Verbo de ligação


Aracy: a mulher a quem Guimarães Rosa dedicou o Grande Sertão
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Aracy Moebius de Carvalho foi mulher de Guimarães Rosa durante 30 anos (Foto: Álbum de família)

“A Aracy, minha mulher, Ara, pertence este livro”.

Quem seria essa que recebeu de um homem da estatura de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores da Língua Portuguesa, a honra e o afeto da dedicatória naquela que viria a ser sua obra-prima, “Grande Sertão: Veredas”?

Aracy Moebius de Carvalho nasceu em Rio Negro, no Paraná. Filha de pai português e mãe alemã, em 1934, aos 26 anos, era desquitada – um escândalo para a época. Fluente em várias línguas (português, inglês, francês e alemão), logo embarcou, com seu filho Eduardo, de cinco anos, num navio para a Alemanha.

Em Hamburgo, tornou-se chefe da seção de passaportes do consulado brasileiro, onde, em 1938 conheceu o escritor, que era cônsul adjunto. Casaram-se em 1940.

Com o nazismo em plena ascensão, viu os judeus serem expulsos do funcionalismo público, banidos das escolas e universidades e perderem seus direitos e propriedades. Observou também o antissemitismo encampado pelo governo Vargas.

Diante desse cenário, decidiu burlar, em sua função, a Circular Secreta 1.127, orientação diplomática que restringia a entrada de semitas no Brasil. Aracy teria, na administração pública de Hamburgo, cúmplices para conseguir falsos atestados de residência para que judeus de outras regiões pudessem pedir vistos na cidade, obtinha passaportes sem o “J” vermelho que os identificava, misturava os pedidos de vistos de judeus a outros documentos para que o cônsul-geral, Joaquim Antônio de Souza Ribeiro, assinasse sem perceber e chegou a transportar alguns perseguidos no carro diplomático. “Joãozinho” – como ela chamava Guimarães Rosa – sabia e aprovava sua atitude.

Contemporâneos relatam que ela era tão bela e atraente quanto determinada e indócil. Certa vez, numa fronteira germânica, um policial queria revistá-la. Aracy lhe aplicou uma descompostura tão enfurecida que o fez recuar. Ela, então, atravessou calmamente a divisa com um judeu no porta-malas do carro. Utilizando-se desses procedimentos e recusando qualquer tipo de gratificação financeira, calcula-se que livrou dezenas de famílias da prisão e da morte.

Aracy, Rosa e Eduardo permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados da Segunda Guerra Mundial. Antes do retorno ao Brasil, tendo sido investigados por autoridades alemãs e brasileiras, ficaram quatro meses sob custódia da Gestapo, até que foram trocados por diplomatas alemães.

Como ambos eram desquitados, só oficializaram a união na Embaixada do México, em 1947, no Rio de Janeiro, cidade onde foram morar. Companheira de três décadas do escritor – Rosa morreria em 1967 –, Aracy também participou empenhadamente das criações literárias do marido. E, depois de viúva, não tornou a se casar.

Em 8 de julho de 1982, recebeu o título de “Justa entre as Nações”, conferido pelo Museu do Holocausto, em Jerusalém, a não-judeus que ajudaram judeus a escapar do nazismo. Foi a única mulher e a única brasileira que recebeu a condecoração. Conhecida como o “Anjo de Hamburgo”, recebeu homenagens também no Museu do Holocausto de Washington.

No Brasil, Aracy auxiliou artistas e intelectuais durante o regime militar. Em 1968, quando “Pra não dizer que não falei das flores” se tornou um hino contra a ditadura, ela escondeu Geraldo Vandré, autor e intérprete da canção, no seu apartamento em Copacabana, num prédio onde moravam diversos oficiais.

Nos últimos anos de sua vida, enfrentou a doença de Alzheimer, e faleceu em 2011, em São Paulo, aos 102 anos.

No mesmo ano, a historiadora Mônica Schpun publicou, pela Editora Record, o livro “Justa: Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus trocando a Alemanha nazista pelo Brasil”. Em 2014, foi a vez do ator e diretor Caco Ciocler lançar o documentário “Esse Viver Ninguém me Tira”, relatando a saga anônima de Aracy.

