Verbo de ligação


O fator Gleici
23/04/2018, 19:13
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Há muitos anos não vejo televisão, décadas. É que um dia percebi que perdia muito tempo de vida real em frente à tela e simplesmente deixei de assistir.

Então não adianta me falarem sobre o que acontece na TV, que eu não sei. Mas esses dias quis saber. O motivo: Gleici Damasceno, que acaba de vencer o tal jogo.

Gosto muito dela, e digo por quê. Já trabalhamos juntas aqui no Acre, durante breves meses. No começo, sempre que ela me via, abria um sorriso e me cumprimentava com gentileza. Não resisti à sua doçura e procurei me colocar à altura da sua simpatia.

Participamos das mesmas reuniões de pauta, e a vi opinar com decisão e conhecimento de causa sobre os movimentos sociais e culturais das comunidades da periferia de Rio Branco.

Então, movida por curiosidade perante a sua precoce lucidez, certa manhã lhe pedi que me contasse a sua vida. Com aquele seu olhar belo, transparente e brilhante, ela me narrou uma história difícil de se ouvir.

Uma história que tinha belezas, especialmente pela força e esperança que ela trazia dentro de si, mas muitos momentos de arrasar o coração da gente, com dor e privação desde a infância, quando a fome era uma figurinha carimbada do seu cotidiano.

Ainda criança, lutando pela própria sanidade no ambiente conturbado e violento em que vivia, fugia para a igreja buscando uma referência de segurança na religiosidade. Lutou também pela sobrevivência, e começou a trabalhar com 12 anos.

Sofreu muito e viu o sofrimento de familiares, vizinhos e amigos. Mas sempre resistiu, argumentando que queria estudar, trabalhar e crescer para se ajudar, ajudar a sua família e a sua gente. Naquele dia, chorei ao ouvir a sua história. E lhe disse:

– Você é uma pérola, Gleici.

Há poucos dias chorei de novo ao saber que ela venceu a disputa. Porque triunfou com dignidade, soube ser ética, humilde, verdadeira e assertiva. Não abriu mão de seus princípios por dinheiro. Não traiu a sua história de “acreana do pé rachado” por aprovação social. Foi ela mesma o tempo todo.

E, sobretudo, mostrou ao Brasil que é possível vencer sendo honesto. Provou que esse valor ainda é reconhecido entre os seres humanos e que pode ser a referência de um novo-velho modo de viver, muito mais gratificante para o indivíduo e para a coletividade.

No mais, vejo em Gleici tanta luz e determinação, que me resta dizer: ela está só começando.

Onides Bonaccorsi Queiroz

gleici

Gleici Damasceno (Foto: internet)

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a dona da casa
08/03/2015, 00:05
Filed under: Data, Fotografia, Prosa | Tags: , ,
Moradora do Seringal Amapá, no município de Rio Branco, Acre (Foto: Arison Jardim)

Dona Mariazinha, moradora da BR-364, no município Mâncio Lima, Acre (Foto: Sérgio Vale)

Quem está atento sabe: a casa é a cara do dono. No todo e nos detalhes, ali se encontra estampado o espírito, o modo de ser, a história, as crenças, medos, ambições e sonhos de quem a habita.

Altiva em sua morada, em sua cozinha, aí está ela: “dona Mariazinha”, como é conhecida em sua comunidade. Respeitável senhora. De bem com a vida. Como é que eu sei? Do jeito que todo mundo pode saber: observando, refletindo e alinhavando com os retalhos da caixinha pessoal.

No registro desse instante, quanto equilíbrio se exprimiu na composição da imagem, sabiamente capturada pelo fotógrafo!

Além da serenidade na expressão da mulher, saltam aos olhos as panelas muitíssimo bem areadas, reluzentes, instrução transmitida de mãe para filha nos seringais acreanos, como herança da tradição nordestina, para espelhar os atributos da dona da casa. Qual o significado disso? Atestado de competência em seu fazer. Resultado: autoestima. Como se o brilho do metal comprovasse: “Eu funciono”.

O ordenamento geométrico dos utensílios é notável. E denota a capacidade de organização mental de sua possuidora. Panelas agrupadas segundo a categoria, penduradas em linha reta, simetricamente distantes, da maior para a menor. As tampas mais ao canto, visíveis, acessíveis. Por sua vez, lógica e meticulosamente arranjados, também os pratos, acomodados segundo a cor, talheres e copos emborcados – para não cair pó nem insetos. Por associação, a jarra ao lado. E ainda há os eletrodomésticos, limpos e protegidos, prontos para o uso.

Isso é que é uma cozinha planejada. Estabelecida a partir de simplicidade e inteligência. Como negar a funcionalidade que há nessa arrumação? Sem falar na estética harmoniosa, que resulta num conjunto agradável de se olhar.

E a toalha? Ainda que de plástico, que delicadeza, que bom gosto, ilustrada com cestinhas e fitas. Visivelmente asseada, gera uma impressão de confiabilidade.

Assim equipada, não é difícil supor que a dona da casa goste de cozinhar e de receber. Portanto, deve gostar de gente, o que não é tão comum hoje em dia. Dá até pra imaginar o cheiro de sua comida bem temperada, caseira e pontual.

A postura distinta e relaxada, a mão pousada suavemente sobre a mesa, munhequeira no pulso. Hum. A dor e todos os sintomas físicos sempre transmitem um recado da alma – talvez nossa amiga, tão ativa, esteja trabalhando demais.

Por sua vez, o vestido, confortável, é simples, de casa. Como na cena toda, não apresenta luxo algum. Mas que dignidade!

Muitas mulheres não se reconhecerão nela. Outras se lembrarão da mãe, da avó ou de alguém distante. Mas mesmo para as modernas, cultas, urbanas, sofisticadas ou distanciadas da realidade da floresta, dona Mariazinha, até no nome tão brasileira, tão representativa da rica cultura tradicional amazônica – que para muitos parecerá apenas simplória –, com o seu exemplo, tem muito o que ensinar. Como se dissesse:

– Tenha orgulho de ser quem você é, do jeito que você realmente é. Seja sempre dona do seu espaço, mas saiba acolher nele quem o respeita. Ofereça o melhor de si, para si mesma e para o mundo. Seja qual for a situação, tome conta da sua vida de cabeça erguida e coração aberto. E, se for possível e verdadeiro, com um sorriso nos lábios.

Onides Bonaccorsi Queiroz