Verbo de ligação


Os maiores erros que cometi
07/02/2017, 23:04
Filed under: Prosa

A esta altura, percebo. Os maiores erros que cometi tiveram a mesma raiz: não ouvi meu coração. Ele estava lá, sensível, atento, disponível, pulsando no peito, saltando de alegria ou contraindo-se de aflição para me mostrar o caminho: “Por aqui sim”, “por ali não!”.

E eu o desprezei. Não confiei nas suas claras instruções. Avancei por cima com indiferença, como se fosse nada, ou com brutalidade, como se fosse um intruso em minha vida. Tão sofisticado e expressivo, ele me incomodava, e, se pudesse, eu o teria suprimido.

Ah, como eu o traí! Como o maltratei! Eu queria ser inatingível, superior, e abraçava a racionalidade, pensando que me poupava sofrimento. Mas só fazia me entranhar na cerração!

Já na trilha das lágrimas é que fui me lembrar do cordial companheiro. Do quanto era puro, inocente e amoroso. Só então entendi que ele sempre quis me ajudar, e, por medo, recusei.

Se eu tivesse escutado o meu coração, teria sido muito mais feliz, certamente. Mas a verdade é que eu não estava preparada para ser feliz. Agora, como criança que aprende, vou ficando ciente da sua sabedoria, lealdade e ternura. Ouço os seus conselhos e me empenho em conquistar o que pode ser meu.

E ainda clamo a esse doce amigo: me perdoa, meu amor. E toma conta de mim.

Onides Bonaccorsi Queiroz

leve

(Ilustração: internet)



Elogio aos maduros
28/01/2017, 20:05
Filed under: Prosa | Tags: ,

Os muito verdes que me perdoem. Mas homem maduro é fundamental.

Para ser vivido, não basta ter idade. É necessária uma percepção mais sofisticada da vida, o que só decorre da experiência.

Que belas histórias de sabedoria podem narrar cabelos grisalhos. Quanta tarimba tantas vezes se assenta entre as marcas físicas da existência. E que insuperável é o humor dos que já aprenderam a ser responsáveis, mas também sabem que nada é tão sério assim.

Evidentemente, entre os que caminharam mais, há os tolos, que os obtusos também envelhecem. Esses são uma lástima, apenas se embrenham em futilidades intermináveis. E há os secos. Que se repetem em mesquinhez e não fazem mais do que dilapidar o estoque dos seus dias.

Pesadelo de muitos, o grande trunfo da fase madura é exatamente ter mais próxima a perspectiva da morte. Excelente conselheira, essa baliza recomenda evitar frivolidades e investimentos que não tragam gratificações significativas. Se o tempo é precioso, a vida é urgente.

Por isso, no homem maduro a vaidade de macho falastrão vai sendo vencida. Compreendida a pertinência de ser mais humilde, já que nossas horas são contadas, esse indivíduo naturalmente passa a trajar a dignidade. E em si despertam, cada vez mais intensas, as joias da solidariedade, do respeito e do companheirismo.

Seus vínculos afetivos se aprofundam, porque ele já verificou que, de tudo, o que resta é a qualidade do encontro. Assim, mesmo com o declínio da vitalidade, o saldo de satisfação é positivo.

No homem maduro, a alma está presente. E, para além do corpo, a alma erotiza sobretudo em direção ao que não se pode ver, mas se pode sentir.

Onides Bonaccorsi Queiroz

lama-padma-samten-3

Lama Padma Samten (Foto: internet)

 



Há 35 anos sem Elis
24/01/2017, 23:00
Filed under: Data, Prosa

Tu sabias que carregavas uma gema preciosa. Essa voz que não me atrevo a adjetivar.

Onde aprendeste esse saber tão vasto que encantava nossos ouvidos e desconcertava os músicos mais experientes? Ninguém carrega tão raro talento por acaso.

O problema é que gente não vem com manual de instruções e ajustar tanta grandeza num corpo humano não é tarefa fácil. Às vezes, tão árdua que não dá tempo.

Mas só tu conheceste a dor e a glória de ser Elis Regina.

Onides Bonaccorsi Queiroz

elis-regina

Elis Regina, morta em janeiro de 1982 (Foto: internet)

 



Por que a cotia ficou sem rabo

Fazer favor é bom? A maioria das pessoas que conheço responderia que sim, aposto. E também eu cultivei essa crença durante anos.

