Verbo de ligação


Tchau, mãe
21/12/2015, 15:03
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– Tchau, mãe.

E vai-se embora o adolescente, todo satisfeito e confiante, morar com o pai, do outro lado do país. Não olha pra trás.

Fica a mulher refletindo sobre os últimos 15 anos de sua vida, em que sua história andou tão junto da dele.

Lembra-se do exame “positivo” nas mãos, da emoção de ouvir, pela primeira vez, quando ainda no ventre, aquele coração retumbante afirmando: “Estou aqui!”

Para ele, abriu espaço em sua vida, em seu tempo, no corpo e na alma. E, desde então, fez uso de um sem número de verbos: acolheu, proveu, nutriu, acompanhou, serviu, conferiu, investigou, cuidou, preocupou-se, cantou, contou, comemorou, educou, consolou, divertiu, aconselhou, instruiu, estimulou. Errou também.

Mas aprendeu o significado da palavra “sacrifício”. Tarefa fundamental a ser desempenhada pelo bem dos inocentes e da coletividade.

O ofício materno demanda entregar-se sem reservas, perceber, com alegria, o senso de proteção projetando-se sobre todas as crianças só porque se tem um filho, sentir que o amor pela humanidade cresce porque esse sentimento está em desdobramento constante dentro de si.

E depois de tanto se dar, o que se pode exigir em troca? Nada. Eis o princípio do amor. A despeito da dor, não pequena, deste novo parto, há que se aprender a, sem reclamar, constranger ou chantagear, renunciar ao poder sobre o outro, sobre o filho. Deixar o caminho absolutamente livre para que esse humano viva a sua vida, ocupe o seu espaço, faça as suas escolhas e eleja os seus afetos.

Porque sabe que foi precisamente para que um dia ele tivesse a capacidade de andar com as próprias pernas que o criou.

Onides Bonaccorsi Queiroz

tchau, mãe

Foto: internet – se for sua, avise



a festa secreta
11/05/2014, 21:18
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Quando me avistou entrando na escola, veio me encontrar. Com uma feição um tanto transtornada, carente, me perguntou:

− Mãe, por que você não veio?

− Veio onde, filho?

− Pra nossa festa de Dia das Mães. Foi hoje. Fiquei te esperando…

Eu quis cair de costas de susto e desapontamento.

− O quê? Mas eu não sabia, meu filho!

− Todas as mães vieram.

− Mas ninguém me avisou, meu amor. Você sabia da festa?

− Sabia.

− E por que não me disse nada, querido?

− É que a professora falou, quando a gente começou a ensaiar a apresentação, que não podia contar pras mães. Que era segredo. Por isso eu não disse.

Minha cabeça rodando de confusão. Eu não sabia o que pensar.

− Mas como eu ia saber?

− A professora falou que ia mandar um bilhete.

− Não mandou. Eu abri sua agenda ontem.

Eu me ajoelhei e abracei meu pequeno com todo carinho. Depois as outras mães me relatariam sua ansiedade e desconsolo durante a apresentação, sempre olhando em direção ao portão, esperando a mãe que nunca chegava…

− Me perdoe, meu amor. Eu jamais teria faltado se soubesse da festinha. Me perdoe, por favor.

Eu não sabia se morria de dó dele – e de mim – ou de raiva da professora que não teve a competência de fazer chegar o tal bilhete em minhas mãos. (No dia seguinte encontrei o famigerado no fundo da mochila, todo socado, e não colado na agenda, conforme o combinado, professora!)

Então o menino se soltou de mim e quis brincar mais um pouco. Já eu precisava de um tempo para processar o acontecido. Estava fora do ar.

Fui me dirigindo para o grande gramado sob as árvores. Abaixei-me e, encolhida, senti que queria sumir de tanta decepção. A situação me doía profundamente e não havia nada que pudesse mudar o ocorrido. Era desamparo demais no peito.

Não conseguia entender por que aquilo havia acontecido comigo. Eu, que parei de trabalhar fora para cuidar do meu bebê, que amamentei por mais de dois anos, que privilegiei sempre o afeto, a presença, a brincadeira e a vida natural… Senti que não merecia aquilo: perder a primeira festinha para as mães da vida escolar dele! Pareceu-me muito injusto.

As lágrimas já pulavam dos meus olhos e eu só pensava na dor que havia causado àquele coraçãozinho que eu amava tanto. Não conseguia me perdoar. Estava injuriada e chorei até acabar o estoque de lágrimas.

Então olhei em torno de mim. A copa das grandes árvores fazendo sombra no gramado, o verde em lindo contraponto com o azul do céu limpo. E, olhos para o alto, me ocorreu pedir:

− Me dá um conforto, por caridade.

Ali fiquei minutos, em silêncio. Ouvia a minha respiração e os pássaros cantando. O vento tocando minha pele. Ao longe, ruído de crianças brincando.

Então, como uma melodia que vai invadindo suavemente os ouvidos da gente, uma compreensão se apresentou em minha consciência: a dedicação amorosa nunca é vã.

Depois o arremate, a lição de humildade, justíssima sim:

− As boas mães também falham.

Onides Bonaccorsi Queiroz

 

"Motherhood" (Maternidade), foto de Darrel Lew

“Motherhood” (Maternidade), foto de Darrel Lew