Diante de uma história tão desafiadora e de uma biografia tão respeitável, há que se perguntar: por que uma mulher, morando num país estrangeiro em meados do século passado, às vésperas de uma guerra, resolve desobedecer as normas de seu país e desafiar as garras cruéis do nazismo, arriscando a própria vida, a de seu filho e de seu companheiro? A própria Aracy teve oportunidade de responder: “Porque era justo”.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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“Joãzinho” e “Ara” (Foto: Álbum de família)



“Eu amo ser parteira”
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Zenaide Carvalho fez seu primeiro parto aos dez anos (Foto: Diego Gurgel)

Dona Adélia Carvalho era, nos anos 1960, a parteira-geral do Seringal Boa Vista, às margens do Rio Tarauacá, a sudoeste do Acre. De onde quer que viesse o chamado, para lá ia ela, de noite ou de dia, mata adentro, rio acima ou abaixo, “pegar menino”.

Mas houve uma vez em que era ela a parturiente. Sua cunhada Alice, também parteira, era quem a socorria nessas ocasiões. E quis a natureza que, no mesmo dia, na mesma hora, outra cunhada também entrasse em trabalho de parto. O que fazer? Quem ajudaria a parente?

Decidiu-se conforme o costume do seringal: a filha mais velha. No caso, Zenaide, de apenas dez anos. Apreensiva com a responsabilidade que lhe foi entregue, a menina foi até a casa da tia, do outro lado do Igarapé José de Melo, e, nas horas que se seguiram, descobriu um mundo: o desfecho de uma gestação, as dores de dar à luz, o corpo nu e aberto de uma mulher adulta, os líquidos do parto, o assustador surgimento de um bebê ensanguentado, um cordão a ser cortado, uma placenta a ser expelida.

Felizmente, tudo correu bem no batismo de profissão de Maria Zenaide de Souza Carvalho, que, a partir de então, passou a acompanhar a mãe no ofício. Aprendeu o uso ancestral de chás, alimentos e rezas específicos para o trabalho de parto. E, auxiliou o nascimento de quase três centenas crianças, incluindo irmãos seus.

“Já me levantei de madrugada para atender parturiente, já andei na mata com chuva e lama, já atravessei rio nadando, já pisei em pico-de-jaca [surucucu-pico-de-jaca] achando que era tronco, enfrentei de tudo”, relembra ela.Felizmente, tudo correu bem no batismo de profissão de Maria Zenaide de Souza Carvalho, que, a partir de então, passou a acompanhar a mãe no ofício. Aprendeu o uso ancestral de chás, alimentos e rezas específicos para o trabalho de parto. E, auxiliou o nascimento de quase três centenas crianças, incluindo irmãos seus.

O salário? “Uma galinha, um corte de tecido… A família não tinha como me pagar, né, mas queria agradecer e me dava esses presentes. Eu ficava era feliz. Ia sem esperar nada e às vezes ganhava alguma coisa”, conta, com solidariedade de fazer corar muito doutor.

Casos difíceis? Já enfrentou. Como o parto da menina de 11 anos que teve um bebê de cinco quilos. “É arriscado, o útero é menor e as paredes mais finas”, relata. Mas conseguiu salvar os dois. Ou quando a chamaram para resolver um parto que estava estagnado, com a criança coroando havia oito horas: “Tem um jeito de pegar. Pus as minhas mãos por baixo do corpo dela, levantei com vigor e o menino logo saltou pra fora. O alto da cabeça estava até seco”. E o recorde: “Já fiz oito partos em um dia”.

Querendo aprender mais, aos 38 anos saiu do seringal e foi morar em Marechal Thaumaturgo, onde fez curso de auxiliar de enfermagem. Desde 2004 vive em Rio Branco. Em Pernambuco, fez curso de formação de parteira e fitoterapia. Djalma Rocha, seu marido há 45 anos, sempre a acompanhou. O casal teve um filho biológico, cinco de criação e dois netos.

Exatos 284 partos depois, quando volta a Thaumaturgo, não por acaso, demora “três horas” para atravessar a praça, conversando com todos que a abordam. O que mais ouve é o “Bença, madrinha!”, vindo daqueles que ajudou a nascer e batizou. O que a enche de satisfação.

Mas seus olhos se enchem de lágrimas quando, em contraponto à sua referência, fala sobre como as mulheres são frequentemente tratadas nas maternidades: “Estão chorando de dor e tem gente gritando com elas: ‘Cala a boca! Na hora de fazer achou bom’. É muita brutalidade, tenho muita pena!”

