Verbo de ligação


sonho ruim
19/04/2012, 18:58
Filed under: Imagem, Prosa | Tags:

Índios isolados, localizados no Alto Envira, na fronteira do Acre com o Peru, em 2008 (Foto: Gleilson Miranda)

“Porque o coração deste povo se fez pesado,

e os seus ouvidos se fizeram tardos,

e eles fecharam os seus olhos;

para não suceder que vejam com os olhos,

e ouçam com os ouvidos, e entendam no coração,

e se convertam, e eu os sare.”

Mt. 13:15

Sinto muito.

Eles encontraram vocês, bravos. Que resistiram todo este tempo, que conseguiram se embutir na floresta e defender seu direito à vida até agora.

Sinto muito. Um tanto como se minha família, meu povo, minha cultura, minha história, minha arte, meu lugar e tudo o que é valioso para mim estivesse fatalmente ameaçado. E eu, apavorada, não tivesse uma explicação.

Sinto muito por esse terrível fato. Porque eles não deixam nada intacto. Seu coração se fez pedra e, na procura ainda vã do que lhes falta, emergiu-lhes a sanha de explorar, dissecar e usurpar tudo, até a última gota.

No seu entender obtuso, a inocência é tolice. E a pureza não existe. E não têm a mais vaga ideia do que signifique a sabedoria ancestral. Apenas a consideram velha demais, quando, para eles, velho é tão somente ultrapassado.

Sei que é difícil para vocês imaginarem tamanha pobreza, mas as cores que eles veem são desbotadas. E o perfume das flores e da natureza vibrante seu olfato grosseiro não alcança mais. E nem os contos da tradição eles entendem. E nem o mistério eles cogitam considerar.

Não conseguem reconhecer quanta vitalidade há no antigo-e-sempre-novo modo de ser que a floresta ensina. Não enxergam o profundo contentamento que há nas feições das crianças de vocês. E, na sua brutalidade, apenas julgam e desprezam o que não compreendem.

É que lhes ocorreu o infortúnio maior: presos ao egoísmo e ao medo que ele desencadeia, desconectaram-se da vida. Mas sequer percebem, porque a ignorância faz parte de sua enfermidade. Estão enlouquecidos, tomados por um espírito mau, cego, mesquinho. E muito voraz.

Esqueceram-se do melhor que há: a liberdade, a brincadeira, o afeto, a lealdade. E investem numa ilusão chamada poder que suga e mata, sem qualquer recompensa real.

Então, uma pergunta sobrevém a quem assiste ao espetáculo deplorável, revoltante: o que será necessário para fazê-los despertar? E o receio nos envolve.

Por isso, meus caros, caríssimos, vocês, que ainda são gente, defendam com todas as forças o seu tesouro, até o fim do mundo.

Ou até além do mundo. Porque mesmo a morte é melhor que a miséria de amor.

Onides Bonaccorsi Queiroz