Verbo de ligação


Um recado para Teresa
01/02/2019, 22:22
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A quem lhe pedisse conselhos, ela recomendava: “Não devemos permitir que alguém saia de nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz”.

E, em seus gestos, oferecia sustentação às suas palavras.

Nas visitas constantes aos fragilizados pela miséria ou pela enfermidade, frequentemente por ambas, era esse o bem que se esforçava por obter.

Certa vez, em seu cotidiano e humanitário sacerdócio, dirigiu-se à casa de um velho pobre e doente, que vivia só.

Conversou com ele e, com o coração, escutou-lhe as dores, mais que físicas. E sua presença afetuosa o confortou.

Constatando, então, o abandono a que estava entregue a pequena morada, pediu ao homem que a deixasse limpá-la e organizá-la.

O ancião recusou. Quem era ele para ter sua casa faxinada por Madre Teresa de Calcutá?

Mas ela insistiu. E ele cedeu. E ela se lançou a tarefa.

Em dado momento, a madre encontrou uma lamparina velha, suja e enferrujada, e lhe perguntou por que a peça não era utilizada. O homem disse que ninguém o visitava e que, por isso, ele não precisava de luz em sua casa.

Teresa limpou o objeto o melhor que pôde e, assim que dedicou os últimos cuidados da visita ao enfermo, antes de sair deixou a lamparina acesa.

Anos depois, o homem lhe enviou um recado: “Contem à minha amiga que a luz que ela acendeu em minha vida continua brilhando!”

Onides Bonaccorsi Queiroz

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“O importante não é o que se dá, mas o amor com que se dá.” Madre Teresa de Calcutá
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A bandeira da paz
21/09/2018, 21:47
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O germe da violência desponta no interior da gente. A destemperar corações distraídos ou anestesiados.

Surge quando permitimos que o medo seja maior do que o amor.

Quando consideramos razoável a ideia de ter inimigos e empregamos nosso tempo e vitalidade em combatê-los.

Quando colocamos nossos desejos sempre em primeiro lugar, ignorando as emergências e necessidades dos demais.

Quando deixamos de confiar em nossa capacidade de resolver os problemas pacificamente e fazemos uso de agressões morais e físicas, admitindo que ferir alguém possa ser uma medida razoável na solução de conflitos.

Quando não respeitamos formas de ser diferentes da nossa, aprovando a circunstância de que outros seres humanos sejam submetidos a hostilidades.

Quando respondemos à violência com mais violência, sem assumir que estamos perpetuando esse terrível círculo vicioso.

Quando negligenciamos nossa responsabilidade de cidadãos para dar crédito às vozes equivocadas do autoritarismo, sempre indicativas de fragilidade moral e cognitiva.

Quando, desmemoriados, esquecemos que as guerras, civis ou militares, apenas trouxeram mais sofrimento à humanidade, especialmente aos mais frágeis e inocentes.

Quando acompanhamos o comportamento ruidoso da multidão, sem nos deter para escutar o que o próprio discernimento nos aconselha a fazer.

Quando não avaliamos o possível potencial ofensivo de nossas palavras antes de pronunciá-las e findamos por criar indisposições contra nós.

Quando nos deixamos dominar pelo orgulho e pelo egoísmo, desconhecendo o poder transformador do diálogo e da cooperação.

Quando não enxergamos, além das aparentes individualidades, a unidade em que estamos todos reunidos. A nós, apenas essa consciência acudirá, guarnecida da amorosidade e da coragem para sustentar, em palavras e atitudes, a bandeira da paz.

Onides Bonaccorsi Queiroz

pacifismo

Washington, 21 de outubro de 1967: a estudante Jan Rose Kasmir, de 17 anos, participava, junto a 100 mil manifestantes, de um protesto pacífico contra o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã (Foto: Marc Riboud)

 



O fator Gleici
23/04/2018, 19:13
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Há muitos anos não vejo televisão, décadas. É que um dia percebi que perdia muito tempo de vida real em frente à tela e simplesmente deixei de assistir.

Então não adianta me falarem sobre o que acontece na TV, que eu não sei. Mas esses dias quis saber. O motivo: Gleici Damasceno, que acaba de vencer o tal jogo.

Gosto muito dela, e digo por quê. Já trabalhamos juntas aqui no Acre, durante breves meses. No começo, sempre que ela me via, abria um sorriso e me cumprimentava com gentileza. Não resisti à sua doçura e procurei me colocar à altura da sua simpatia.

Participamos das mesmas reuniões de pauta, e a vi opinar com decisão e conhecimento de causa sobre os movimentos sociais e culturais das comunidades da periferia de Rio Branco.