Com docilidade, ensina: “A gente tem que tratar a parturiente com todo o carinho naquele momento delicado, só lhe falar de coisas boas, ser amiga dela, ser uma pessoa de alta confiança, porque isso relaxa o corpo da mulher e ajuda o bebê a nascer”.

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(Foto: Diego Gurgel)

Já participou de muitos encontros de parteiras tradicionais. Em março, junto com duas colegas, representou o Acre num evento internacional em Campo Grande: “Foi lindo. Parteiras do Brasil inteiro, cada qual mais sábia que a outra!” E acredita numa fusão mais que interessante em termos de qualidade técnica e ética: “Se misturar a tradição com a ciência, como é que ficam umas parteiras dessas, hein?”

Zenaide também trabalhou com pesquisa, descobrindo parteiras pelo interior, e fez palestras em todo o estado. “Sei ensinar para qualquer um o que aprendi”, afirma, com naturalidade. Aos 59 anos, ainda faz partos domiciliares e tem um sonho: “Queria trabalhar nas maternidades, recebendo as parturientes e orientando profissionais para realizarem partos mais humanizados”.

Onides Bonaccorsi Queiroz, para a Agência Notícias do Acre

 

 



Honrou o juramento

Eram nove crianças acreanas de até oito anos, nascidas com anomalias no sistema urinário. Elas aguardavam tratamento adequado fora do estado, pois seu problema as levaria à insuficiência crônica e falência renal.

Durante um congresso, a urologista pediátrica Fernanda Lage, do Hospital das Clínicas de Rio Branco, relatou os casos ao colega Hélio Buson, do Hospital de Base do Distrito Federal, e o convidou a ajudá-la nos procedimentos.

Em parceria com o Estado do Acre, Hélio se dispôs a vir à capital prontamente e realizou as cirurgias no fim de março, sem cobrar qualquer remuneração extra: “Sou um servidor público, trabalho em um hospital em Brasília e sirvo ao Brasil. Não faria sentido vir a outro hospital público e cobrar pelo serviço”.

Esse honrou o Juramento de Hipócrates.

 

(Leia a reportagem completa de Arison Jardim sobre a realização das cirurgias urológicas, para a Agência Notícias do Acre)

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Os médicos Hélio Buson e Fernanda Lage (Foto: Júnior Aguiar)



lições que o acre dá
Casa do líder ambientalista Chico Mendes inundada, em Xapuri, Acre (Foto: Aline Nascimento)

Casa do líder ambientalista Chico Mendes inundada, em Xapuri, Acre (Foto: Aline Nascimento)

Moradores das cabeceiras dos rios, quando a chuva é muita, alguns povos indígenas do Acre já avisam a defesa civil das cidades mais próximas: se preparem que aí vai água!

Nos últimos dias, foi assim em Assis Brasil, na fronteira com o Peru. Brasileia, por sua vez, teve 90% de sua área urbana alagada – no-ven-ta-por-cen-to! Agora que o Rio Acre baixa ali, o cenário é desolador. A população está arrasada. E o governo, inegavelmente, faz esforço hercúleo para minimizar as perdas e confortar as vítimas.

Ontem, enquanto recebia imagens recém-enviadas pelos repórteres da Agência de Notícias do Acre que estão no interior, vi uma colega de trabalho, editora, cair em prantos. “É muito triste!”, dizia. Era mesmo. Lama demais, que a água destes rios é barrenta, telhados flutuando, móveis perdidos, casas destruídas, gente pobre e gente remediada sem saber por onde recomeçar a vida.

De Xapuri, duas fotos me chamaram a atenção – que o Acre tem fotógrafos excepcionais! Uma é de um monumento tradicional da cidade, a imagem de São Sebastião, que se encontra sobre um pedestal de cerca de um metro de altura: tinha a água subindo pelas pernas. Depois de martirizado pelas flechas, o santo parecia estar sendo açoitado também pela água!

A outra, ironicamente, faz referência a uma figura histórica do ambientalismo, que o Acre projetou para o mundo. Ilustra a casa de Chico Mendes inundada quase até o telhado. É, Chico, ainda não resolvemos essa parada!

Rio Acre abaixo, a água já desalojou, até este último dia de fevereiro, mais de mil pessoas em Rio Branco, acolhidas nos abrigos oficiais. E, em muitos bairros onde não se acerca pela superfície do solo, sorrateira, invade as casas pelos esgotos.

