Verbo de ligação


Consultório sentimental
23/04/2017, 21:44
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Então a paixão vai ficando desconfortável.

Aquele sentimento que já foi de alegria, arejamento, descoberta e bem-querer se torna sombrio, opressivo, monótono, triste e ressentido.

Logo, inconveniente. Pior que estéril, venenoso.

Mas o enamorado irredutível, tenha em algum momento sido bem sucedido ou não em seu intento de buscar reciprocidade, nega-se a abrir mão da paixão que sofregamente carrega.

Meu amigo mineirinho filosofa sobre tal comportamento com lentes de humor: “Ocê já botô reparo qui tem uns tipo qui num é paxonado, é incutido?”

Verdade. Por quê, haverão de perguntar ao portador da dolorosa afeição, se ela lhe faz tão mal?

Para responder, ele elencará razões às dezenas, especialmente para se manter no papel que escolheu executar. Mas é bem provável que nem a si permita averiguar suas motivações mais profundas, que de fato o prendem.

Embora o acometimento de paixão em si seja legítimo, belo e respeitável, o apego a ela tem outro propósito e origem. Que nunca se localiza fora do apaixonado.

Antes, nos seus registros primeiros de vínculos afetivos, acolhedores ou hostis, nas primeiras histórias vivenciadas, nas suas carências, medos e desejos.

É, portanto, na harmonização desse campo que o candidato à emancipação emocional deve projetar seu foco, em vez de ficar atribuindo ao outro a culpa pela sua infelicidade.

Assim, permitir que a paixão se vá quando deixou de ser prazenteira é uma decisão adulta, que exige entendimento, disposição e coragem.

Porque se é verdade que ela coloca lentes cor-de-rosa entre a nossa percepção e o mundo que nos cerca, abrir mão desse anteparo é certamente assustador.

É ser lançado de novo à vida comum, àquela senda que já se mostrava tão desprovida de atrativos.

O apaixonado contumaz não quer voltar a esse lugar, que lhe parece de uma crueza e de um naturalismo insuportáveis. Por isso resiste.

Entretanto, esse singelo âmbito que tanto se evita é a nossa verdadeira casa. Somos nós mesmos. É a nossa vida, nossa instância de direito – por tempo determinado: eis um detalhe a não ser esquecido.

Ser humano é aceitar a responsabilidade de tornar o universo pessoal significativo, fecundo e… apaixonante!

Serviço para a vida inteira. Mas é bem remunerado.

Palavra de quem já se apaixonou muito, às vezes se deu bem, às vezes com os burros n’água; de quem já foi alvo de paixão e às vezes pôde retribuir, às vezes não; de quem volta e meia empresta seus ouvidos para confidências de gente apaixonada e também observa a paixão alheia; de quem já se perdeu na paixão, mas continua buscando se encontrar.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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(Foto: Adriana Queiroz)