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Aracy: a mulher a quem Guimarães Rosa dedicou o Grande Sertão
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Aracy Moebius de Carvalho foi mulher de Guimarães Rosa durante 30 anos (Foto: Álbum de família)

“A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”.

Quem seria essa que recebeu de um homem da estatura de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores da Língua Portuguesa, a honra e o afeto da dedicatória naquela que viria a ser sua obra-prima, “Grande Sertão: Veredas”?

Aracy Moebius de Carvalho nasceu em Rio Negro, no Paraná. Filha de pai português e mãe alemã, em 1934, aos 26 anos, era desquitada – um escândalo para a época. Fluente em várias línguas (português, inglês, francês e alemão), logo embarcou, com seu filho Eduardo, de cinco anos, num navio para a Alemanha.

Em Hamburgo, tornou-se chefe da seção de passaportes do consulado brasileiro, onde, em 1938 conheceu o escritor, que era cônsul adjunto. Casaram-se em 1940.

Com o nazismo em plena ascensão, viu os judeus serem expulsos do funcionalismo público, banidos das escolas e universidades e perderem seus direitos e propriedades. Observou também o antissemitismo encampado pelo governo Vargas.

Diante desse cenário, decidiu burlar, em sua função, a Circular Secreta 1.127, orientação diplomática que restringia a entrada de semitas no Brasil. Aracy teria, na administração pública de Hamburgo, cúmplices para conseguir falsos atestados de residência para que judeus de outras regiões pudessem pedir vistos na cidade, obtinha passaportes sem o “J” vermelho que os identificava, misturava os pedidos de vistos de judeus a outros documentos para que o cônsul-geral, Joaquim Antônio de Souza Ribeiro, assinasse sem perceber e chegou a transportar alguns perseguidos no carro diplomático. “Joãozinho” – como ela chamava Guimarães Rosa – sabia e aprovava sua atitude.

Contemporâneos relatam que ela era tão bela e atraente quanto determinada e indócil. Certa vez, numa fronteira germânica, um policial queria revistá-la. Aracy lhe aplicou uma descompostura tão enfurecida que o fez recuar. Ela, então, atravessou calmamente a divisa com um judeu no porta-malas do carro. Utilizando-se desses procedimentos e recusando qualquer tipo de gratificação financeira, calcula-se que livrou dezenas de famílias da prisão e da morte.

Aracy, Rosa e Eduardo permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados da Segunda Guerra Mundial. Antes do retorno ao Brasil, tendo sido investigados por autoridades alemãs e brasileiras, ficaram quatro meses sob custódia da Gestapo, até que foram trocados por diplomatas alemães.

Como ambos eram desquitados, só oficializaram a união na Embaixada do México, em 1947, no Rio de Janeiro, cidade onde foram morar. Companheira de três décadas do escritor – Rosa morreria em 1967 –, Aracy também participou empenhadamente das criações literárias do marido. E, depois de viúva, não tornou a se casar.

Em 8 de julho de 1982, recebeu o título de “Justa entre as Nações”, conferido pelo Museu do Holocausto, em Jerusalém, a não-judeus que ajudaram judeus a escapar do nazismo. Foi a única mulher e a única brasileira que recebeu a condecoração. Conhecida como o “Anjo de Hamburgo”, recebeu homenagens também no Museu do Holocausto de Washington.

No Brasil, Aracy auxiliou artistas e intelectuais durante o regime militar. Em 1968, quando “Pra não dizer que não falei das flores” se tornou um hino contra a ditadura, ela escondeu Geraldo Vandré, autor e intérprete da canção, no seu apartamento em Copacabana, num prédio onde moravam diversos oficiais.

Nos últimos anos de sua vida, enfrentou a doença de Alzheimer, e faleceu em 2011, em São Paulo, aos 102 anos.

No mesmo ano, a historiadora Mônica Schpun publicou, pela Editora Record, o livro “Justa: Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus trocando a Alemanha nazista pelo Brasil”. Em 2014, foi a vez do ator e diretor Caco Ciocler lançar o documentário “Esse Viver Ninguém me Tira”, relatando a saga anônima de Aracy.