A imprensa nacional, como sempre tem ocorrido, demora a se dar conta do que está rolando neste longínquo estado: muita água!

Mas esta gente de raça segue em frente. Porque aqui existe, “no balde”, como diz a expressão regional,uma outra coisa que está faltando no mundo “desenvolvido”. Esperança.

Se há uma coisa que vibra neste lugar é a solidariedade. É lição para o Brasil e o mundo! A Defesa Nacional já elogiou, em outras oportunidades, a organização e o empenho do governo e sociedade civil no enfrentamento às cheias.

Feliz testemunha desse traço cultural louvável, paranaense que sou, aqui aprendo muito. Fico deslumbrada com a humanidade que os acreanos conseguem apresentar no cotidiano e sobretudo nas horas de dificuldade.

Para ilustrar e encerrar, menciono Rebeca, que é a bela jovem da foto abaixo, com nariz de palhaço e bebê ao colo. Trata-se de uma cidadã voluntária que está trabalhando com recreação infantil no abrigo para as vítimas da cheia na capital. Querem saber? Como ela, há centenas, milhares aqui!

Onides Bonaccorsi Queiroz

A voluntária Rebeca e David Luís (Foto: Luciano Pontes)

A voluntária Rebeca e David Luís (Foto: Luciano Pontes)



Mulher com uma história para contar: Nazaré Araújo
Nazaré Araújo, vice-governadora do Acre (Foto: Sérgio Vale)

Nazaré Araújo é vice-governadora do Acre (Foto: Sérgio Vale)

Ao ocupar o cargo de vice-governadora, Maria de Nazareth Mello de Araújo Lambert, a Nazaré Araújo, protagoniza um capítulo emblemático da história do Acre.

Primeiro governador escolhido pelo voto popular após a elevação do território à categoria de estado, seu pai, José Augusto de Araújo, que até então fora professor de filosofia, manifestava, aos 32 anos de idade, uma concepção de mundo avançada: defendia a aplicação do Método Paulo Freire na educação e chegou a assinar decretos de desapropriação de quatro seringais.

Entretanto, pouco mais de um ano após ter assumido o cargo, foi deposto em 1964, na sequência do Golpe Militar, e cassado em 1966, já residindo no Rio de Janeiro.

Impedido de exercer seus direitos políticos, quem tomou a frente da atuação pública dos Araújo foi Maria Lúcia, sua mulher e mãe de seu filho Ricardo. A distância, ela resolveu se candidatar a deputada federal. A campanha se fez por meio de uma carta, na qual relatava à população o delicado estado de saúde do governador afastado e a subsistência da família com uma afrontosa “pensão de morto-vivo”, subsídio mínimo que o governo militar concedia aos políticos com mandatos cassados. O detalhe é que se encontrava grávida, exatamente de Nazaré.

Com essa atitude valente diante de uma realidade tão complexa, Maria Lúcia conseguiu dois feitos: foi a candidata mais votada e a primeira mulher deputada federal pelo Acre. Em 1969, novo impedimento: logo após o fechamento do Congresso Nacional pelo regime militar, foi cassada pelo AI-5.

A essa altura, em decorrência dos abalos emocionais sofridos e já tendo sido submetido a exaustivos interrogatórios perante a auditoria militar do regime em Belém, a saúde de José Augusto foi-se fragilizando bastante. Deprimiu-se e sofreu quatro enfartes, até que faleceu em 71, aos 40 anos.

Nazaré tinha apenas quatro anos quando o perdeu. Mas, ao longo da vida, graças à presença da voz narradora da mãe, pôde apropriar-se da sua memória familiar: “Mesmo no hospital e debilitado, ele estava atento ao que se passava à sua volta. Pedia para minha mãe que levasse os livros e gibis dos filhos para as crianças internadas lerem. O partilhar era um grande valor em sua vida”, avalia.

A família permaneceu no Rio até 79, quando Maria Lúcia cumpriu o período de cassação e voltou para o Acre. Em 82, lançou-se candidata a deputada federal e não se elegeu. Foi então convidada a assumir a Fundação do Bem-Estar Social do Acre.

