Verbo de ligação


Brevíssimo manual de resiliência
05/06/2015, 15:33
Filed under: Prosa | Tags: ,

“Mar calmo nunca fez bom marinheiro.”

(sabedoria popular)

Às vezes, a vida toma rumos inesperados. Indesejados. E a gente se vê sem saída, encerrado numa cela existencial.

O motivo pode ser o surgimento de uma doença, um rompimento afetivo, um problema familiar, a morte de alguém muito amado, uma crise financeira, uma decepção ou situação vexatória, enfim, cenários que envolvam perda ou a suspensão de uma – suposta – estabilidade.

Assim acuado, o que normalmente a gente faz? Tenta escapar. De todas as formas. Com todas as forças.

Em vão. Se respondemos à adversidade com atitude negligente, seja ela de revolta ou negação, tornamos ainda mais rígidas e ásperas as paredes do cativeiro onde nos encontramos. Entretanto, enfrentar significa entrar em contato com aquilo que nos atemoriza: sentir.

Sentir dor, sentir tristeza, sentir medo – e até pavor, sentir-se derrotado, sentir vergonha, sentir raiva, sentir aflição. Nosso grande fantasma é a emoção. Que parece querer nos levar para um mar aberto e ameaçador.

Então que momento revolucionário e paradoxal quando, mesmo diante da tribulação, encontramos dentro de nós lucidez e coragem para compreender que tudo o que temos a fazer é exatamente consentir o mal-estar. Humildemente, admitir o mau bocado.

Dói? Dói. Pois deixemos doer. E que essa dor cale na profundidade do nosso ser. Choremos todas as lágrimas que quisermos, durante o tempo que for necessário, tornando-nos conscientes da frustração que abrigamos. Pois a negatividade precisa ir embora – pela porta da honestidade.

Essa depuração, enquanto oferece conforto, prepara o terreno para a legítima reação, quando, com mais serenidade, será possível levantar-se e retomar a caminhada.

Tais circunstâncias têm fantástico potencial transformador e podem se tornar divisoras de águas em nossa história. A tarefa é recriar a situação presente, produzindo formas mais gratificantes de enxergá-la e vivenciá-la. Hora muito propícia, por exemplo, para adquirir hábitos saudáveis.

Poder contar com amigos leais e afetuosos trará grande alento. Buscar psicoterapia poderá ajudar bastante a recuperar o equilíbrio, ou melhor, a conquistar um novo. Realizar trabalhos manuais gera harmonia interior, e praticar exercícios físicos oxigena a existência.

Boa música é alimento para a alma, e o silêncio põe tudo em seu lugar. Cultivar a fé é um respaldo e tanto. E bom humor, tanto quanto possível, que não se levar tão a sério assim é sinal de alguma sabedoria.

O caminho é, então, familiarizar-se com instrumentos que auxiliem na conexão consigo próprio para sustentar-se. É preciso suportar porque apenas resistindo, firme no lugar, consegue-se percorrer o túnel do sofrimento, até renascer, do outro lado.

Revitalizado. Com orgulho de si, porque teve competência para passar. Sabendo-se mais forte e confiante agora, apropriado de talentos e potencialidades antes ocultas. E, uma vez que conheceu os reveses, muito mais habilitado para desfrutar a alegria e o prazer.

É a isso que se chama de resiliência. Uma resignação inteligente. Uma capacidade de lidar com os fatos difíceis da vida de um modo atento e responsável, criativo e proveitoso.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Imagem: internet)

Ilustração: Tomasz Alen Kopera, artista plástico polonês

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2 Comentários so far
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Lindo, como sempre. E chegou em boa hora! obrigada querida, que venham mais 6 anos, e outros 6. Beijo e todo o meu carinho,Lize

Comentário por Lize Gevaerd

Amém! Beijo, querida. Até breve.

Comentário por onidesqueiroz




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