Então, movida por curiosidade perante a sua precoce lucidez, certa manhã lhe pedi que me contasse a sua vida. Com aquele seu olhar belo, transparente e brilhante, ela me narrou uma história difícil de se ouvir.

Uma história que tinha belezas, especialmente pela força e esperança que ela trazia dentro de si, mas muitos momentos de arrasar o coração da gente, com dor e privação desde a infância, quando a fome era uma figurinha carimbada do seu cotidiano.

Ainda criança, lutando pela própria sanidade no ambiente conturbado e violento em que vivia, fugia para a igreja buscando uma referência de segurança na religiosidade. Lutou também pela sobrevivência, e começou a trabalhar com 12 anos.

Sofreu muito e viu o sofrimento de familiares, vizinhos e amigos. Mas sempre resistiu, argumentando que queria estudar, trabalhar e crescer para se ajudar, ajudar a sua família e a sua gente. Naquele dia, chorei ao ouvir a sua história. E lhe disse:

– Você é uma pérola, Gleici.

Há poucos dias chorei de novo ao saber que ela venceu a disputa. Porque triunfou com dignidade, soube ser ética, humilde, verdadeira e assertiva. Não abriu mão de seus princípios por dinheiro. Não traiu a sua história de “acreana do pé rachado” por aprovação social. Foi ela mesma o tempo todo.

E, sobretudo, mostrou ao Brasil que é possível vencer sendo honesto. Provou que esse valor ainda é reconhecido entre os seres humanos e que pode ser a referência de um novo-velho modo de viver, muito mais gratificante para o indivíduo e para a coletividade.

No mais, vejo em Gleici tanta luz e determinação, que me resta dizer: ela está só começando.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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Gleici Damasceno (Foto: internet)



Como te atreves, gentalha?
10/04/2018, 22:42
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Como te atreves, gentalha? Como ousas sair do teu subúrbio imundo, para onde abomino olhar?

Com que insolência perante mim te afirmas explorada, como se não fosse meu direito me servir de ti?

Por que te recusas a aceitar que o mundo é assim? Tão nítido é o princípio que instituí: eu nasci para dominar e tu, para suportar.

Tuas queixas não têm sentido, o lugar que ocupas nem é tão ruim quanto alegas.

Isso o compreendem muitos membros da tua laia vil, os que tomaram o lugar que eu lhes dei. Que me ocupo de te formar, te confundir e te colocar contra ti própria.

Então, caprichosa, deixa de devaneios e volta, humilhada, para o teu cafofo, tua favela, teu agreste, tua baia, tua cela.

Enquanto isso, aos meus concedo máscaras convincentes, nobres discursos e abrigo das tempestades, para que presumam que seus argumentos são legítimos, assim como suas doces prerrogativas.

Aos teus insubmissos, sejam inocentes ou culpados, destino o tronco. Sirvam de exemplo. É tradição da casa.

Eu estou aqui para defender o que é meu. Filho do medo, irmão da hipocrisia, pai da miséria e da violência, sou o egoísmo humano.

Onides Bonaccorsi Queiroz

morador de rua

(Foto: internet)



Cada um é instrutor, menos eu
06/04/2018, 21:15
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A inusitada frase é do escritor japonês Eiji Yoshikawa, falecido em 1962, aos 70 anos. E me inquietou desde que a li pela primeira vez.

Pode soar, a princípio, enigmática e até incoerente. Mas parece-me tão instigante que nunca deixei de refletir sobre ela. Entendimento em construção, assim a desvelo: ser humano, sou aprendiz e, como tal, tenho como tarefa observar o mundo e me instruir sobre a vida.

Para que se realize esse estudo, sirvo-me, por exemplo, dos procedimentos que as pessoas utilizam. Ao assistir a alguém que se porta de maneira sincera, generosa, benevolente, eu aprendo. Com os seus bem-sucedidos atos, constato o que funciona, o que é bom – entendendo como “bom” aquilo que beneficia todos e promove a vida.

Mas também me esclarecem aqueles que têm atitudes egoístas, ignorantes ou destrutivas, porque identifico o prejuízo que derramam sobre o seu entorno, e inevitavelmente sobre si próprios.

Dedicam-se a obter ninharias, inclusive de grande vulto, mas nunca encontram paz ou gratificação verdadeira. Porque é sempre superficial e ilusório o ganho particular que custa o sofrimento alheio. E assim, tomando o malfeitor como professor, certifico-me de como não devo agir.

A natureza também é mestra, grandiosa e sublime. Por isso atento às suas leis, ciclos, dinâmicas e compensações. E, ainda, lúdicas conselheiras, as crianças ensinam o tempo todo, com alegria, inocência, lucidez e criatividade.