Nessa época, viajou com frequência ao interior do estado, muitas vezes acompanhada da filha, então adolescente. Experiência riquíssima para a formação humanista de Nazaré e peça fundamental para a composição de seu quebra-cabeças pessoal: “Eu entendi o sonho de meu pai: dar cidadania a quem nem tinha noção de que era cidadão. Foi ali que eu fiz um compromisso de vida”, conta.

Em 86 a incansável Maria Lúcia se candidatou novamente a deputada federal e venceu. De volta à capital federal, Nazaré estudou Direito na Universidade de Brasília (UnB).

O tempo mostrou-se um aliado. Entregou-lhe conquistas e superações. Procuradora do Estado do Acre há 20 anos, Nazaré se aproximou das ações de governo, até que assumiu a subchefia da Casa Civil, na primeira gestão do governador Tião Viana. Também construiu uma família: é casada e mãe de uma moça.

O passar dos anos trouxe reparações também. Em 2014, a Assembleia Legislativa do Acre anulou a cassação do mandato de José Augusto. O Estado registrava, então, uma correção histórica.

Este mês, durante as férias do governador, sua filha chefiou, pela primeira vez, o Executivo no Estado. Com um trato franco e gentil, a bela Nazaré – como não reparar? – afirma que faz questão de dedicar o olhar e o tratamento do feminino para as questões governamentais. Afinal, aprendeu em casa que essa competência, que tanto tem a ver com a atitude de cuidado com o outro e com o entorno, é cada vez mais necessária ao mundo.

Sua experiência de vida é, aliás, o grande propulsor de sua expressão social. “Depois de tudo o que minha família já atravessou, imagine a minha emoção ao receber o convite de Tião Viana para assumir agora esta responsabilidade”, diz. E arremata: “Tudo o que vivi dá significado a este momento. Temos desafios enormes, mas trabalhar neste projeto me deixa muito feliz, porque nele minha emoção está unida com a razão”.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: Sérgio Vale)

(Foto: Sérgio Vale)



Brava Gente do Acre – Alda Amorim, guerreira desde menina
Dona Alda Lopes de Amorim é líder de movimentos sociais no Acre (Foto: Arison Jardim)

Dona Alda Lopes de Amorim é líder de movimentos sociais no Acre                        (Foto: Arison Jardim)

“Viemos do Seringal São Pedro, em Xapuri. Em 1966, minha família morava no Quinze. Pai, mãe e seis filhos. Meu pai era hanseniano. Naquela época havia muito preconceito e os vizinhos denunciaram. A lei obrigava à internação compulsória, em completo isolamento, pelo resto da vida. A polícia veio e levou meu pai a pulso para a Colônia Souza Araújo. Levaram também a minha mãe, que, pela convivência com o marido, ficou fechada em uma morada distante. Botaram fogo na nossa casa e simplesmente nos largaram. Eu era a mais velha, com 11 anos. Fiquei cuidando dos meus cinco irmãos. A mais nova tinha um mês. A gente ficou mendigando, dormia pela rua. Tinha que arranjar o pão de cada dia. Se ganhava, comia, se não ganhava não comia. Muitos escorraçavam a gente, com medo de se contaminar. Xingavam, queriam bater, soltavam cachorros atrás. Até tentaram nos matar afogados. Quiseram abusar de mim duas vezes, ainda bem que apareceu alguém para me salvar nas duas, numa delas foi a dona Neném Sombra [figura tradicional do bairro XV]. Nossa vida parecia uma guerra, todo mundo nos atacava. A gente sofreu muito e passou muita fome. Quiseram nos levar para um abrigo, mas a gente sabia que batiam nas crianças e não queria ir pra lá. Uma vez meu pai fugiu do hospital – mais tarde me contaram que ele vivia chorando lá, sempre deprimido. Ele encontrou a gente, foi uma festa. Mas a alegria durou só umas duas horas, porque logo o denunciaram e a polícia veio buscar de novo. Foi um desespero, nós, em pânico, chorando agarrados a ele, implorando para não o levarem. Ele fugiu, se embrenhou na mata e se perdeu. Depois acharam seu corpo. O que aconteceu com a gente foi muito triste, não gosto nem de lembrar.”

Esse relato da desumanidade humana é narrado por Alda Lopes de Amorim, 59 anos, uma das lideranças mais expressivas dos movimentos sociais acreanos.

Cuidar, alimentar e proteger são, portanto, funções que ela aprendeu a desempenhar desde a infância, em condições muito austeras. “As coisas só melhoraram para nós quando consegui um emprego, aos 16 anos. Aí, aos poucos, fomos nos estabelecendo e todos conseguiram se formar”, conta Alda. E foi essa a vitória da primeira, longa e árdua batalha de sua vida.