Mas, prestando bem atenção às práticas, reações e motivações humanas, mudei de ideia. De uns tempos pra cá, a minha resposta à questão é: depende. Nem sempre vale a pena ajudar. Porque o préstimo precisa ocasionar efeitos salutares para quem dá e quem recebe, o que nem sempre ocorre.

Para avaliar a adequação, valho-me de alguns critérios, garimpados entre as experiências que vivi. O primeiro é de só fazer o obséquio que me for diretamente solicitado. Por algumas vezes, atendi à necessidade ou suposta necessidade de alguém, que tratou o indulto com descaso, ou até indelicadeza, chegando a me dizer: “Não te pedi nada”.

Restou-me reconhecer que eu havia agido tolamente. E aprendi que quando concedo o que possuo sem que me tenha sido convocado, desmereço esse bem, seja abstrato ou material. Porque, com tal atitude, impeço o outro de perceber tanto a sua carência quanto o valor do trunfo que carrego e que poderia eventualmente compartilhar.

Assim, a pretensão verbalizada é a admissão da existência da demanda e a prova de encaminhamento a destinatário específico.

Segundo quesito: só faço o que posso fazer. Já vi gente cedendo aquilo de que tem necessidade e até emprestando dinheiro que não possui para socorrer terceiros. Cada caso é um caso e emergências existem, mas um procedimento dessa espécie exige reflexão e parcimônia.

Já a terceira condição para viabilizar o auxílio é verificar se o candidato ao favorecimento o merece. Sua conduta tem afinidade com a benesse em questão? Por exemplo: um amigo pagava curso de inglês para a sobrinha, que faltava às aulas e tirava notas baixas. Ele a advertiu, ela fez pouco caso. A solução foi simples: ele cortou o benefício e deixou de se sentir lesado.

Por sua vez, outro amigo é refém de um parasita. Há décadas faz negócios com um companheiro de infância que vive com problemas financeiros. Ao ser brindado com cada chance, o tal sujeito sempre se aproveita da situação e prejudica o velho parceiro de alguma forma. Que se deixa cair na armadilha de novo e de novo. Talvez porque esteja apegado à sua máscara de generosidade. Talvez porque, infantilizado, não consiga impor limites a si próprio nem aos outros. Ainda desconhece o significado profundo de uma palavra fundamental: “não”. E, enquanto tolera o predador, vai pagando o preço. Não por acaso, “cotia ficou sem rabo de tanto fazer favor”, avisa a sabedoria popular.

Aí fica fácil reparar também que aquele que ajuda compulsivamente não recebe agradecimento. Ouve é reclamação quando porventura falta com o que nem é sua incumbência.

A verdade é que apoiar um comportamento negligente ou nocivo, longe de ajudar, incentiva um explorador a se manter na ilusão de que está se conduzindo com integridade e que os seus atos não estorvam ninguém.

É preciso, então, que o benfeitor em potencial se ausente dessa cena. Primeiro para evitar problemas a si próprio. Depois, para que o outro possa perceber o que perdeu, ou o que deixou de ganhar, e por quê. Apenas essa retirada é que propicia a abertura do espaço para a reflexão na vida do interlocutor. O que significa promover a dignidade de ambos.

Mas, havendo pertinência, oferecer ajuda é uma das maiores gratificações de que um ser humano pode provar. Quem favorece com responsabilidade, dá e recebe.

Onides Bonaccorsi Queiroz

cotia



Con amore
02/01/2017, 21:29
Filed under: Prosa | Tags:

O ano começou um tanto triste para nossa família. Aos quinze minutos do primeiro dia, deixou-nos Pasquale Bonaccorsi, o querido tio Lino.

A razão desta manifestação não é apenas marcar a despedida dessa pessoa, mas narrar brevemente a história de um homem absolutamente comum, e ainda assim extraordinário. Pelo seu caráter, sua afetividade e responsabilidade, demonstrados até o fim de seus dias. Amor, trabalho e dignidade foram marcas da sua vida.

Italiano, migrou para o Brasil na década de 1950. Na viagem de navio, tornou-se amigo de um senhor fundamental em sua trajetória: o futuro sogro. Do outro lado do mar, no Rio de Janeiro, encontraria uma moça linda, por quem se encantou: Angela Michela Urago.

