Verbo de ligação


Com o amor que eu um dia deixei pra você

De novo andaram de mãos dadas pela rua. O fim de tarde mais que gentil, as árvores antigas no largo passeio da avenida, o canto doce dos passarinhos ao se recolherem, enfim o mundo se abria para que transitassem.

À mesa, face a face pronunciaram todas as sílabas do passado difícil, de paixão muita e desencontros demais.

Aludiram às dores comuns e às particulares, não sem lágrimas. Confessaram motivos. Trocaram peças. Revelaram segredos.

Vinte anos transcorridos, era mesmo deles a canção buarquiana, que lhes trouxera tanto encanto quanto angústia: “Não se afobe não, que nada é pra já…”

Almas despidas, surgiram acolhedores e, solidários, admitiram a legitimidade humana do que se ofereceram.

Então constataram preciosidades: por tanto tempo distantes, e ainda eram íntimos. Tantas inquietudes se foram, e haviam se tornado mais amáveis.

Tudo o que parecera tão emergente agora descansava nas prateleiras do tempo. Enquanto eles, por sua vez, podiam descansar um no abraço do outro. Com a alegria dos moços e a calma dos velhos. Que tinham todas as idades.

Mais do que nunca, foram namorados.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Ouça aqui Futuros Amantes, de Chico Buarque)

adri-23

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Quem quer aprender a fazer amor
06/06/2016, 23:14
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Quem quer aprender a fazer amor precisa se esquecer um pouco de sexo. Precisa se esquecer até mesmo do outro. Deve estar em si, antes de tudo.

E entender-se com suas raízes selvagens. E deve saber, antes, que o amor rege o mundo. Mesmo quando se esquecem dele.

Quem quer aprender a fazer amor deve ser capaz de olhar nos olhos. E no olhar expressar, receber, trocar. Até tocar.

Precisa perceber o quanto as almas podem comungar, ainda que os corpos não se conheçam.

Deve, ao lado do seu bem – sim, pra fazer amor tem que querer bem –, abrir espaço para que uma canção de derramada beleza os transporte para reinos de ternura.

Precisa conhecer o próprio corpo e ter a bondade de lhe conceder prazer. Precisa investigar o prazer do outro e saber que tudo está muito bem se tiver prazer em lhe provocar prazer.

Quem quer aprender a fazer amor também deve ser capaz de se aninhar no corpo do seu par e ficar quietinho. E deve ser livre o suficiente para poder chorar de amor.

Nunca pode se considerar mestre. Porque os verdadeiros mestres sabem que são aprendizes sempre.

Quem quer aprender a fazer amor tem que ser criança no coração e amar a brincadeira. E tem quer ter tempo, muito tempo, para fazer amor.

Porque a cama a gente prepara muito antes de deitar.

Onides Bonaccorsi Queiroz

khalil gibran - amantes

“Amantes” (Khalil Gibran)



fada e fauno
11/06/2011, 15:19
Filed under: Prosa | Tags:

Era uma vez uma fada, criatura encantada. Vestia-se de estrelas. E sobre os cabelos  levava um diadema de ouro.

Certo  dia, na floresta, deparou-se com ele. Um lindo fauno. Tinha uma coroa de flores. Era pacífico e intenso.

Envolveu-os um clarão de susto quando seus olhares se encontraram.

Parou o tempo. Ah. Parou tudo. Só eles aconteciam. Do alto da presença, testemunhavam o encontro. Mudos.

Natural que tenham se aproximado. Tocaram-se. E, com um abraço, assentiram ao que lhes pertencia. Ao sentir um o calor do corpo do outro, resgataram a imensa saudade que dormira dentro de si, secretando venenos silenciosos.

Não seria possível que tanto se reconhecessem e não se conhecessem. Aí lhes percorreu o remorso: como foi que um dia se separaram? Tão apartados ficaram de si próprios.

Mas, então, a reunião. Enfim puderam perdoar a vida. E, perdoando, curavam-se.

O laço se fazia absoluto, tão expressivo era o afeto, tão vibrante e cheio de vida que já tremiam de emoção, inundados do apelo de suas almas francamente inebriadas.

Tomados do desejo mais primevo, derretiam de prazer e gratidão enquanto se entregavam, surpreendendo-se, gargalhando sobre a descoberta de que, ao se doarem apaixonadamente um ao outro, rendiam oferenda àquele que os criou, e, assim, livres e benditos, tanto mais se tornavam capazes de se deleitar, porque tanto mais eram por ele animados em seus corpos, descontrolados e sincrônicos. Entenderam que se apropriavam de ser, respirando sempre mais espaçosamente, amantes.

Que de tanto amar transbordaram. Oh, exclamava a inocência, enfim consentida. Quem inventara aquilo? Então choraram porque compreenderam a misericórdia divina, quando os fez conhecer o gozo. E por isso os fez amar mais a si mesmos, um ao outro e a ela.

Onides Bonaccorsi Queiroz