Verbo de ligação


Beijoqueiro
27/07/2016, 22:43
Filed under: Prosa | Tags: ,

Um dia, enquanto voz da professora discursava ao longe, Chico atentou para uma imagem que nunca mais esqueceria. O brinco na orelha de Maria Teresa.

Na sala de aula da escola rural, a carteira dela ficava na diagonal do olhar dele. Era tão delicada aquela orelha com brinquinho e eram tão brilhantes os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo e tão aveludada a pele e tão redondos os olhos…

Chico soube de tudo isso sem pensar nisso. Mas viu o brinco e viu que a menina era bonita. Maria Teresa. Que rimava com princesa. Foi então que ela percebeu que ele reparava nela. E a princípio não pensou em nada, mas depois achou bom.

E passou a reparar nele também. Logo se aproximaram, junto a outros colegas. Ficavam tão contentes quanto embaraçados um na presença do outro, mas, a despeito de todo o encabulamento, aquela era a melhor hora do dia.

Então fizeram um esforço gigantesco e conseguiram conversar. Não havia importância nenhuma no que diziam, porque tudo o que queriam era proximidade.

Os amigos não tardaram a perceber o interesse mútuo e mal podiam vê-los se avizinhando para gritar, sem piedade, “beija, beija!”. Horríveis.

Um dia, por arranjo e incentivo de um companheiro mais espevitado, alguém a avisou que Chico estava atrás do prédio da escola, esperando para lhe dar um beijo. Na boca.

Um frio subiu pela espinha de Maria Teresa e ela pensou em sair correndo, mas, mesmo com as pernas trêmulas, preferiu ir ao encontro do menino, que não se achava em situação muito mais confortável.

Ele juntou um tanto de coragem e a abraçou. E, quando estavam juntinhos, Chico tocou seus lábios nos dela. E aí achou que seria, como os amigos haviam lhe dito, uma boa ideia fazer deslizar sua língua para dentro da boca da menina.

No começo ela teve um certo nojo, mas conseguiu deixar de pensar nisso e viu que era gostoso encostar a sua naquela língua. “Então, beijar é isso?”, pensaram silenciosamente.

Quando acabou, sentiram que havia acontecido algo íntimo entre eles. Entenderam, também, que já não eram crianças e isso lhes causou certo orgulho. Precisaram, ainda, de alguns momentos de cabeça baixa. Então a sineta tocou e saíram rapidamente dali.

No dia seguinte, ao se encontrarem na escola, não se olharam. Que por acaso alguém sabia o que fazer depois do primeiro beijo? Mas na saída para o recreio ele foi para trás do prédio. E ela viu. E o seguiu. E se beijaram de novo.

Ocorre que, nesse dia, João, o irmão de Chico, desconfiado, percebeu a arrumação e foi atrás. Ao ver o idílio dos dois, ele, que era mais velho e nem tinha namorada, não se conteve de inveja.

Na volta pra casa, andou os sete quilômetros da estrada azucrinando as ouças do menor, repreendendo-o, aterrorizando-o, adiantando que a mãe saberia de tudo e a peia seria das grandes.

Quando chegaram, o primogênito delatou o caçula, e o que fez a mãe? Aplicou sim uma sova no enxerido, onde é que já se viu, moleque beijar na boca? Que não se atrevesse mais!

A surra doeu. E o pior é que Chico nem sabia direito por que tinha apanhado. Que mal tinha beijar Maria Teresa? Era tão bom!

Na manhã que se seguiu, os irmãos foram à escola em silêncio. Em classe, ali estava ela. E o brinquinho, ai, o brinquinho na orelha dela. O rápido olhar dela. Maria Teresa.

No fim da aula, Chico saiu devagar e seus passos o levaram… para trás da escola. Os dela também. O irmão foi conferir. E viu o que queria ver. O topetudo beijando mais uma vez. Voltou protestando no caminho, contou pra mãe, que bateu de novo.

Na manhã seguinte, chegando à escola, Chico feliz da vida, antecipando o porvir. Que a mãe batesse o quanto quisesse. Ele iria beijar.

Onides Bonaccorsi Queiroz

brinco

(Foto: internet)

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2 Comentários so far
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Onides, como gosto deste espaço aonde tuas palavras me fazem sorrir, despertam lembranças e causam sensações.
Agradecida pelas palavras que nascem histórias, e alegram meu coração. Luciana

Comentário por Luciana Scartezini

Ah, que alegria saber que esses textos alegram ou enternecem o cotidiano de mais alguém! Seja sempre bem-vinda, Luciana! Abraço.

Comentário por Onides




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