Aliás, sua atitude de respeito às mulheres de sua vida sempre foi notável, especialmente nestes tempos indelicados em que vivemos. Tio Lino foi afetuosamente reverente à mãe, eterno apaixonado pela esposa, cheio de ternura para com a filha, irmãs, netas e sobrinhas. Mas também aos sobrinhos nunca dispensou o beijo no rosto, mesmo depois de adultos.

Profissionalmente, desenvolveu a vida toda o ofício de torneiro mecânico, aprendido em sua pátria. Dedicado e meticuloso como era, posso apostar que era dos bons. Com muito esforço e a ajuda preciosa de sua Angela, com quem atravessou momentos difíceis que os imigrantes bem conhecem, ele ganhou o pão, manteve sua família, educou seus filhos e até construiu a casa dos seus sonhos, com o perfeccionismo e detalhes que sua mente era capaz de engendrar. Ali recebia família e amigos cheio de alegria, humor, carinho e satisfação: “Con amore”, dizia.

Há coisa de dois meses, aos 86 anos, foi internado, com a saúde bastante abalada, na UTI de um hospital em Curitiba. Imagino que, fragilizado e no isolamento, entrou em reflexão profunda sobre sua vida, com seus humanos erros e acertos. Suponho que teve a chance de considerar a proximidade de sua despedida e de preparar-se para recebê-la.

Ainda, transferido para o quarto, ganhou a oportunidade de passar mais um Natal junto à família. Presente da existência.

Sua biografia, tão singela e brilhante, me emociona. Só posso agradecer por nosso parentesco e seu exemplo. E choro mesmo, porque um homem de bem merece nossas lágrimas.

Mas, para encerrar esta homenagem, escolho a lembrança de um momento muito feliz que passamos juntos. O dia em que levei meu filho para que ele e a tia o conhecessem. Receberam-no como um netinho e, à mesa, o tio fez questão de lhe dar um pouco de vinho, vivificando nossas raízes italianas. Deixei de bom grado.

Por tudo isso, um brinde ao tio Lino!

Onides Bonaccorsi Queiroz

com-tio-lino

Foto: Arquivo pessoal



Carta ao Menino Jesus
22/12/2016, 15:02
Filed under: Prosa | Tags:

Ó querido Menino Jesus! Sabes que te amo e sabes que é deste jeito falível, humano, de quem está balbuciando o amor. Mas também hás de saber que é sincero.

Que eu te sinto verdadeiro. Sinto a tua bondade. E quero aprendê-la porque é o que experimentei de mais puro e precioso neste mundo.

Ah, Menino Jesus, quando comecei a entender que existes de verdade, fiquei tão contente! E quisera distribuir entre outros esse encantamento. Mas a porta é tão estreita, não é, Menino?

Ainda assim peço por todos nós: faz acordar o amor no coração da humanidade!

E, mesmo que tudo fique escuro, não deixes que a esperança me abandone. Permite que esta criança que ainda vive dentro de mim e que agora fala contigo nunca se cale em minha consciência.

Onides Bonaccorsi Queiroz

concha-bebe

(Imagem: desenho antroposófico, autor não identificado)

 



Dona Cecília
09/12/2016, 18:52
Filed under: Prosa

Os dois personagens da historieta que segue já partiram. E deixaram saudades, tão particulares eram. Esta cena que protagonizaram se deu bem diante dos meus olhos.

Dona Cecília era a “avó-mãe” do meu concunhado Luiz. E essa foi uma das primeiras vezes, ao longo de anos, que estive com ela.

Era uma tarde fria, num fim de semana, e ela visitava o neto. Pareceu-me uma figura muito meiga: toda cheinha, cabelos curtos e volumosos, branquinhos de algodão, pele aveludada, casaquinho de cashmere, confortável calça comprida e pantufas macias. Supra-sumo da fofice, vovó a não poder mais.

Eis que então, meu sogro, seu Pietro, um italiano simpático e de porte elegante, aproximou-se dela e lhe perguntou, gentil:

– Dona Cecília, como a senhora está?

A anciã registrou a pergunta sem olhar para o interlocutor, esticou o braço, pegou um maço de cigarros, retirou um, acendeu concentradamente, tragou e soltou uma baforada soberba.

Fiquei um pouco desconcertada, seu gesto começara a desmontar o personagem que eu havia idealizado. Por fim, com marcado sotaque do interior paulista, respondeu à pergunta, fitando o homem. E acabou de me revelar seu naipe:

– Uma merda.

Onides Bonaccorsi Queiroz

gatinho branco

(Foto: internet)