Verbo de ligação


Não deixe um bebê chorar

De todas as teorias do universo materno, as que me assustam são: não dar colo para o bebê, regular a amamentação em horários cronológicos e deixar o bebê chorando. Elas me pegam na alma.

Bebês não sabem falar, nasceram em um ambiente aquático, escuro, cheio de movimento e calor e estão do lado de fora.

Precisam ser alimentados, estranham. Descobrem no peito uma maneira de ter o aconchego pleno.

Basta ver uma cadela: quando o filhote chora, a mãe corre e aconchega. Bebês não choram à toa e se choram estão pedindo: “Por favor, me ajude!”

Ajude a dormir, a enfrentar a solidão, a lidar com a temperatura que oscila.

Quando um bebê pede colo ele está reconhecendo que você é uma segurança. Quando você nega esse colo, ele pode se acostumar com a negligência e resignar-se. Mas ele não está feliz.

Eu adoro o conceito: permita que as crianças sejam dependentes no momento em que podem ser, para que sejam independentes para toda a vida.

O que mais vejo neste mundo são pessoas dependentes e resignadas. Dependentes de comida, de medicamentos, de sexo, de necessidade de aceitação. São, algumas vezes, sobreviventes de pequenos ou grandes abandonos.

Algumas vezes, vendo esses programas que difundem a ideia da “torturadora de bebês”, eu sinto algo inexplicável: eu choro com a mãe que chora, com o filho que dorme soluçando.

Não há nada mais fácil e prazeroso para mãe e bebê do que deitar junto com o bebê e dormir agarradinho. É tão rápido que eles crescem! O que são três anos diante de uma vida toda?

Queremos tanto a independência precoce, exaltamos isso como troféu e depois questionamos onde se perdeu esse fio.

Eu vejo idosos abandonados com cuidadores ou em asilos e vejo ali o reflexo de uma sociedade que fecha os olhos para os dependentes, trocando o amor por tecnologia, chupeta, mamadeira, berço que balança e, no fim, uma cama fria e olhos de uma profissional contratada.

Assim começa a vida, assim ela termina. No meio um grande vazio que tentamos preencher. Um vazio cultivado em nome dessa ilusória independência precoce.

Kalu Brum

(Foto: Adriana Queiroz)

(Foto: Adriana Queiroz)

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4 Comentários so far
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Belíssimo texto; e de utilidade pública!

Comentário por hangferrero

😉

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz

Os índios tb nos dão ótimos exemplos.Nunca me esqueço da história,contada por meu irmão,a respeito de uma cena que muito o impressionou:estava uma jóvem índia a brincar com seu filhinho na beira do rio;ela fazia bonequinhos de argila com todo esmero e,depois de bem acabados,dava-os pro seu filho.A criança pegava aquele boneco de argila e o amassava até virar uma massa disforme e depois devolvia pra sua mãe que,pacientemente transformáva-o em boneco e dáva-o pro seu filho que,depois de amassá-lo bem devolvia-o pra sua mãe e a cena se repetia incansavelmente.Meu irmão vendo aquilo,curioso,chegou perto dos dois e perguntou à mãe:Por quê vc faz o boneco com tanto cuidado se o seu filho vai amassar,ao que ela respondeu:pra ele amassar!!….Não é incrível?..ela não se chateava com aquilo,não brigava com o filho dizendo:se vc amassar de novo eu não faço mais.Reconnhecia que o prazer do filho era justamente amassar os bonecos para sua mãe refazê-los,essa era a brincadeira e pra mim um grande aprendizado.

Comentário por Gilson Brandao

O que demonstra uma compreensão profunda do aprendizado humano, não é, Gilson?

Comentário por Onides




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