Verbo de ligação


O fio da vida
03/11/2017, 22:39
Filed under: Prosa | Tags: ,

Minha avó me ensinou a fazer crochê. Eu era criança, e encadeava longas correntinhas. Depois, ela me mostrou como se faziam rodinhas, mandalinhas. E eu me alegrava em aprender.

Mais tarde, a tia Bomfim, minha parente de afeto lá do Maranhão, apresentou-me aos quadradinhos. Eu acompanhava suas mãos ágeis bailando com a agulha, era tão bonito vê-la trabalhar, o esmalte vermelho escuro das pequenas unhas combinava tão bem com sua tez de bronze… Satisfeita, fui descobrindo como aquilo produzia lindas colchas de cama.

Mas o tempo passou e eu esqueci tudo isso. E até achei desimportante – não é. Num mundo de culto à velocidade, à impessoalidade e ao consumismo, os trabalhos manuais são verdadeiros atos de resistência cultural e autocura.

Eis que a memória dessas preciosas lições voltou quando meu filho era pequeno e me pus a crochetar junto com a sua doce vovó: inventei de fazer para ele, com a ajuda dela, o barrado para uma toalha de banho azul, cor que nós dois amamos. E quis que o atravessasse um trenzinho, brinquedo dos preferidos do meu menino.

Locomotiva, vagão por vagão, lá fui eu laçando com a agulha do intento a linha solta dos meus pensamentos, que iam se organizando, fazendo versinhos e se acalmando. Minha mestra me elogiava, “teu ponto é bom, nem solto demais, nem apertado demais”. Eu, toda prosa, caprichava.

Enfim, acabei o barrado. E, constatei, orgulhosa, o resultado do meu trabalho. Mas, de repente, enxerguei algo que me alfinetou o brio: lá no meio de tudo, um ponto errado! Um!

Como? Como pôde acontecer?

Escapou. Escapou do meu controle! E eu fiquei enraivecida por ter cometido aquele lapso.

Logo veio a reação egoica e intempestiva: iria desmanchar e fazer de novo! Eu é que não assinaria aquele atestado de incompetência. – Como se, com nada de mais estimulante para fazer na vida, as pessoas estivessem muito interessadas no meu patético erro!

Aí percebi com que soberba eu estava me comportando, vi a ilusão de onipotência que alimentava sobre mim mesma – e me senti envergonhada.

Então tomei uma decisão terapêutica: iria golpear minha compulsão perfeccionista! Não desmancharia o que havia feito. O barrado ia ficar daquele jeitinho, lindamente honesto com todos os meus acertos e também com a minha falha.

Afinal de contas, o mais relevante de tudo estava registrado ali: o meu empenho em oferecer algo de bom e de belo para uma pessoa que eu amava.

E, sim, todas as vezes que eu olhei para aquele trabalho eu me lembrei da minha falibilidade humana e me propus a aceitá-la um pouco mais.

Onides Bonaccorsi Queiroz

mandala face

(Imagem: internet)

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2 Comentários so far
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Bom dia. Fez-me lembrar um trabalho que minha avó fazia anualmente, dentre outros. Lavar, cardar a lã de carneiro e enfiá-la entre tecidos ponteados que tornavam-se lindos acolchoados para o inverno. Eram distribuídos entre familiares, amigos e serviçais. Boas lembranças. E, Parabéns pelo belo texto. Joaquim Medeiros Jr.

Comentário por Joaquim Medeiros de Souza Junior

Caro Joaquim, me alegra que o texto tenha despertado essas lembranças em você. E te agradeço por esse retorno. Um abraço.

Comentário por onidesqueiroz




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