Verbo de ligação


Antonio de Paula: um pioneiro na causa ambiental
"A floresta é cheia de mistério, e a água também", diz Antonio (Foto: Diego Gurgel)

“A floresta é cheia de mistério, e a água também”, diz Antonio (Foto: Diego Gurgel)

“A vida na floresta é um sem fim de coisas e a gente nunca sabe tudo”, ensina Antonio Francisco de Paula, um dos ativistas pioneiros da causa ambientalista no Acre. Chegou ao estado há 65 anos para explorar seringa, após deixar o Ceará com parentes e amigos: “Nordestino é aventureiro. Gosta de tentar o difícil”.

Bote dificuldade nisso. De saída já pegou malária. E, além de alguns encontros casuais com onças felizmente não esfomeadas, contabiliza duas picadas de jararaca e duas ferradas de arraia. “Para viver na mata, precisei nascer de novo. Tive que aprender a remar, caçar e pescar”, relembra.

Tarefas cujo domínio seu Antonio alcançou não sem um olhar poético: “Lá a gente precisa dos saberes tradicionais, precisa dos cinco sentidos e de mais um sexto sentido”. E não sem experimentar a sua beleza: “Era uma vida dura, mas uma vida boa”, avalia.

Mais do que respeito, ele dedica reverência à floresta. Sobretudo pela sabedoria que, constatou, rege o seu funcionamento. “Existe um sistema de comunicação interna entre os seres que vivem ali. Por exemplo, tem um tipo de lesma que, pela altura em que ela bota os ovos nos troncos das árvores durante o verão, dá pra gente saber o nível que o rio vai atingir com as chuvas do inverno, pois esses ovos precisam de água para abrir”, conta.

E mais, ultrainteressante: “Quando o rio enche, os peixes vão para as represas e igarapés atrás de comida ou para passear. Quando inicia a vazante, o sapo percebe e coaxa avisando, então os peixes têm tempo de voltar para o rio antes que as águas baixem e eles fiquem isolados ou morram”.

Também os povos da floresta desenvolveram meios de se comunicar, superando a distância e o isolamento. Se a visita chega à morada e não há ninguém, bate com um porrete na sapopema e o som da madeira repercute mata adentro, até chegar aos ouvidos do dono da casa – é o interfone possível. Já para anunciar, nas redondezas, que o bebê nasceu, “o pai dá três tiros de espingarda se for varão e dois se for moça”, reporta. Sem novidade, na ideologia seringueira o menino vale mais pólvora.

Para além disso, o fato é que informação e entendimento seu Antonio tem de sobra, embora as circunstâncias de sua vida tenham-no levado a deixar o ensino formal aos 14 anos. O que, diante de sua personalidade curiosa, não constituiu obstáculo para o conhecimento.

Com sua mente dinâmica e lúcida, discorre horas sobre assuntos variados, de forma gentil e envolvente. Não por acaso, sua experiência e capacidade de se expressar lhe rendem convites para palestras em escolas e faculdades. Entre ribeirinhos, cidadãos comuns e autoridades, tem seu trabalho reconhecido e também já recebeu prêmios e condecorações relacionadas à questão ambiental. Até já deu entrevista a Jô Soares, em 2001.

Dono de uma biografia rica, Antonio foi seringueiro, guarda-livros do barracão – “eu sabia juntar um com dois”, gerente de seringal e agente de saúde pública. No sindicalismo iniciou-se quando o patrão cismou de querer que os seringueiros guardassem a borracha em seu terreiro. Antonio resistiu: “Eu queria garantir a nossa produção e liberdade”.

Atuou durante anos em movimentos sociais relacionados ao trabalho, saúde e meio ambiente. Foi membro do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) desde 1992 até três anos atrás. Aos poucos, a batalha para manter a floresta para a subsistência dos seus habitantes foi se transformando num ideal ainda maior, visando à preservação do ecossistema.

Assim, atuou na consolidação da Reserva Extrativista do Alto Juruá, a primeira do Brasil, em 1990. Em 2006, foi um dos fundadores da ONG Amigos das Águas do Juruá, para preservar os igarapés e rios daquela região amazônica.

Aos 87 anos, continua um militante incansável. Para marcar o Dia Mundial da Água, 22 de março, o marido de dona Eunice há 61 anos, pai de 13, avô de muitos e bisavô de alguns militava na Praça do Cais, em Cruzeiro do Sul. De megafone na mão, o lendário Antonio de Paula pedia aos feirantes do local e à população em geral que não jogassem lixo no Rio Juruá.

De tudo, transmite bela lição: “Eu queria ficar rico. Mas com o tempo ganhei uma riqueza maior que o dinheiro, que é a amizade”. Sabe o que diz, esse que é amigo do verde, das águas, dos animais e das pessoas.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Seu Antonio de Paula conversou comigo e com a repórter Márcia Moreira (Foto: Diego Gurgel)

Seu Antonio de Paula conversou comigo e com a repórter Márcia Moreira (Foto: Diego Gurgel)

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