Verbo de ligação


A VIAGEM DO OLHAR
25/09/2009, 18:59
Filed under: Prosa | Tags: ,

Às oito da noite seus olhos já estão vermelhos de sono, de modo que iniciamos o procedimento de recolher. Escovar os dentes, fazer xixi, colocar o pijama, acender o abajur de lâmpada azul fraquinha e ir pra cama.

Ele sempre pede que o acompanhe, que me deite ao seu lado até que adormeça. Quase sempre vou. É um momento todo nosso, todo ninho, todo de mãe e filhotinho.

Oito anos e meio passaram rapidamente. Foi outra tarde mesmo que, vinda da maternidade, entrei aqui em casa meio vacilante, com aquele pacotinho vivo nas mãos e uma vaga sensação de que tudo tinha se transformado completamente.

Mudou mesmo. Muda todo dia. Há sempre novidades a bordo da vida, sobretudo da infância.

E, desde o nascimento até que cresça, estou nomeada guardiã do contato saudável dessa criança com o mundo. Cuido que sua liberdade e segurança estejam asseveradas.

O que muito depende do testemunho responsável que eu lhe ofereça. Pois a criaturinha descobre o mundo amparada em mim e confia nos meus conceitos, cheia de fé em cada um dos meus atos e palavras. Preciso estar atenta e disponível para me reeducar permanentemente. E prontamente, porque este tempo é de ouro para sua formação.

Assim, quando ele me chama para perto, quase sempre vou. Abraço seu corpinho quente, beijo seu rosto macio e suas mãozinhas ainda gorduchas, como quando era bebê.

Às vezes pede pra eu cantar. Canto. Às vezes pede pra eu por música. Ponho. Não pede mais pra eu contar história porque sabe que, embora esse seja um dos meus ofícios diurnos, naquela horinha ali minha voz vai ficando mole e a história sem sentido, não falo mais coisa com coisa e acabo por dormir antes do que ele.

Mas gosto de lhe propor:

Vamos rezar, meu querido?

Ele quer. Pede ao Papai do Céu e à Mamãe do Céu que dêem uma boa noite para si, para o Papai, para a Mamãe, para Ângelo e Alana, seus irmãos que chegaram antes e na barriga de outra mãe, pede boa noite também para Vovó There e Vovô Pietro, para a Nonna Ágata e para toooodas as pessoas. Aí faz uma prece para o anjinho da guarda. Uma das minhas preferidas tomei emprestada da antroposofia. Diz assim:

Meu anjo da guarda,

Me protege, me  guarda,

Dia e noite, ó, anjo meu,

Até eu ir pro céu.

Então mandamos beijinhos pro Menino Jesus e ficamos bem quietinhos, esperando o sono chegar.

Às vezes, quando acho que já embarcou no “até amanhã”, lembra umas coisas do dia. As brincadeiras, o que aconteceu na escola, o que a fulaninha fez. Conta e dá risada. Sujeitinho bem-humorado.

Mas ontem… Ele me pegou de surpresa. Começou assim:

Continue lendo

Anúncios