Verbo de ligação


O que terá sido feito de Ana Paula?

Ela era a primeira a vir me receber no encontro semanal, na porta da sala de aula. Sorrindo, abraçava minha cintura e aninhava a cabeça em meu ventre. Depois pedia beijo. Eu me ajoelhava e atendia a doce demanda, coração com coração.

Na roda de história, sempre queria se sentar ao meu lado. Acompanhava, atenta, cada detalhe da narrativa. Mostrava uma inteligência pura e vibrante a amável Ana Paula – assim a chamarei aqui.

Mas o tempo foi passando e surgiram modificações em seu jeito de ser. Foi se tornando silenciosa, depois arredia. Não olhava mais nos olhos. Quando eu lhe dirigia a palavra, nem de longe tinha a mesma receptividade de antes. E tive notícia de que, com frequência, passara a agredir os colegas. Ao mesmo tempo, começou a engordar.

Ficou claro que algo não ia bem em sua vida. O que a importunava? Procurei a psicóloga da instituição, profissional sensível e competente. Relatei as alterações observadas e pedi que investigasse.

Dias depois, ela me chamou. E fez o lamentável relato. Conversado com a mãe, descobriu que a mulher era sistematicamente espancada pelo marido na presença da filha. Até havia tentado, várias vezes, mas não conseguia se separar do homem. Embora tivesse autonomia financeira, sentia-se afetivamente dependente dele.

Enquanto isso, pobre criança! Sofria profundamente, ao testemunhar a pessoa que ela mais amava sendo agredida por aquela outra em quem muito deveria poder confiar. A essa altura dos fatos, Ana Paula já havia quase dobrado de peso.

Embora soubesse que a dinâmica familiar estava estreitamente relacionada com a transformação física, eu ainda não entendia exatamente como. Mas, certa manhã, emergi do sono com a resposta.

Para protegê-la dos terríveis golpes que o pai desferia contra a mãe, o psiquismo da menina determinou que seu corpo acumulasse uma camada de gordura tão espessa quanto o medo, a revolta e a tristeza que ela sentia. Era um recurso da existência para amortecer a dor e proteger sua vida.

Lá se vão os anos e eu penso nela. O que terá sido feito de ti, Ana Paula? Ah, minha querida, a noite da humanidade é mesmo longa e escura.

Onides Bonaccorsi Queiroz

índia-anjo

(Ilustração: internet)



Tuas mãos são para proteger
06/11/2009, 12:00
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