Verbo de ligação


A assustadora nova escola

Depois eu viveria muitas alegrias ali. Mas, no começo, a nova escola foi assustadora para mim. Tudo era amplo e me parecia ameaçador demais. Tão diferente do meu jardim de infância, acolhedor, onde tudo e todos eram conhecidos.

Agora o prédio tinha três andares, com longos corredores, escadas de cor cinza, tão frias, sem sol. E havia muitos rostos, todos estranhos. Eu, expatriada e profundamente desolada, só tinha vontade de chorar, sem saber o que sentia, aos seis anos de idade. E chorava.

O segundo dia foi terrível, ainda com a professora temporária, pois aquela que seria a minha querida Tia Márcia ainda não havia chegado. Insensível, a interina – ai! – resolveu implicar comigo. Sem se dar ao trabalho de aprender o meu nome, disse rispidamente:

– Hoje eu não quero choro nesta sala. Chega de choro, ouviu?

Claro que eu tinha ouvido. E tive vontade de aprofundar o pranto, pois aí é que o mal-estar me dominou. Mas devo ter bloqueado as lágrimas e ela deve ter se sentido muito competente em sua pedagogia castradora.

Aquele pode ter sido apenas um momento infeliz – quem não os tem? – mas sua atitude marcou meu coração de criança. A verdade é que eu a encontraria muitas vezes, ao longo dos oito anos que estudei lá, e nunca consegui lhe nutrir a menor simpatia.

Quando voltei para casa, disse a minha mãe:

– Eu não gosto daquela escola. Quando eu tô lá, só fico sentindo saudade da senhora.

Então, num momento de absoluta inspiração, mamãe fez a coisa certa. Teve uma atitude simples, poderosa e curativa, porque guiada pelo carinho. Algo que socorre a aflição imediata e evita que se instale, na criança, o sentimento crônico de rejeição e isolamento, responsável por atrair tantos sofrimentos vida afora.

Ela deixou, por um momento, todos os afazeres de lado, inclusive cuidar de sua mãe idosa e dos meus dois irmãos, e se focou em mim.

– É mesmo, filha? Você ficou com saudade de mim? Ah, então vem cá.

Pegou-me pela mão, sentou-se no sofá e me deitou com a cabeça sobre o seu colo. Eu fiquei muito contente por ela me acolher naquele momento. E já fui me sentindo melhor. Para um adulto, minha queixa poderia parecer sem maior importância, mas, internamente, eu atravessava um túnel de pavor e minha mãe estava me socorrendo.

Como fada, ela alisava meus cabelos, conversava comigo com voz tranquila, carinhosa, falando de coisas boas e sorrindo docemente. Com o contato corporal e afetivo, ela me prestou grande suporte. Eu pude, então, reconhecer meu porto seguro e retomar meu eixo emocional.

Aos poucos, fui ficando mais calma e mais segura. Mais forte para enfrentar a vida. Afinal, a minha mãe gostava de mim.

Onides Bonaccorsi Queiroz

escola assunção curitiba

Colégio Nossa Senhora da Assunção (Curitiba/PR)

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