Mais tarde, apresentando sintomas da doença, também foi internada na colônia. Após dois anos de tratamento, teve alta. A dura experiência do isolamento consolidou dentro de si um ideal pleno de significado para ela: combater o preconceito e lutar pelos direitos dos hansenianos.

“Decidi então ficar nas imediações do Souza Araújo”, lembra Alda. Com outros ex-pacientes que eram rejeitados até pela família, angariou, junto ao poder público, uma área nas proximidades e juntos fundaram o bairro Santa Cecília. “Cada um que saía me procurava, e assim fomos formando a nossa comunidade”, diz. Montaram uma associação de moradores, a terceira do estado, da qual Alda foi eleita presidente dez vezes consecutivas.

“Conquistamos, com um projeto apresentado ao governo federal na década de 80, madeira para 150 casas. Fizemos um mutirão para construí-las. Erguemos 105 casas em 11 dias. Muitos de nossos operários eram mutilados pela doença. Amarravam as ferramentas nos tocos de braços e trabalhavam o dia todo. Éramos muito unidos”, recorda.

Depois veio a peleja pela energia elétrica. Alda obteve a infraestrutura externa, mas ainda precisava de todo o material elétrico para as casas, pois as pessoas da comunidade não tinham renda. “Fui de pires na mão no comércio, expliquei a nossa situação e foram doando tudo. E depois levantamos dinheiro para pagar o eletricista”, descreve.

Alda ainda foi atrás de colchões e redes, porque as pessoas dormiam no chão: “De noite eu ia me deitar e ficava pensando neles. Não conseguia descansar. ‘Preciso ajudar’, pensava”. E obteve o que precisava.

Mais tarde o movimento que ela liderava pleiteou encanamento: conseguiu. Escola: conseguiu. Posto de saúde: conseguiu. Creche: conseguiu. Não com facilidade, não com rapidez. Mas com “muita luta”, nas palavras de Alda.

Formada em Pedagogia, atuou na escola do Santa Cecília como professora, coordenadora e diretora – ao mesmo tempo. Nos fins de semana, organizava reuniões com os pais: “Eu fazia questão da proximidade entre a escola e a família”. E nos recessos? Promovia colônias de férias, para alunos e pais. “Era uma grande oportunidade de integração familiar”, relembra.

Hoje a Escola Raimundo Hermínio de Melo, de ensino fundamental, tem 600 alunos. E agora dona Alda e sua comunidade reivindicam uma escola de ensino médio. “Queremos que nossos adolescentes estudem aqui no bairro porque assim ficam menos expostos a qualquer tipo de violência”, argumenta.

Alda, ou “Aldinha”, como é chamada por muitos, pela competência obtida ao longo de 30 anos atuando em movimentos populares, auxiliou na fundação e organização de diversas associações no estado, tornando-se uma consultora informal no assunto. “Conheço todo mundo e todo mundo me conhece”, diz a líder, que transita com fluência nos gabinetes oficiais.

Atualmente, enfrenta delicados problemas de saúde: “Percebo que meus dias estão encurtando e tudo o que eu quero é bem-estar para trabalhar. Para cada demanda que me trazem e ajudo a resolver, sinto que ganho um dia de vida”.

Uma das maiores satisfações de Aldinha é ver bem-sucedidos os ex-alunos da instituição de ensino que criou e dirigiu. Muitos vêm lhe contar que já são médicos, engenheiros florestais, professores. Reconhecem e agradecem seus esforços.

Com a singeleza de uma menina e a força de uma guerreira, ela avalia a própria história com toda propriedade: “Eu me sinto com o dever cumprido. Sei que contribuí para que a sociedade seja melhor.”

