Verbo de ligação


Por que a cotia ficou sem rabo

Fazer favor é bom? A maioria das pessoas que conheço responderia que sim, aposto. E também eu cultivei essa crença durante anos.

Mas, prestando bem atenção às práticas, reações e motivações humanas, mudei de ideia. De uns tempos pra cá, a minha resposta à questão é: depende. Nem sempre vale a pena ajudar. Porque o préstimo precisa ocasionar efeitos salutares para quem dá e quem recebe, o que nem sempre ocorre.

Para avaliar a adequação, valho-me de alguns critérios, garimpados entre as experiências que vivi. O primeiro é de só fazer o obséquio que me for diretamente solicitado. Por algumas vezes, atendi à necessidade ou suposta necessidade de alguém, que tratou o indulto com descaso, ou até indelicadeza, chegando a me dizer: “Não te pedi nada”.

Restou-me reconhecer que eu havia agido tolamente. E aprendi que quando concedo o que possuo sem que me tenha sido convocado, desmereço esse bem, seja abstrato ou material. Porque, com tal atitude, impeço o outro de perceber tanto a sua carência quanto o valor do trunfo que carrego e que poderia eventualmente compartilhar.

Assim, a pretensão verbalizada é a admissão da existência da demanda e a prova de encaminhamento a destinatário específico.

Segundo quesito: só faço o que posso fazer. Já vi gente cedendo aquilo de que tem necessidade e até emprestando dinheiro que não possui para socorrer terceiros. Cada caso é um caso e emergências existem, mas um procedimento dessa espécie exige reflexão e parcimônia.

Já a terceira condição para viabilizar o auxílio é verificar se o candidato ao favorecimento o merece. Sua conduta tem afinidade com a benesse em questão? Por exemplo: um amigo pagava curso de inglês para a sobrinha, que faltava às aulas e tirava notas baixas. Ele a advertiu, ela fez pouco caso. A solução foi simples: ele cortou o benefício e deixou de se sentir lesado.

Por sua vez, outro amigo é refém de um parasita. Há décadas faz negócios com um companheiro de infância que vive com problemas financeiros. Ao ser brindado com cada chance, o tal sujeito sempre se aproveita da situação e prejudica o velho parceiro de alguma forma. Que se deixa cair na armadilha de novo e de novo. Talvez porque esteja apegado à sua máscara de generosidade. Talvez porque, infantilizado, não consiga impor limites a si próprio nem aos outros. Ainda desconhece o significado profundo de uma palavra fundamental: “não”. E, enquanto tolera o predador, vai pagando o preço. Não por acaso, “cotia ficou sem rabo de tanto fazer favor”, avisa a sabedoria popular.

Aí fica fácil reparar também que aquele que ajuda compulsivamente não recebe agradecimento. Ouve é reclamação quando porventura falta com o que nem é sua incumbência.

A verdade é que apoiar um comportamento negligente ou nocivo, longe de ajudar, incentiva um explorador a se manter na ilusão de que está se conduzindo com integridade e que os seus atos não estorvam ninguém.

É preciso, então, que o benfeitor em potencial se ausente dessa cena. Primeiro para evitar problemas a si próprio. Depois, para que o outro possa perceber o que perdeu, ou o que deixou de ganhar, e por quê. Apenas essa retirada é que propicia a abertura do espaço para a reflexão na vida do interlocutor. O que significa promover a dignidade de ambos.

Mas, havendo pertinência, oferecer ajuda é uma das maiores gratificações de que um ser humano pode provar. Quem favorece com responsabilidade, dá e recebe.

Onides Bonaccorsi Queiroz

cotia

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7 Comentários so far
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Talvez você já tenha ouvido um ditado que diz:”Porquê me queres mal se nunca te fiz bem?
Por outro lado, minha querida Titiene (que Deus a tenha) era muito dadivosa e sempre que me presenteava com algo,ao lhe agradecer, ela me respondia: ” Quem dá é que agradece.”
Aquele que dá esperando retorno,na verdade não está dando e sim investindo, não acha?

Comentário por Gilson Brandão

Acho, Gilson! O fazer desinteressado é que interessa, mas isso não significa que pode se furtar à responsabilidade sobre as consequências do seu ato. Beijo, amigo!

Comentário por Onides

Incrível! Esses dias estava pensando exatamente sobre isso. Concordo com tudo! Como sempre você nos presenteando com um texto primoroso. Obrigada!

Comentário por Melissa Jares

Sempre bem-vinda, Melissa! Beijos.

Comentário por Onides

excelentíssimo texto!!! ótimo ótimo!! adorei!
só não entendi o que a cotia tem a ver com a história…. talvez um ditado que desconheço… mas não entendi.
Gratidão minha amiga pelo compartilhamento mastigado de lições que também passamos, mas nem sempre percebemos.

Comentário por THIAGO MARTINS E SILVA

Grata, Thiago! O ditado está ao fim do oitavo parágrafo. Beijo nas lindezas em casa.

Comentário por Onides




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