Verbo de ligação


luxo, um lixo moral

Tem coisas que a gente vê e, se parar pra pensar, custa a acreditar que é verdade. Quando, vez ou outra, leio matérias sobre economia e negócios, deparo-me com tantos fatos absurdos tratados com naturalidade que frequentemente me certifico: este mundo está enlouquecido.

Outro dia a pauta era o mercado de luxo no Brasil. Empresários avaliavam o potencial do segmento, o faturamento e o perfil dos consumidores.

A lógica desse, sob diversos aspectos, estreito universo é, basicamente, oferecer produtos “diferenciados” ou “exclusivos” a preços exorbitantes, que atribuam a quem compra a imagem de – adivinhe? Pessoa rica. Interação em que o indivíduo consente em ser seduzido pela vaidade, em ser persuadido de que ele, graças ao seu alto poder aquisitivo e – evidentemente – bom gosto em adquirir determinado bem de consumo, supérfluo, está num patamar acima dos demais cidadãos. Pronto. Acabou o conceito.

Prática normal, como sugere o tom desse tipo de reportagem? Uma ova. Essa dinâmica é de uma inescrupulosidade medonha. Um elogio à desigualdade. Uma afronta aos que sofrem de pobreza. Pois, quando escolhe alimentar esse circuito, o sujeito voluntariamente dá de ombros para as necessidades reais e urgentes do resto dos seus semelhantes.

Mas, que importa que pelo menos 840 milhões de pessoas passem fome no mundo? E que pelo menos 750 milhões não tenham acesso a água potável? E que outras centenas de milhões não tenham moradia? E que o número de refugiados do globo no ano passado, 60 milhões, já configure o maior da história?

Para esse seleto público que acha razoável, entre outras frivolidades indecorosas, tomar sorvete com pó de ouro, nada. O importante é que seu umbigo esteja cravejado de brilhantes.

Basta refletir um pouco para constatar que a extravagância não tem uma conotação ética muito distanciada de, por exemplo, participar de esquema de corrupção. Pois, se essa manobra, ilegal, impede que recursos cheguem ao seu devido destino e beneficiem os que dele necessitam, o desperdício em futilidades, imoral, inviabiliza que a riqueza realize sua legítima função, que é circular e gerar bem-estar a todos os seres humanos. Logo, o ato de esbanjar também aponta para uma degeneração de princípios.

E se, porventura, seus adeptos se derem ao trabalho de perguntar “o que eu posso fazer se o mundo é assim?”, a resposta é fácil: pode buscar a humanidade que perdeu pelo caminho. Pode fazer um esforço de imaginação e se colocar no lugar de quem padece por falta do que é básico. Pode supor seus próprios filhos no lugar dos filhos do um quinto da população mundial que vive abaixo da linha da pobreza e observar a aflição que permanecer nesse lugar provoca. E se tal exercício for feito com um mínimo de honestidade, haverá de fazer surgir algo de solidariedade pelos seus semelhantes.

Agora, separando o joio do trigo… Elegância é um valor. Que pode ser aplicado não somente no vestir, como referência de harmonia, beleza, identidade e originalidade. Mas sobretudo na forma de conduta, que de muito ajudará se for cordial e atenta. Porque isso nos torna melhores.

Sofisticação é um valor: a ser aplicado na esfera dos pensamentos, dos sentimentos, nas relações humanas e na arte. Pois isso dá refinamento ao espírito e, assim, nos torna melhores.

Investir em qualidade de produtos e serviços é um valor. Pois esse cuidado é sinal de respeito com o usuário, gratificando-o na medida exata da dignidade humana. E isso nos torna melhores.

Já o apreço ao luxo é doença. Reflete vazio existencial, pobreza de espírito; é pendor típico de quem busca fora o que não foi capaz de encontrar dentro. É também vício. A compulsão daquele que, quanto mais tem, mais quer, mais se escraviza e menos se sacia. Que a fome é outra.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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4 Comentários so far
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Te admiro prima… Pela sua grandeza interior e pela magestosidade na arte de escrever. Parabéns!!!!
Bjs

Comentário por Vincenza

Grata, prima. Beijos.

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz

Magnífico!!!!….de uma lucidez imprecionante!!!! Quem é essa criatura que brilha como um sol???Quanto Amor,quanta Sabedoria,quanto Poder !!!!
Seu nome bem que podia ser Solânia.

Comentário por Gilson Brandao

Grata, amigo! Abraço.

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz




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