Onides Bonaccorsi Queiroz para a Agência de Notícias do Acre

Dona Alda me recebeu na varanda de sua casa (Foto: Arison Jardim)

Dona Alda nos recebeu com suco e muita simpatia na varanda de sua casa                     (Foto: Arison Jardim)

 



Brava Gente do Acre – Um doutor humano
Se o Acre conseguiu controlar a disseminação da hanseníase no estado, deve muito ao médico William John Woods (Foto: Diego Gurgel/Secom)

Se o Acre conseguiu controlar a disseminação da hanseníase no estado, deve muito ao médico William John Woods (Foto: Diego Gurgel/Secom)

“O Rio Purus tem 3.600 quilômetros. Eu percorri os 3.600, mais os afluentes”, conta o médico William John Woods, irlandês radicado em Rio Branco. Na verdade, ele cursou, durante décadas, não apenas um, mas todos os rios acreanos e afluentes, acompanhado de profissionais da saúde pública. A razão foi das mais nobres: identificar casos de hanseníase e realizar o controle da doença em todo o estado.

Há 35 anos em terras acreanas, seu esforço não tem sido em vão. Nas décadas de 70 e 80, o Acre era o recordista brasileiro em hanseníase, onde chegaram a ser identificados 500 casos anuais da doença. Em 2013, esse número foi de 15. Na capital, o Hospital Souza Araújo, especializado na área, já abrigou 500 internos. Hoje tem apenas 30. Pelas mãos do “doutor Williame” ou “doutor Guilherme”, como é conhecido, já passaram cerca de 12 mil pacientes portadores do mal de Hansen e receberam alta.

Quando, em 1986, o Ministério da Saúde determinou a implantação, em alguns estados, da poliquimioterapia (PQT), então uma nova técnica de combate à hanseníase recomendada pela Organização Mundial de Saúde, foi pelos esforços de William que o Acre foi incluído no projeto-piloto.

O benefício de todas as ações lideradas por esse homem não aponta somente para a cura orgânica de uma das doenças mais temidas desde a Antiguidade – o que já é um grande feito. Mas, para além da superação dos sofrimentos e horrores físicos que a hanseníase é capaz de produzir, a humanidade pode comemorar a libertação de um estigma tão arcaico que foi ilustrado biblicamente.

No Brasil, até o final da década de 70 uma lei determinava a internação obrigatória de pessoas com hanseníase em hospitais-colônia. De modo que não é incomum ouvir no Acre o relato, sempre carregado de pesar, de filhos que, na infância, tiveram os pais arrancados do seu convívio e que apenas quando já eram adultos os conheceram ou reconheceram.

Talvez tenha sido esse ambiente de padecimento e de precariedade no atendimento em saúde que tenha motivado, lá pelos idos dos anos 60, o rapaz em missão batista no Amazonas, então com apenas 22 anos, a estudar Medicina, o que realizou em Manaus. Depois, fez residência em Dermatologia no Rio de Janeiro e ainda especializou-se em Oftalmologia na sua Irlanda.

Também estudioso da doença de Jorge Lobo, moléstia tropical pouco conhecida, Woods é uma referência nacional por ter descoberto que a medicação utilizada para portadores de hanseníase também tem efeitos positivos em pacientes de Jorge Lobo. Com base nesse dado, iniciou seu projeto de pesquisa junto à Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), em parceria com o Instituto Lauro de Souza Lima, de Bauru (SP). E o Acre é o único estado do país que oferece o tratamento.

Quase lacônico, o estilo pessoal de William é bastante discreto. Provavelmente ninguém ficará sabendo, por seu intermédio, que, por conta dos serviços que prestou à humanidade, é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Acre (Ufac), nem que foi uma das cem personalidades condecoradas pelo Estado do Acre com a réplica da espada de Plácido de Castro e nem mesmo que recebeu da rainha da Inglaterra o título de “Sir”, como Cavaleiro da Ordem do Império Britânico.

Sem alarde, apenas trabalha. E já completou 77 anos. Deixou o cargo de coordenador do Setor de Hanseníase do Hospital das Clínicas do Acre para poder clinicar. Explica com simplicidade: “Prefiro atender”. E não deixa de mencionar as conquistas: “Hoje contamos com todo o apoio da Saúde do Estado”.

Quando fala, entretanto, da adaptação de um cidadão europeu ao ambiente amazônico e ao idioma português, Sir William John Woods dá mostras de que mantém o humor britânico: “Os primeiros 50 anos são os piores”.

Mas por que ele permaneceu aqui mesmo enfrentando condições tão adversas? Provavelmente porque, movido por ideais profundamente solidários, ao se deparar com as dores do corpo e da alma humana, reagiu como bem poucos: tomou para a si a responsabilidade de aliviar o sofrimento dos seus semelhantes.

Onides Bonaccorsi Queiroz, para a Agência de Notícias do Acre