Verbo de ligação


um jeito tão bom de ser pessoa

Desde a primeira visita, e aí se vão mais de 15 anos, percebi no Acre uma qualidade de pessoas muito diferenciadas.

Uma proximidade que eu já não julgava humana. Uma capacidade de acolhimento imediata, sem necessidade de aviso nem reserva. Uma simplicidade de fazer descabida qualquer afetação. Uma amabilidade de encabular os incrédulos.

E, quanto mais para o interior do estado a gente vai, ou quanto mais adentra a floresta, mais se pronuncia essa característica, sobretudo entre os mais velhos. Mais encanta e desconcerta.

É um jeito tão bom de ser pessoa que sempre me dá a impressão de que tenho que aprender tudo de novo. Já que a velha maneira, a da civilização em excesso, há muito dá mostras de que não funciona.

E se de fato quiserem que funcione, é preciso habitar o mundo com outra presença, mais vibrante, menos artificial. É preciso observar o modo de viver dos povos que têm esse conhecimento.

Como fonte de inspiração, recolho histórias, como a que me chega de um rapaz, belo rapaz e talentoso fotógrafo chamado Alexandre Noronha. Ele gosta de motos. A que pilota atualmente parece uma Harley Davidson, o que faz com que chame a atenção aqui e acolá. Portentosa, é preta, com detalhes cinza e cromados.

Foi sobre ela que, parado num sinal do Seis de Agosto, um dos mais antigos bairros de Rio Branco, Alexandre se pôs a observar um senhor a quem atribuiu uns 65 anos, caminhando pela calçada. Vinha com dificuldade, com a ajuda de uma bengala. A camisa aberta até a barriga.

Foi se aproximando, com atenção recíproca ao motociclista, chegou mais perto e então ocorreu algo inusitado. Quem conhece a levada da gente tradicional do Acre pode crer na tamanha pureza e espontaneidade do homem, que abriu o maior sorriso e, já com poucos dentes, disparou:

– Ah, motoqueiro lindo!

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: Alexandre Noronha)

(Foto: Alexandre Noronha)

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COMO ANTÔNIO AMA JOÃO
09/06/2009, 19:59
Filed under: Prosa | Tags: , ,

            Um ano tinha meu filho Antônio e seus olhos já brilhavam sempre que via João, com o dobro de sua idade. João foi seu primeiro amigo e, aos poucos, tornou-se seu ídolo.

            Antônio aprendeu a falar. Depois, a articular pensamentos. E disparava: “por que meu nome não é João?”, “por que meus olhos não são verdes como os do João?”, “quando eu crescer vou ter um filho chamado João”.

            Então Antônio começou a aprender as letras. Seu alfabeto começou pelo “J”, naturalmente. E logrou escrever o nome do amigo antes do seu próprio.

            Tudo o que João fala é verdade incontestável. A prova cristalina? “O João que disse”. De modo que, desde alguns anos, convivo com o fato de que João é autoridade dentro da minha casa.

            Se conhece algo bom, seja diversão ou comida, Antônio quer que João também experimente. E brincar com João é melhor do que qualquer passeio com adulto – a não ser que João vá junto.

            É um amor surpreendente. Comovente. Quanta pureza e lealdade Antônio me mostra que pode haver na amizade.

            Agora têm 6 e 7 anos. Daqui de dentro ouço a risada deles. E logo gargalham. Tanto que me deixam curiosa. O que estarão fazendo?

            Um tanto saudosa da minha própria inocência, aproximo-me, espreito-lhes. Ah, o motivo é bom! É dos preferidos das crianças.

            As fartas chuvas de ontem lhes possibilitam, agora, modelarem grandes croquetes de barro. Por associação de imagens, o tema da brincadeira é: cocô. O que lhes parece muito, muito engraçado. Estão repletos de felicidade e de lama.

            Reverente ao seu brincar, ao qual se dedicam apaixonadamente, vejo-me envolvida numa aura de cumplicidade à infância. Então puxo pela memória afetiva para tentar lembrar: como se faz mesmo essa coisa, a alegria?

            Parece que sem grandes exigências. Mergulho no exato momento que estou vivendo e deixo-me por conta dessa atmosfera. Quando reparo, já estou rindo do cocô também. E agradeço à abertura que, em mim, deixa escapar as risadas, pois sei – ah, eu sei! – o quanto valem.

            Pronto: já sou um deles.

            Declaro aberta a roda da brincadeira na minha vida. Estou largando esta ridícula mochila pesada de negatividade, que tanto me fere os ombros, fecha o peito, enfraquece minhas pernas e esgota minha vida em vão.

            Sinto gratidão aos meus “santinhos juninos” e a todas as crianças, por me ensinarem que o mundo fabuloso da inocência existe sim. “Venha!”, estão sempre nos convidando.

            Com licença, meus pequenos amores, estou entrando.

            E, porque esse é o destino humano, cedo ou tarde haverei de amar todas as criaturas como Antônio ama João.

Onides Bonaccorsi Queiroz



Condão
05/06/2009, 12:04
Filed under: Imagem, Poesia | Tags: , ,
Fada Maria Júlia, minha afilhadinha

Fada Maria Júlia, minha afilhada

Tem pena, Senhor,
tem carinho especial
com as pessoas muito lógicas,
muito práticas,
muito realistas,
que se irritam
com quem crê
no cavalinho azul.

Dom Hélder Câmara