Verbo de ligação


Então a vida é isso mesmo?

Então lhes parece razoável que a vida seja essa sucessão interminável de dias que amanhecem para que os entreguemos, quase inteiros, quase todos, a essa eminente atividade chamada trabalho remunerado?

Que a gente não possa desfrutar do sol das manhãs como bem entender? Que sejamos obrigados a estar, tantas horas, apartados de quem mais amamos? Que os filhos devam se conformar em viver privados da companhia de seus pais? Que as mães para sempre tenham que sentir seu coração se partir de dor e de culpa porque estão deixando seus bebês para trás?

E que os cidadãos desenvolvam vergonha de falar sobre o desejo de trabalhar menos e ter mais horas livres, como se estivessem passando um recibo não apenas de incompetência profissional, mas também de nulidade pessoal?

E que assim constrangidos trabalhem e trabalhem mais e acelerem e inventem mais para ser feito e queiram produzir bastante para vender muito e trabalhem mais ainda para poder comprar o que se inventou, do que, aliás, nem precisavam mas agora precisam muito e se preparam para adquirir mais porque o vazio em seu peito só faz aumentar.

Por isso, quando consomem, tentam convencer a si e aos demais de que são vitoriosos, de que o tempo gasto vivendo na aceleração insana se justifica. E defendem essa forma tola de existir, que, ademais, destrói nossa morada planetária.

Para não olhar para o estrago dentro e fora de si, fingem que é aceitável seguir assim. Vivem exaustos e não têm paciência com seus semelhantes nem alegria verdadeira. E dessa forma fazem adoecer o  corpo e a alma, para cujos sintomas produzem medicina desonesta, outro mercado em franco crescimento, própria para anestesiar e manter a roda viciosa girando.

Há algo de muito doentio nessa sociedade assim controladora, algo de perverso nessa economia assim sugadora, algo de mórbido nessa humanidade assim acomodada em sua vitimização. Há algo de hipnotizador nesse jogo sem ganhadores – isso mesmo: ninguém sai de fato vencendo essa brincadeira de mau gosto. Pois não há nada que pague o desperdício de uma vida realmente bem vivida, em que o ser humano possa estar em paz consigo e harmonia com os demais.

Enquanto isso, mesmo após tantos golpes, a natureza continua ensinando. Pulsa dia e noite, primavera-verão e outono-inverno, nascer-crescer e envelhecer-morrer. Expansão e contração. Atividade e descanso. Ação e reflexão.

Onides Bonaccorsi Queiroz

tomas alen kopera 17

Tomasz Alen Kopera (óleo sobre tela)

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O que é
10/11/2015, 19:38
Filed under: Fotografia, Prosa poética | Tags: , ,

Minhas coxas não são grossas. Minhas coxas não são finas. São as minhas coxas.

Meu cabelo não é liso. Meu cabelo não é crespo. É o meu cabelo.

Meus olhos não são verdes. Meus olhos não são pretos. São os meus olhos.

Meus seios não são volumosos. Meus seios não são miúdos. São os meus seios.

Meus pés não são largos. Meus pés não são estreitos. São os meus pés.

Meu nariz não é grande. Meu nariz não é pequeno. É o meu nariz.

Meu corpo é o que é.

E eu acredito que não há beleza que se compare à liberdade de ser o que sou.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Juliana Machado (Foto: Talita Oliveira)

Juliana Machado (Foto: Talita Oliveira)