Verbo de ligação


Eu e Curitiba, um afeto silencioso
20/06/2016, 20:16
Filed under: Prosa | Tags: ,

Conheço seus cheiros de inverno, suas delicadas fragrâncias de verão. Conheço seus ventos cortantes e as chuvas geladas. Aquele sol dolorido de inverno em céu de um azul profundo tão glacial que ameaça trincar.

Bem particular senhora. Sei de sua têmpera, seus caprichos, suas virtudes. Generosa dona, com manhãs perfumadas em quintais que não me saem da memória. Tardes que não se cansam de ser.

Conheço seus bairros, sua gente, sua fala, sua estética, identifico curitibanos num átimo. Depois me rio sozinha, sempre acerto.

Eu saí de lá. E, quando volto, levo o carinho. Nunca senti necessidade ou desejo de voltar a viver ali. Bem verdade que temo que a falta de sol me deprima. Será que deixei de amá-la?, já me perguntei.

Até que certa manhã, bem cedo, ia chegando. E fui conferindo a neblina, a paisagem, os sons, os edifícios, o povo… Como é que tudo aquilo sabia ser tão inconfundivelmente Curitiba?

Compreendi, naquele dia, que eu então me perdoara por tê-la deixado. E sentia que ela, como mãe madura e libertadora, me dizia: vai fazer tuas descobertas, guria. Vai, que teu espaço de filha permanece a salvo em meu peito.

Onides Bonaccorsi Queiroz

onides em curitiba

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à luz dos pinhais
29/03/2010, 00:00
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Quando a conheci, já era uma senhora. Ela me viu nascer e sustentou meus primeiros passos. Me viu crescer. E assim assistimos uma à outra se transformar. Eu e Curitiba, um afeto silencioso.

Conheço seus cheiros de inverno, suas delicadas fragrâncias de verão. Conheço seus ventos cortantes e as chuvas geladas. Aquele sol dolorido de inverno, o céu de um azul tão glacial que ameaça trincar. Bem particular senhora. Sei de sua têmpera, seus caprichos, suas virtudes. Generosa dona, com manhãs perfumadas em quintais que não me saem da memória. Tardes que não se cansam de ser. Conheço seus bairros, sua gente, sua fala, sua estética, identifico curitibanos num átimo. Depois me rio sozinha, sempre acerto.

Eu saí de lá. E, quando volto, levo o carinho. É tão simples, tão autêntica. Tão séria, tão surpreendente, tão trabalhadora, tão delicada.

Mas nunca senti necessidade ou desejo de voltar a viver ali. Bem verdade que temo que a falta de sol me deprima. Será que deixei de amá-la?, já me perguntei.

Até que certa manhã, bem cedo, ia chegando. E fui conferindo a neblina, a paisagem, os sons, os edifícios, o povo… Como é que tudo aquilo aprendia a ser tão inconfundivelmente Curitiba? Tão absolutamente familiar.

Compreendi, naquele dia, que eu então me perdoara por tê-la deixado. E sentia que ela, como mãe madura e libertadora, me dizia: vai fazer tuas descobertas, guria. Vai, que teu espaço de filha permanecerá a salvo em meu peito.

Então, na noite em que a lua se enchia e brilhava por cima das coroas das araucárias entre uma nuvem apressada e outra – oh, deleite – , eu, sozinha no jardim de meu irmão, enfim vitoriosa por ter conseguido enfiar os travessos na cama, senti que, à medida que o tempo passa, minha terra natal existe com mais força dentro de mim. A distância e a experiência me possibilitam percebê-la melhor. Admirá-la mais.

E declaro, oh, chão bendito, oh, pérola do meu coração, oh, Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba, eu te amo.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Araucária no bairro Vista Alegre, em Curitiba (Foto: Onides Queiroz0

Araucária no bairro Vista Alegre, em Curitiba (Foto: Onides Queiroz)