Verbo de ligação


sacro ofício

De tua cruz encaro apenas a sombra. É difícil olhá-la, aceitá-la. Se ergo os olhos sinto náuseas e tremores. Fico tomada de pavor. E como não adianta mentir para ti, confesso logo: não a suporto.

É que sei que a inconsciência que carrego ali estava, cumpliciada em medo com os que te odiaram, perseguiram e feriram até a morte. Estava também entre eles quando, depois, a culpa emergiu e em surdina se questionaram: o que mesmo ele fez de mau?

Com tuas precisas instruções, golpeaste a sonolência humana: esta inércia que diariamente nos impele a alimentar nossa própria degeneração. “É o inimigo”, definem alguns. Conceito que, em vez de ajudar a compreender e digerir o processo da tomada de consciência, torna-o ainda mais indecifrável, temível e distante.

Com tal recurso, imaturo, cuida-se de tentar empurrar a escuridão para fora, como se essa força tivesse existência independente, o que gera ainda mais medo. E como se não atuasse mediante o nosso consentimento, o que nos garante ganhos secundários.

Sob os nossos estimados vícios, nossa vulgaridade se contenta com gratificações mesquinhas, que também são nocivas. E seguimos, não conhecendo outra maneira de viver que não temendo e competindo, que não agredindo, sofrendo e destruindo. Mortificamo-nos, supondo-nos vivos.

Por isso desvio o olhar da cruz. Porque algo em mim deseja manter-se embrenhado nas pegajosas veredas do egoísmo. E aprofundo meu pecado, que, a propósito, do latim, significa “errar o alvo”. Erro o alvo do amor diariamente.

Mas eis que vieste em sacro ofício e te deixaste matar. Para que enxerguemos o que somos capazes de fazer com quem de fato nos tem compaixão, que a cruz é o grande espelho da humanidade adormecida. Desse modo podemos constatar que sim, damos abrigo à maldade. No entanto, ao admitirmos a nossa pobreza, temos a oportunidade de, entre convulsões, atravessar o túnel da nossa dor e enfim nascer para a vida real.

Foi essa a última caridade que nos fizeste antes de te tornar o Cristo.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Crucificação, Salvador Dali, 1954.

Crucificação, Salvador Dali, 1954

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