Verbo de ligação


boa mesa
30/10/2009, 15:04
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Aquelas árvores altíssimas de fazê-los abrir a boca de espanto eram castanheiras, aprendiam. Estavam perto de Rio Branco. Numa agradável “colônia”, no tantas vezes curioso dizer dos acreanos. Um belo sítio, onde generoso companheiro sempre teve gosto de receber os amigos.

Saíram os homens após o café da manhã, foram fazer um “serviço pesado”; pois muito bem, vão com Deus; amo ser mulher, principalmente nessas horas, pensou, com a franqueza habitual. Sozinha diante da mesa ainda posta, ficou a planejar o que prepararia para o almoço.

Logo abriu a geladeira para conferir a guarnição, e parecia que o cardápio não poderia ser promissor: ali descansavam solitários os ovos que o caseiro recolhera no dia anterior. Nenhuma verdura, o que lhe fazia muita falta, sobretudo em climas quentes. Na despensa encontrou arroz e feijão. No cesto, cebola e alho. Preciso ir ao mercado, avaliou. Mas sair era enfrentar calor, poeira da estrada de terra e buracos. Mais de hora e meia entre ir voltar de carro, o que poderia atrasar a refeição, e, havendo crianças… Vou me virar com o que tem por aqui, decidiu.

Lembrou que o amigo lhe indicara onde era a horta. Um pouco temente à temperatura, alcançou seu chapéu e saiu. Uh, que sol! Encaminhou-se para o igarapé – ah, palavra linda e elegante, verde e cheia de frescor, quase sinônimo de “riacho”, adotou-a. Andando deparou com uma cerca, logo mais um portão.   Abriu. Uma surpresa a aguardava. Uma horta viçosa, de alfaces, rúculas, salsa e cebolinha. Primeiro apreciou o quadro. Depois foi colhendo. Adiante viu um pezinho de pimenta de cheiro, que é dos condimentos mais deliciosos que existem no Acre, até quem nem é muito afeito a pimenta aprecia aquilo, ô coisinha gostosa pra perfumar a comida e acalentar o paladar. Fina especiaria amazônica, da qual também se abasteceu. A sacola foi-se enchendo das variedades vegetais.

Ao mesmo tempo, ela sentia ser envolvida por uma sensação de… De que mesmo? Algo de acolhimento, proteção. Algo que lhe convidava a confiar, abandonar as angústias e tensões. Uma generosidade que se manifestava bem à sua vista e lhe causava bem-estar. Alguma coisa que lhe pareceu apropriado denominar: fartura.

Ela, que tantas vezes testemunhara a escassez no mundo com lentes de comoção e desgosto, reconhecia agora um manto de abundância a cobrir o solo. Enquanto se comprazia na contemplação, verteu-lhe a curiosidade.

Quem estendeu esse manto? Quem deu saber e vontade às mãos gentis que semearam este canteiro? Quem sustenta o sol, de brilho e calor, no firmamento? Quem sussurra à terra que acolha o rompimento das sementes, firme as mudas e nutra os corpos das plantas? Quem ordena à água que dê de beber a tudo isto? Quem ensina às plantas florescer, frutificar e não resistir em se tornar alimento? E por quê?

Assim percebeu, no momento em que sua consciência despertava para o que nunca se escondera dela, que testemunhava milagres. O milagre de enfim ver e o milagre do que era visto.

Que tanta misericórdia, Deus do Céu!  Somos amados! – gritava dentro de si, tocada de descoberta.

E precisava respirar fundo para processar tanta verdade. Com a alma saltitante e com o corpo subitamente sereno saiu do cercado e atravessou o pomar, nos fundos da casa. Parou sob algumas árvores, buscando o frescor da sombra, esperando a nova se acomodar em si. Correu o vento em seu auxílio.

Fazia pouco tivera notícia de que o tesouro maior seria poder dizer, com sinceridade: não quero estar em outro lugar, que não este, nem em outro tempo que não agora. E, afortunadamente, era essa a canção que seu coração entoava naquele instante. Aquietou-se, para ouvi-la. Era uma prece de gratidão.

Aí olhou para cima. E mais lhe surgiu. Ora, um pé de carambolas! Maduras… Parecia uma brincadeira invisível. O que pôde fazer, diante dela? Abriu-se mais, em graça. Disse “com licença”, e foi colhendo as frutas ao alcance da mão.

Sacola pesada, retornou à casa, sensivelmente alterada. Sentiu-se permeada de um jeito novo de olhar as coisas, que a inundava de paz.

Tão próspera, provida, competente, sentiu-se mãe, mulher, grávida, lactante, como se o mundo pudesse passar pelo seu corpo para que ela agraciasse seus semelhantes.

Foi humildemente poderosa que pisou na cozinha. Vestiu o avental como se fosse um paramento, e era. Porque ela, agora iniciada no amplo significado do ato de nutrir, sacramentava-o.

Enquanto o feijão cozinhava e a água do arroz escorria, lavou as folhas com afeto. Picou os temperos. Bateu os ovos. Tão plena, não quis nem cantar, que tanto lhe parecia combinar com o fazer comida. Queria respirar, sentir. Experimentava ser. Silenciosamente. Mas escapavam-lhe sorrisos. E louvores.

Fritou o alho, a cebola e a pimenta em pouco óleo. Jogou-os no feijão cozido, cujos grãos eram cápsulas de puro creme, e salgou. O sumo doce das carambolas virou refresco.

Trabalhou com a boa vontade que era sua e com o capricho que era de Deus. O que a guiava não era a pretensão, era a singela vontade de fazer bem feito e ofertar.

Serviu o almoço na varanda fresca. Honestamente: arroz, feijão, omelete, salada e suco.

Mas enxergava uma comida iluminada, a mais bonita que já tinha visto, ali nas panelas mesmo, colocada sobre a toalha de chitão, estampada de flores coloridas de alaranjado e azul-royal, como a sabedoria e o apurado senso estético do dono da casa, que sabe apreciar a riqueza cultural do nosso povo, lhe permitiram escolher. E o cheiro, como cheirava aquele almoço! Coisa mais luxuosa.

As crianças emergiram dos quintais. Os homens retornaram. Trouxeram bananas, que douraram a mesa.

Com o sol a pino, ali comeram, confraternizaram acompanhados dos cachorros, todos felizes naquela família de consanguíneos, agregados e simpatizantes, grandes e pequenos, filhos do norte e do sul, da floresta e da cidade, todos irmãos e amigos reunidos em torno do sagrado banquete.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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