Verbo de ligação


Bordões da ilusão
13/09/2016, 13:30
Filed under: Prosa

“Me faz feliz!”. Brada o frequente bordão da cultura popular romântica. Na canção. Na ficção. No imaginário. Nas relações humanas.

Como se fosse possível. Como se fosse verdadeiro. Como se o outro, tão humano quanto eu, tivesse poderes mágicos de me prover emocionalmente e de me pacificar a alma. Como se meu bem-estar dependesse dele, e não de mim.

Como se “eu preciso de você” fosse uma genuína e desapegada declaração de apreço e não um atestado de interesse utilitário. Como se “eu te amo” não fosse tantas vezes pronunciado, ainda que inconscientemente, com o fim de aprisionar o outro. E como se a chantagem não fosse filha do medo e, portanto, o exato contrário do amor.

Como se esse outro, em contrapartida à minha expectativa de satisfação garantida, não recebesse, ato contínuo, o direito de criar a sua, em relação a mim. Como se eu não fosse hipócrita, ao sustentá-la. Como se esse pacto não fizesse de nós escravos da ilusão e fadados à mendicância afetiva.

Mas, sobretudo, como se fosse necessariamente ruim estar só. Como se não houvesse um rico universo dentro de cada um, a ser descoberto, desfrutado – e, sim, também compartilhado. Como se experimentar a própria companhia fosse desagradável. E como se esse desconforto não fosse a verdadeira tragédia.

Onides Bonaccorsi Queiroz

les amants - rené magritte 1928.jpg

“Les amants”, 1928, René Magritte

 

Anúncios

Deixe um comentário so far
Deixe um comentário



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: