Verbo de ligação


O afeto à mesa
17/06/2016, 21:54
Filed under: Prosa | Tags: , ,

Lembro como se tivesse ocorrido num tempo mágico, e era. Quando a nonna nos alimentava com o lanche da tarde, café com leite, pão e manteiga, às vezes bolachas maria. Outras era chá mate com torradas, que eu adorava.

Era atenciosa e devotada no seu fazer de avó, cuidadora. Sim, só pode ser um tempo mágico ter mãe, irmãos e avó por perto, ter um quintal grande para brincar, ter uma vida para sonhar.

E, evidentemente, numa família italiana, muito do afeto gira em torno da mesa. A gente aprende que nutrir é uma forma de amar. Ao menos uma das elementares.

Minha mãe, hoje voluntariamente afastada das panelas, era cozinheira de mão cheia, todo mundo elogiava o que ela fazia e o marido e os filhos tínhamos o maior orgulho dela. Devo me dar por muito satisfeita se logrei herdar um décimo do seu talento culinário.

Já minha avó raramente cozinhava. Mas sabia fazer pratos deliciosos. De um deles me lembro com saudade, pois nunca mais tive a chance de provar: a scacciata. Já vi a receita na internet, mas não sei se tenho coragem de tentar reproduzir e com isso comprometer a preciosa memória do meu paladar.

Era uma espécie de torta salgada, em que uma massa de pão envolvia – vamos ver se me recordo de todos os ingredientes – couve-flor ou brócolis, orégano, azeitona preta… Queijo? Talvez. E talvez cebola e alho, e, pensando bem, também manjerona fresca e um bom azeite de oliva poderiam fazer essa composição dobrar joelhos.

Ah, era bom demais e era único também o ambiente que envolvia o momento da refeição, a reunião, as vozes atravessando a mesa, comentários sobre a história do prato, a lembrança dos antepassados, quem preparava, como cozinhava, quem dos antigos familiares gostava…

Tudo regado a muito dialeto siciliano espocando palavras fantásticas, pronúncias incríveis de nomes e apelidos como Fillipo, Pippo, Turiddu, Rusidda, Pasquale, Tinuccia, Iuzzo. Enfim, um exercício cultural e tanto.

Ah, eu amava aquilo, sem saber que amava. Eu amava porque era a minha história, a minha gente, a minha família, as pessoas que me amavam e cuidavam de mim.

E agora, lembrando e refletindo com saudade e gratidão, eu entendo a importância de pertencer.

Onides Bonaccorsi Queiroz

scacciata siciliana

Scacciata siciliana (Foto: internet)

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