Verbo de ligação


a gênese da vítima

O caso teve repercussão nacional. Dada a celebridade do criminoso, o número de vítimas e a audácia das ofensivas.

A imprensa divulgou o relato de muitas das mulheres atacadas. Uma delas narrou, com grande revolta, os episódios em que sofreu assédio sexual por parte do médico, durante tratamento para fertilidade. E expressou, assim como as outras, seu ressentimento e os prejuízos psíquicos que a ação, ocorrida anos antes, ainda lhe causava.

Com franqueza, contou sua história desde o princípio do casamento, quando ela e o marido desejavam um filho e a gravidez não acontecia. Então receberam a indicação do gabaritado profissional e partiram para a primeira visita, em que tudo transcorreu normalmente.

A partir da segunda, passou a frequentar o consultório sozinha, e o perverso doutor deu início às investidas, com tentativa de beijo na boca e outras afrontas. Ela, assustada, relatou ao marido, clamando por ajuda. E o que ele fez? Disse: “Olha, essa gestação é o nosso sonho. Você vai ter que aguentar”.

Tamanho abuso moral, por parte do “parceiro”, depôs seus princípios, tão predatórios quanto aqueles demonstrados pelo médico, com um agravante: no cônjuge ela deveria poder encontrar apoio, lealdade, amizade e proteção numa situação extrema. Entretanto, também ele a ultrajou, com insensibilidade estarrecedora. Em sua reduzida perspectiva, pareceu-lhe tolerável a agressão à sua mulher e possível futura mãe de seu filho.

Também é fato digno de nota, neste ponto, que ela, pertencente à classe média alta e com instrução superior, não tenha se escandalizado com a resposta. Uma atitude desse teor moral dirigida a uma mulher com o amor-próprio fortalecido seria motivo suficiente para abalar o relacionamento, senão rompê-lo. Mas isso não aconteceu, porque a baixa autoestima e consequente passividade da vítima, em qualquer estrato social, faz parte do jogo da agressão.

É que o ar do desrespeito se aprende a respirar muito cedo. Em casa, com os pais e parentes. Na escola, na sociedade. Desde as situações mais brandas até as mais destrutivas, logo pequenas as meninas começam a receber o treinamento de submissão à depreciação, não apenas no que experimentam diretamente, mas também no testemunho do tratamento dispensado a outras mulheres. Assim se forja uma cidadã de segunda classe. Conteúdo internalizado, o resto é apenas consequência, repetição. E infelicidade, para homens e mulheres, pois nessa dinâmica não há vencedores.

O antídoto? Simples e laborioso. Tarefa para décadas, eras. Na educação, nas políticas públicas, na mídia e na família, é preciso se investir no estabelecimento de uma consciência tal da dignidade humana que, ao primeiro sinal de ameaça, ainda que sutil, seja disparado o alarme da soberania pessoal.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: Sérgio Vale)

Menina do Acre (Foto: Sérgio Vale)

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