Verbo de ligação


A bandeira da paz
21/09/2018, 21:47
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O germe da violência desponta no interior da gente. A destemperar corações distraídos ou anestesiados.

Surge quando permitimos que o medo seja maior do que o amor.

Quando consideramos razoável a ideia de ter inimigos e empregamos nosso tempo e vitalidade em combatê-los.

Quando colocamos nossos desejos sempre em primeiro lugar, ignorando as emergências e necessidades dos demais.

Quando deixamos de confiar em nossa capacidade de resolver os problemas pacificamente e fazemos uso de agressões morais e físicas, admitindo que ferir alguém possa ser uma medida razoável na solução de conflitos.

Quando não respeitamos formas de ser diferentes da nossa, aprovando a circunstância de que outros seres humanos sejam submetidos a hostilidades.

Quando respondemos à violência com mais violência, sem assumir que estamos perpetuando esse terrível círculo vicioso.

Quando negligenciamos nossa responsabilidade de cidadãos para dar crédito às vozes equivocadas do autoritarismo, sempre indicativas de fragilidade moral e cognitiva.

Quando, desmemoriados, esquecemos que as guerras, civis ou militares, apenas trouxeram mais sofrimento à humanidade, especialmente aos mais frágeis e inocentes.

Quando acompanhamos o comportamento ruidoso da multidão, sem nos deter para escutar o que o próprio discernimento nos aconselha a fazer.

Quando não avaliamos o possível potencial ofensivo de nossas palavras antes de pronunciá-las e findamos por criar indisposições contra nós.

Quando nos deixamos dominar pelo orgulho e pelo egoísmo, desconhecendo o poder transformador do diálogo e da cooperação.

Quando não enxergamos, além das aparentes individualidades, a unidade em que estamos todos reunidos. A nós, apenas essa consciência acudirá, guarnecida da amorosidade e da coragem para sustentar, em palavras e atitudes, a bandeira da paz.

Onides Bonaccorsi Queiroz

pacifismo

Washington, 21 de outubro de 1967: a estudante Jan Rose Kasmir, de 17 anos, participava, junto a 100 mil manifestantes, de um protesto pacífico contra o envolvimento dos EUA na Guerra do Vietnã (Foto: Marc Riboud)

 

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Credo ecumênico

Eu creio. Creio que um poder superior rege tudo o que existe. Creio que essa força seja o próprio amor, por natureza inclusivo e benevolente.

Creio que, como tal, em sua generosidade lança mão de todos os meios possíveis para atingir o coração das pessoas e fazer despertar nele a pureza e a fraternidade, mantenedoras da vida.

Creio que, em sua misericórdia e criatividade infinitas, propicia o surgimento das culturas e, por meio delas, estabelece múltiplos caminhos para ocasionar o “religare”, isto é, a harmonizadora reconexão do ser humano com a sua origem divina.

Creio que todos temos o direito à liberdade de culto e também ao livre-arbítrio de não crer, mesmo porque tudo é exercício de consciência. E creio que temos o dever de respeitar a diversidade das crenças. Creio na promoção de uma cultura de paz.

Onides Bonaccorsi Queiroz

respeito (2)

Dalai Lama, líder budista, confraterniza com sacerdote muçulmano (Foto: internet)



dezessete

Dezessete homens da Polícia Militar do Paraná se negaram, esta semana, a entrar em confronto com a população. Em sua maior parte, eram professores que protestavam, em Curitiba, contra a manobra de autoridades que desejam usurpar recursos da classe para pagar a conta da incompetência na administração pública.

Dezessete homens – e talvez mulheres – se recusaram a combater um movimento pacífico e justo, realizado por um dos segmentos mais fundamentais na formação da sociedade e – disparate – mais desprezados.

Dezessete homens não se dispuseram a avançar contra o povo, a atirar contundentes projéteis de borracha, a soltar cães ferozes sobre trabalhadores, a lançar, no meio da multidão, bombas de efeito moral – “moral”? Oh, ironia…

Dezessete homens – também já se falou em cinquenta – perceberam o equívoco e encontraram dentro de si envergadura ética para resistir e dizer: eu não!

Eles sabiam que então seriam punidos, dentro da corporação, com prisão e talvez exoneração. Que seriam discriminados – e até mesmo invejados – por muitos colegas de batalhão que não compreendessem que o discernimento é um valor mais elevado que a obediência. Mas, como a consciência traz a coragem para realizar a tarefa necessária, eles puderam seguir seu intento.

Dezessete. Queria saber quem são eles, olhar nos seus olhos, ouvir suas histórias e aspirações. O que pensaram, o que sentiram, o que farão? Queria saber como foram educados, como era o ambiente da sua infância, dos seus lares.

Queria beijar a mão de suas mães, que souberam cultivar na alma deles terrenos propícios para que tivessem um coração pulsante e compassivo. E também a mão de seus pais, que não se furtaram a estabelecer os limites indispensáveis para que esses homens tivessem condições de agir como tanta grandeza e honra.

Cada um desses valorosos homens deve orgulhar não apenas seus filhos, suas esposas, familiares e amigos, mas toda a nação humana. Porque quando, diante de um cenário tão lamentável que nos arranca dolorosas lágrimas, nos deparamos com tamanha dignidade, nosso peito consegue, de novo, respirar esperança.

Dezessete mil rosas de gratidão para condecorar, promover e festejar esses bravos homens que, no exercício de sua profissão, não abdicaram de sua humanidade.

Onides Bonaccorsi Queiroz

rosas brancas

    (Foto: internet)