Por outro lado, quando afirmo que não ocupo o papel de instrutor, isso não quer dizer que ninguém possa aprender com as minhas atitudes. E nem que eu não tenha desenvolvido virtudes ao longo da vida. Pois, se faço o que amo, ofereço o meu melhor a todo o planeta e essa contribuição não costuma passar despercebida.

Entretanto, para garantir a integridade do meu exercício, devo recolher a pretensão egoica de ser reconhecida como mentora, para não dar vazão à vaidade. Porque esse sentimento me causa ilusão de superioridade e, portanto, distorce a minha percepção do que é real, atraindo o erro, a humilhação e o sofrimento.

Daí o meu respeito a esse precioso princípio, de execução permanente: cada um é instrutor, menos eu.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Imagem: internet)

                                         



Um drible na gravidade
19/03/2018, 23:26
Filed under: Prosa

Já passando dos 60, o mestre de obras ainda caminhava agilmente sobre os telhados das construções. Admirada, cá embaixo eu observava sua desenvoltura, do beiral à cumeeira. Um dia lhe perguntei:

– Como o senhor faz isso com tanta facilidade?

Ele explicou, tranquilo:

– Eu solto o peso pra cima!

Ri e fiquei pensativa com a resposta inquietante e divertida. Mas, com o tempo, deixei de me lembrar do fato, sem nunca tê-lo esquecido.

Há uns meses, aconteceu-me algo desagradável, que me abalou consideravelmente. E, no meio daqueles dias de confusão, sem saber ao certo o que pensar e fazer, que instrução emergiu na minha ideia?

– Solta o peso pra cima!

Sem maiores alternativas, resolvi experimentar a proposta. E, ao colocá-la em prática, fui me dando conta do teor de sabedoria ali contido. Entendi que “soltar o peso pra cima” significa que, antes de tudo, você reconhece que está com uma carga. O que é honesto.

Depois, soltá-lo “pra cima”, revela que você não está disposto a permitir que incida sobre o seu comportamento a ação da “gravidade” – as tendências pessimistas, que derrubam o humor, levando ao chão emocional.

Quando solta o peso pra cima, você está se comprometendo a se movimentar na situação crítica de modo cuidadoso, próprio a não gerar outras dificuldades que tornem a carga mais pesada: como a lamentação, a acusação, a autovitimização e a desesperança. Munido de atenção, você silencia, sente, pensa, olha o que acontece à sua volta e economiza esforços, dando apenas os passos que avalia necessários.

Um dia de cada vez, e aos poucos vão-se disciplinando a mente e os hábitos descomedidos. Assim, pode surgir certa tensão, mas não haverá histeria. Pode advir medo, mas não haverá imobilidade. E podem despontar estados de tristeza, mas não haverá depressão. Até que, cedo ou tarde, a questão é resolvida.

Aprender a soltar o peso pra cima é um gesto de responsabilidade, coragem e criatividade humana. Conforme ensinou-me um mestre.

Onides Bonaccorsi Queiroz

mãos ao vento

(Imagem: internet)



Prazer em te conhecer, meu filho
27/02/2018, 20:15
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Viver a maternidade ou a paternidade de modo atento e amoroso é uma experiência de extraordinário valor existencial.

Criar um filho assumindo as responsabilidades emocionais e práticas que a tarefa implica é examinar a vida de perto, é recriar-se e tornar mais compreensivo e generoso o nosso olhar para o mundo.

Construir a história comum aos dois, apropriando-se das heranças e aprendizados dos antepassados e aproveitando as oportunidades que o cotidiano nos dá de trocar informações com aquele ser que está sob a nossa guarda é um trabalho de imensa riqueza.

Entretanto, um dos aspectos mais belos desse processo não é tão somente conferir o resultado satisfatório que almejamos e programamos ao longo de anos, ao nos dedicarmos com afinco à formação integral daquela pessoa.

Para além disso, o que nos surpreende positivamente, quando cumprimos com as incumbências parentais, é descobrir que existem expressões que são particulares desse sujeito, algo que não dependeu diretamente da nossa influência – mas que certamente passou pelo nosso consentimento amoroso –, algo inusitado que ele exprime de forma serena, profícua e original, como elemento legítimo de sua natureza.

Então constatamos que a revelação e a manifestação das potencialidades desse filho nos promovem, nos renovam e nos alegram. E fazem despontar a conclusão: a tarefa mais nobre dos pais, também sutil e laboriosa, é proporcionar toda a provisão necessária, composta de afeto, limites, liberdade, incentivo e esteio material para que esse indivíduo possa vir a ser exatamente quem ele é.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Foto: Adriana Queiroz)