Verbo de ligação


dom

“Eu não pego um caderno e vou pensar no que fazer.

Pego o caderno e espero chegar.”

(Hermeto Pascoal, sobre seu processo de criação musical)

É bonito de se ver: a criança se aproxima do violão. Pega, apalpa, brinca, dedilha. Mostra empatia pelo objeto, gosta de explorá-lo. Logo está tocando música. Ao que a gente diz: tem o dom!

Quanto mais lapidado pela dedicação, mais resplandecente, o dom não tem limite para encantar. E não é surpreendente com que naturalidade certas pessoas apresentam sua gema ao mundo? Ali o ser se expressa com tanta intimidade e fluência, que até dá a impressão de que é fácil executar aquela capacidade.

Mas o dom tem seus preceitos. Seu detentor precisa estar disposto a se responsabilizar por ele e também correr o risco de se expor. O que alcança sensível compensação, pois, além do prazer que o exercício da habilidade traz, viver o dom com plenitude significa apaixonar-se por si, num processo que oferece a oportunidade ímpar de enxergar a beleza do próprio ser. Assim, confere ao sujeito a noção de autovalor, pertencimento, segurança e identidade, atribuindo singular sentido à sua vida.

Ainda, a consciência do dom traz em si um divisor de águas. É a possibilidade emancipadora de que desviemos o foco da nossa atenção da ação das outras pessoas ou da opinião pública para o nosso coração. O eixo existencial então reside dentro, concedendo ao dotado contentamento e liberdade.

Mas o dom não se presta apenas à perspectiva do espetáculo. As virtudes se manifestam, antes de tudo, na singeleza do cotidiano: na mãe acolhedora, no operário caprichoso, no educador criativo, no sacerdote compassivo ou no profissional de saúde criterioso, entre as infinitas possibilidades das vocações.

E é da natureza do dom que quanto mais seja compartilhado, mais gratifique o doador, mais se potencialize e de mais cativantes cores se vista. Em suas florescências, não raro, surpreende até mesmo seu portador. Assim ditoso, o atributo pessoal regenera e perfuma a vida.

Deixar de vivê-lo ou de partilhá-lo é não ousar mover-se para além do minúsculo ambiente conhecido. E, de mãos e coração fechados, não se dá nada – nem se recebe. Pior: quem despreza suas qualidades corre o risco de ser alienado delas. Pois tudo o que não é utilizado, é esquecido.

Essa mesma negligência gera outro problema, a inveja. Pois aquele que não reconhece os seus predicados se sente humilhado diante dos dotes do outro. Daí a importância de que todos cultivem o autoconhecimento e se certifiquem de que cada um tem particular valor.

Mas, se por um lado o dom exige audácia, por outro recomenda humildade. Afinal, neste mundo, ninguém tem tudo. Cada qual com suas preciosidades, nenhum ser humano é superior a outro e mesmo um mestre não pode esquecer que nunca deixa de ser aprendiz, porque sempre há algo novo para se conhecer.

Reunidos e disponíveis, os talentos podem se tornar uma celebração dos indivíduos e da coletividade, uma exuberante ciranda em que a cooperação provê tudo o que é necessário ao episódio humano.

É que o dom pertence a um jogo maior, chamado amor. E por isso é todo dádiva.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: Val Fernandes)

(Foto: Val Fernandes)

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2 Comentários so far
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Novamente maravilhoso. Como é bom receber seus textos, alegra meu coração.

Comentário por Eduardo

Sempre bem-vindo, Eduardo!

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz




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