Verbo de ligação


exercício de voo
21/07/2015, 21:21
Filed under: Fotografia, Prosa | Tags: , ,

A altura me fascina, desde a infância. Significa ver o mundo de uma perspectiva invulgar. Pode ser uma sacada no primeiro andar ou o topo de um arranha-céu, torre ou montanha, galho de árvore ou veículo aéreo: tudo o que valha um ponto de vista privilegiado.

Pernas de pau me pareciam um brinquedo mágico – que não tive, mas tratei de oferecer ao meu rebento. E confesso: até hoje não resisto a escorregador, balanço, tobogã, pula-pula e similares.

Na meia-idade, pergunto-me se não terá ficado adormecido nos tenros anos o desejo de pular de paraquedas ou de me lançar de asa-delta. Seria eu capaz de resgatá-lo? E que tal um passeio de balão? Convidativo, encantador!

Vasculhando essas memórias, acabo de recordar que acariciava projetos de me entregar a profissões como trapezista, alpinista, saltadora ornamental ou em altura ou, ainda, obviamente, aeromoça.  Embebida de paixão, minha alma exigia elevação, espaço e liberdade.

Agora, descendo. Pezinhos no chão: estar nas alturas é estar suspenso, e estar suspenso é condição para se cair.

Penso nesse risco quando viajo de avião. Sem pânico ou morbidez. Com reverência, convido-me a percorrer o caminho de me reconciliar com a condição de efemeridade que calça esta vida. Parece-me natural e saudável lembrar-me de levar em conta tal possibilidade: a de ter de partir agora.

A bordo do meu exercício, antes penso em meu filho e o abençoo. Trago no coração a confiança de que ele tem tudo o que precisa para se sair bem.

Alegra-me poder ter nutrido, ao longo da caminhada, tantos afetos, entre familiares, parceiros sentimentais, grandes amigos e artistas cuja obra me tocou. Eles me ajudaram a viver. Amor para todos.

Aliás, pergunto-me, terei amado tanto quanto podia? Terei oferecido e pedido os perdões necessários? Terei causado boas influências neste mundo tão maltratado? Terei aproveitado as oportunidades que me foram dadas?

Avalio, ainda, as questões prosaicas – embora não menos profundas, pois remetem a algo que é uma chave-mestra da vida e também um alicerce da leveza: responsabilidade. Minhas contas estão em dia? As questões burocráticas que me dizem respeito se encontram bem encaminhadas? Deixo problemas para os outros resolverem?

Esse balanço, de natureza tão imaginária quanto real, me dá as dicas de que preciso para tornar minha vida melhor. Que a perspectiva da morte próxima é excelente conselheira.

Mas, honestamente, suponho que na hora “H” tudo seja bem mais difícil. O que apenas ratifica a pertinência desse treino eventual, como amparo para um futuro certo.

Por isso, assim que embarco no pássaro metálico, refaço os cálculos, de modo a me preparar para dizer, cada vez com mais serenidade: estou pronta.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Vista aérea do Acre (Foto: Sérgio Vale)

Vista aérea do Acre (Foto: Sérgio Vale)

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2 Comentários so far
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Ô!!!!cara…tu né mole não…tu me fez lembrar um provérbio chinês que diz :”É muito mais tarde do que a gente pensa”.
Por isso não se deve perder esse precioso e curtíssimo tempo de passagem neste plano com bobagens,rancores,mágoas,ressentimentos,coisas que não têm a mínima importância diante do propósito essencial da vida que é amar.”A Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”,né?
Porque a vida passa rápido,o que demora mesmo é fila de banco.
Não tenho mais dúvida amiga,que vc já está preparada para atingir os mais altos cumes que um ser humano pode chegar.
Sucesso!!!!!!!!!!!

Comentário por Gilson Brandao

“… A vida passa rápido, o que demora mesmo é fila de banco.” Rsrs, boa, Gilson!

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz




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