Verbo de ligação


adote um mico – o seu
19/11/2009, 16:46
Filed under: Prosa | Tags:

Uma senhora amiga minha foi a um enterro. Havia muita gente e ela, tão baixinha quanto voluntariosa, no intuito de apreciar a cerimônia de um ângulo mais favorável, achou por bem subir num tabladinho que encontrou. Não tardou muito, a placa de madeira se rompeu e a mulher despencou dentro do que descobriu ser uma cova, já, por assim dizer, “habitada”. Caiu em cima de uma urna funerária de tampa podre e quase deu de cara com a caveira, o que, não bastasse a queda, assustou-a muito. Gritou de pavor, desviou todo o foco do evento para si e, quando foram socorrê-la, sua bolsa cismou de enganchar na alça do caixão, deixando-a ainda mais histérica.

Entre os que testemunharam a cena – dezenas de pessoas – alguns contam que o mais divertido, logo após o espetacular resgate da dona, era ver o empenho dos presentes em abafar as gargalhadas e manter o ar sóbrio que a solenidade exigia.

Diante das circunstâncias veementes, não resta dúvida: a mulher recebeu a visita de um Miccus vexaminosus, conhecido popularmente como “mico”.

Desde os corpulentos espécimes selvagens, até as subespécies domésticas, de porte moderado, seu habitat é sempre o ambiente humano.

Atua inspirando indivíduos e mesmo agrupamentos a protagonizarem episódios constrangedores. Ardiloso, realiza sua abordagem pelo poroso terreno da inconsciência, o que coloca praticamente todas as pessoas à mercê dele.

Mas o primata tem lá seus critérios, que apontam para o reequilíbrio do ecossistema. Só oferece o ar da graça – literalmente – onde é chamado. Ainda que quem o chame não perceba, nem admita seu ato, o vexame sempre vem por encomenda, eletromagneticamente atraído por algum tipo de comportamento disfuncional. É meritocrático. E prolifera onde há barulho, confusão, ansiedade, pressa, competição, vaidade, maledicência e, sobretudo, distração. Assim, as grandes cidades lhe aprazem, mas também é observado em áreas provincianas e redutos moralistas.

Dada a larga oferta de condições propícias à sua sobrevivência, configura-se bem remoto o risco de extinção da espécie. Entretanto, por razões que todos já tivemos a amarga oportunidade de conhecer, o mico nunca é bem-vindo. Tão logo é identificado, causa mal-estar, desconforto, vergonha e arrependimento. Até automartírio. E aí, que remédio?

Bem, já que conto com certa experiência no assunto, tenho refletido sobre essas situações embaraçosas há anos. E cheguei a algumas conclusões.

Para começar, entendi que o tratamento mais adequado que se pode dar ao próprio mico é, assim que possível, recepcioná-lo. Simples: “muito bem, aquilo foi péssimo, mas aconteceu”.

A seguir, é importante resistir à tentação de socá-lo na primeira gaveta de esquecimento que encontrar. Pois, conforme Dotorfróide ensina, o escuro potencializa a força do fantasma, que tem, por encargo, vir à luz. E aí, corre-se o risco de se trombar, doravante, com um gorila.

Então, por precaução, faça exatamente o contrário: ponha o macaquinho ao colo, olhe para ele. Ouça-o. Adote um ou mais micos: os seus. Compreenda a linguagem do bicho.

Continue lendo