sua virulência – crescente – intoxica quem a carrega, com risco de projetar efeitos nocivos também sobre terceiros.

Remédio? Existe. Mas dá trabalho. Requer coragem, de olhar para dentro. Requer honestidade e humildade, para admitir a própria sombra.

E requer o contraponto, de identificar o que em nós é forte e fecundo. Requer, ainda, discernimento, para saber a diferença entre o desejável e o necessário. E requer também disposição, na busca do que pode de fato nos acrescentar plenitude.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Foto: internet)

 



A mais elegante do Brasil
22/02/2017, 14:27
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Aconteceu numa das poucas ruas planas de Ouro Preto: a São José. Certa tarde, saíamos de um café. Entre risos e conversas, algo bem próximo pinçou minha atenção.

Era uma moça. Que passou a um metro de mim. Cor de canela, de uns 20 anos. Simples. Andava acompanhada de uma ou duas pessoas. “Andava” é modo de falar. Fluía, distinta, sobre a calçada. Dançava o caminho com leveza. Suavemente ondulante e harmônica, sobressaía-se, soberana, como se apenas ela estivesse ali.

Trajava um vestido branco. Que parecia ter sido desenhado para ela, tão bem lhe caía. Levemente justo, sem explicitudes, de forma que lhe denunciava discretamente o corpo bem torneado, a cintura harmonizada com a proporção e a forma dos quadris, dos seios e dos ombros. Desde pouco acima do joelho viam-se as pernas, viçosas e femininas, a mover-se com graça.

Os cabelos pretos, um pouco ondulados, caíam-lhe sobre os ombros, em belo contraste com a alvura da roupa. Bonita sim, mas sem alarde. E o olhar, ah, o olhar era a própria mansidão.

Tive cuidado de dissimular a curiosidade para não constrangê-la, mas a imagem me paralisara internamente, ao exalar tanta altivez e encanto. Minha respiração ficou suspensa por alguns instantes e eu tinha a sensação de estar apreciando um quadro vivo, de ter sido tocada por uma visão sublime.

A cena me acordou por dentro. Aquele sonho de mulher, hoje arquetípica em meu cabedal, lembrava-me de algo que eu já soubera e havia preterido, em algum recinto de mim.

Não, não eram roupas, ou poder aquisitivo, ou pose, ou mesmo verniz cultural que faziam de alguém uma pessoa realmente elegante. Mas o equilíbrio interior, a aceitação de si, a serenidade no modo de ser e um quê de confiança na vida.

Porque tudo isso se reflete no corpo, na feição, nos gestos, no comportamento e, por último, na indumentária, gerando uma presença verdadeira, bela e aprazível.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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Rua São José, em Ouro Preto-MG (Foto: Eduardo Tropia)