Diante de uma história tão desafiadora e de uma biografia tão respeitável, há que se perguntar: por que uma mulher, morando num país estrangeiro em meados do século passado, às vésperas de uma guerra, resolve desobedecer as normas de seu país e desafiar as garras cruéis do nazismo, arriscando a própria vida, a de seu filho e de seu companheiro? A própria Aracy teve oportunidade de responder: “Porque era justo”.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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“Joãzinho” e “Ara” (Foto: Álbum de família)



a dona da casa
08/03/2015, 00:05
Filed under: Data, Fotografia, Prosa | Tags: , ,
Moradora do Seringal Amapá, no município de Rio Branco, Acre (Foto: Arison Jardim)

Dona Mariazinha, moradora da BR-364, no município Mâncio Lima, Acre (Foto: Sérgio Vale)

Quem está atento sabe: a casa é a cara do dono. No todo e nos detalhes, ali se encontra estampado o espírito, o modo de ser, a história, as crenças, medos, ambições e sonhos de quem a habita.

Altiva em sua morada, em sua cozinha, aí está ela: “dona Mariazinha”, como é conhecida em sua comunidade. Respeitável senhora. De bem com a vida. Como é que eu sei? Do jeito que todo mundo pode saber: observando, refletindo e alinhavando com os retalhos da caixinha pessoal.

No registro desse instante, quanto equilíbrio se exprimiu na composição da imagem, sabiamente capturada pelo fotógrafo!

Além da serenidade na expressão da mulher, saltam aos olhos as panelas muitíssimo bem areadas, reluzentes, instrução transmitida de mãe para filha nos seringais acreanos, como herança da tradição nordestina, para espelhar os atributos da dona da casa. Qual o significado disso? Atestado de competência em seu fazer. Resultado: autoestima. Como se o brilho do metal comprovasse: “Eu funciono”.

O ordenamento geométrico dos utensílios é notável. E denota a capacidade de organização mental de sua possuidora. Panelas agrupadas segundo a categoria, penduradas em linha reta, simetricamente distantes, da maior para a menor. As tampas mais ao canto, visíveis, acessíveis. Por sua vez, lógica e meticulosamente arranjados, também os pratos, acomodados segundo a cor, talheres e copos emborcados – para não cair pó nem insetos. Por associação, a jarra ao lado. E ainda há os eletrodomésticos, limpos e protegidos, prontos para o uso.

Isso é que é uma cozinha planejada. Estabelecida a partir de simplicidade e inteligência. Como negar a funcionalidade que há nessa arrumação? Sem falar na estética harmoniosa, que resulta num conjunto agradável de se olhar.

E a toalha? Ainda que de plástico, que delicadeza, que bom gosto, ilustrada com cestinhas e fitas. Visivelmente asseada, gera uma impressão de confiabilidade.

Assim equipada, não é difícil supor que a dona da casa goste de cozinhar e de receber. Portanto, deve gostar de gente, o que não é tão comum hoje em dia. Dá até pra imaginar o cheiro de sua comida bem temperada, caseira e pontual.

A postura distinta e relaxada, a mão pousada suavemente sobre a mesa, munhequeira no pulso. Hum. A dor e todos os sintomas físicos sempre transmitem um recado da alma – talvez nossa amiga, tão ativa, esteja trabalhando demais.

Por sua vez, o vestido, confortável, é simples, de casa. Como na cena toda, não apresenta luxo algum. Mas que dignidade!

Muitas mulheres não se reconhecerão nela. Outras se lembrarão da mãe, da avó ou de alguém distante. Mas mesmo para as modernas, cultas, urbanas, sofisticadas ou distanciadas da realidade da floresta, dona Mariazinha, até no nome tão brasileira, tão representativa da rica cultura tradicional amazônica – que para muitos parecerá apenas simplória –, com o seu exemplo, tem muito o que ensinar. Como se dissesse:

– Tenha orgulho de ser quem você é, do jeito que você realmente é. Seja sempre dona do seu espaço, mas saiba acolher nele quem o respeita. Ofereça o melhor de si, para si mesma e para o mundo. Seja qual for a situação, tome conta da sua vida de cabeça erguida e coração aberto. E, se for possível e verdadeiro, com um sorriso nos lábios.

Onides Bonaccorsi Queiroz