Verbo de ligação


Artes de madrinha
16/10/2015, 15:34
Filed under: Prosa | Tags: ,

– Madrinha, eu quero te pedir um presente.

– Diga, meu bem.

– Um vestido de noiva.

– Você vai se casar?

– Vou.

– Com quem?

– Com o meu pai.

– Hum. Sua mãe já sabe?

Ela pensou um pouco e devolveu:

– Não. Mas eu resolvo isso.

– Sei.

Silêncio.

– E aí? Vai me dar?

Como é que eu iria negar uma coisa dessas para Maria Júlia? Que madrinha tem responsabilidades variadas, inclusive lúdicas.

Primeira providência: tomar as medidas da menina. Depois, criar o modelo do traje – e aí comecei a me divertir. Fui ao comércio, atrás de panos e adereços. Escolhi um tecido branco brilhoso, todo princesa. E então foi a vez do componente mais que tradicional, mítico: o véu.

– Curtinho, né? – ia sentenciando a vendedora, já sabendo que se destinava a uma espécie de fantasia infantil.

Reagi, contrariada:

– Não, moça.

Eu queria que arrastasse no chão. Nunca esqueci que amava brincar disso quando era criança. E já que me satisfazer tal desejo não foi uma possibilidade que minha mãe aventou – obrigando-me, assim, a sempre arrancar a colcha da sua cama, decidi que a minha afilhada não iria passar vontade.

– Três metros! – respondi. E que delícia ver aqueles olhos da mulher arregalados de espanto.

Depois, com a costureira, foi mais fácil: dona Maria era uma senhorinha muito querida, minha amiga. Expliquei-lhe o “projeto”. No começo estranhou, mas logo captou o espírito da brincadeira e passou a minha cúmplice. Ria, inventava, sugeria.

Um dia, durante os detalhes finais da tarefa, chegou uma cliente. Olhou e perguntou o que era aquela vestimenta toda, pendurada no cabide.

– Artes de madrinha! – respondeu dona Maria com um sorrisinho.

Tivemos, ainda, o cuidado de confeccioná-la um ou dois números acima, para que sobrevivesse muitas temporadas. Quando ficou pronta, parecíamos duas menininhas, encantadas com o resultado da nossa travessura.

Quis fazer a entrega na noite de Natal, mas a pequena caiu no sono cedo. Na manhã seguinte, portadora de tão particular oferenda, com que satisfação fui à sua casa, carregando a linda caixa em tons pastel, arrematada com  farto laço de cetim. Ao abrir seu presente, Maria Júlia pulava de alegria.

Depois eu soube que enfim desistiu do pai. Mas, a bordo de seu glorioso vestido, minha Majuca Canjica se casou muitas e muitas vezes, com diversos noivos.

Maria Júlia

Maria Júlia aos cinco anos (Foto: Onides Queiroz)

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5 Comentários so far
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Que lindo!! Tão bom ser criança 🙂

Comentário por Zena Ribeiro

Essa madrinha é massa mesmo!!!

Comentário por Eronildes Castelo

Valeu, meninas! 😉

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz

Delícia de texto! Magia do começo ao fim, com uma criança inspiradora e uma madrinha que lhe dá a mão para completar a fantasia atemporal. Minha nota é 10!

Comentário por Elson Martins

Ô, mestre, assim você me emociona… Muito grata. Beijos.

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz




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