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Direto do Reino de Lelegut, Gislayne Avelar de Matos
01/07/2013, 17:16
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Gislayne Avelar de Matos é contadora de histórias e pesquisadora da tradição oral (Foto: Arison Jardim)

Gislayne Avelar de Matos é contadora de histórias e pesquisadora da tradição oral (Fotos: Arison Jardim)

Era uma vez a princesa do Reino de Lelegut. Menina inquieta, solitária e com a vida pulsando intensamente dentro de si, em seu país inventava, brincava, mandava e desmandava, absoluta.

Lelegut ficava no quintal da família Matos, em Lagoa Santa, nas Minas Gerais. E, fora de seu reino, Sua Alteza tinha por nome civil Gislayne Avelar de Matos.

Ela relata: “A escola era muito chata, minha família era rígida e eu tinha que ser uma estudante exemplar porque, além de tudo, minha mãe era a diretora. Mas eu era péssima aluna, então, imagine o conflito. Foi a imaginação que me deu forças para enfrentar o cotidiano”.

Daí a certeza com que Gislayne, que se tornou educadora, contadora de histórias e pesquisadora da tradição oral, afirma: “A profissão que escolhemos tem a ver com as dores da gente”.

Para engrossar o caldo da fantasia, seu avô era um grande contador de histórias. E, junto com os filhos, durante anos procurou, a partir da descoberta de um mapa, um tesouro na fazenda da família. A aventura teve um desfecho digno de figurar como conto de assombração nas coletâneas do folclorista Câmara Cascudo: o suposto fantasma do escravo que teria enterrado o tesouro pediu, em troca da revelação do exato local onde estava escondido, a vida de um dos filhos do ancião. O que determinou o encerramento imediato das escavações, por ordem do patriarca. E o ocorrido perdurou no imaginário da menina Gislayne.

Em 1989, quando participou de um encontro de contadores de histórias na França, um palestrante pronunciou as palavras mágicas: “as histórias representam o estudo da alma humana”. Pronto. Ela acabara de receber a senha de entrada para o mundo das narrativas. “Entendi que era isso o que eu queria estudar”, lembra.

Foi assim que Gislayne, que já era pedagoga, terapeuta familiar sistêmica e arteterapeuta, partiu para o mestrado, cuja dissertação teve como tema “os contos na dimensão formativa da educação”.

Sem desprezar os benefícios e o prazer da leitura, ela destaca o diferencial das histórias narradas oralmente. “Muitas crianças usam as expressões ‘história de verdade’, para a contada, e ‘história de mentira’ para aquela que é lida. Essa percepção é legítima e aponta para o componente insubstituível da presença, do olho no olho. Se a leitura é solitária, o momento de contar histórias é de compartilhamento. E mesmo nas sociedades onde o hábito da leitura está enraizado, como na francesa, observa-se uma tentativa de resgate, por meio das rodas de histórias, da lacuna afetiva que o individualismo intelectual provocou”, analisa.

Gislayne entende que as narrativas têm grande poder transformador e curativo no mundo contemporâneo, tão regido pela lógica de mercado. “As histórias trazem os valores necessários à manutenção da vida”, salienta. Não por acaso, no continente africano, onde ainda é forte a tradição oral, as histórias são reverenciadas, em algumas nações, como “fortuna do céu”.

Com base nesse princípio, Gislayne utiliza a arte de contar e de escutar histórias como elemento de reflexão junto a movimentos comunitários, na prevenção de situações de violência e nas empresas, onde há muito estresse e competitividade.

Além disso, um de seus projetos é preparar idosos para contar histórias às crianças. O arranjo é oportuno, uma vez que aproveita o tempo ocioso e a vivência do velho e direciona sua atenção, de forma artística, para os pequenos, promovendo a transmissão de conhecimentos.

E a mineira tem outra ideia, que parece ainda mais ousada: “Um dos meus sonhos é levar as histórias para o mundo da política. É onde mais se precisa delas”, recomenda.

Com residência fixada em Belo Horizonte, Gislayne viaja o país dando cursos de formação de contadores de histórias. Na semana passada, pela terceira vez na capital acreana, expôs seu trabalho na II Semana da Tradição Oral, promovida pelo Centro de Multimeios da Prefeitura de Rio Branco e apoiada pelo governo do Acre, por meio da Fundação Elias Mansour. E, do alto da sua rebeldia lúcida e bem-sucedida, ela rechaça as estruturas engessadas da educação: “A escola precisa mudar para permitir que as pessoas sejam o que realmente são e desenvolvam seu potencial verdadeiro. Os meus colegas que eram considerados ótimos alunos não foram pra frente na vida. Os chamados ‘maus alunos’ é que foram bem-sucedidos”, revela.

Seja em Lelegut, no Brasil, ou no Nepal, há que se absorver os nutrientes da imaginação para conceber saídas criativas para o mundo. Fantasia é real.

Site de Gislayne:

http://www.gislaynematos.com.br/gislaynematos.html

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