Verbo de ligação


COMO ANTÔNIO AMA JOÃO
09/06/2009, 19:59
Filed under: Prosa | Tags: , ,

            Um ano tinha meu filho Antônio e seus olhos já brilhavam sempre que via João, com o dobro de sua idade. João foi seu primeiro amigo e, aos poucos, tornou-se seu ídolo.

            Antônio aprendeu a falar. Depois, a articular pensamentos. E disparava: “por que meu nome não é João?”, “por que meus olhos não são verdes como os do João?”, “quando eu crescer vou ter um filho chamado João”.

            Então Antônio começou a aprender as letras. Seu alfabeto começou pelo “J”, naturalmente. E logrou escrever o nome do amigo antes do seu próprio.

            Tudo o que João fala é verdade incontestável. A prova cristalina? “O João que disse”. De modo que, desde alguns anos, convivo com o fato de que João é autoridade dentro da minha casa.

            Se conhece algo bom, seja diversão ou comida, Antônio quer que João também experimente. E brincar com João é melhor do que qualquer passeio com adulto – a não ser que João vá junto.

            É um amor surpreendente. Comovente. Quanta pureza e lealdade Antônio me mostra que pode haver na amizade.

            Agora têm 6 e 7 anos. Daqui de dentro ouço a risada deles. E logo gargalham. Tanto que me deixam curiosa. O que estarão fazendo?

            Um tanto saudosa da minha própria inocência, aproximo-me, espreito-lhes. Ah, o motivo é bom! É dos preferidos das crianças.

            As fartas chuvas de ontem lhes possibilitam, agora, modelarem grandes croquetes de barro. Por associação de imagens, o tema da brincadeira é: cocô. O que lhes parece muito, muito engraçado. Estão repletos de felicidade e de lama.

            Reverente ao seu brincar, ao qual se dedicam apaixonadamente, vejo-me envolvida numa aura de cumplicidade à infância. Então puxo pela memória afetiva para tentar lembrar: como se faz mesmo essa coisa, a alegria?

            Parece que sem grandes exigências. Mergulho no exato momento que estou vivendo e deixo-me por conta dessa atmosfera. Quando reparo, já estou rindo do cocô também. E agradeço à abertura que, em mim, deixa escapar as risadas, pois sei – ah, eu sei! – o quanto valem.

            Pronto: já sou um deles.

            Declaro aberta a roda da brincadeira na minha vida. Estou largando esta ridícula mochila pesada de negatividade, que tanto me fere os ombros, fecha o peito, enfraquece minhas pernas e esgota minha vida em vão.

            Sinto gratidão aos meus “santinhos juninos” e a todas as crianças, por me ensinarem que o mundo fabuloso da inocência existe sim. “Venha!”, estão sempre nos convidando.

            Com licença, meus pequenos amores, estou entrando.

            E, porque esse é o destino humano, cedo ou tarde haverei de amar todas as criaturas como Antônio ama João.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Anúncios