Verbo de ligação


meu caderno de coisas bonitas
17/12/2014, 21:37
Filed under: Foto Onides, Prosa

Aquele caminhante revolucionário, criatura singular que passou por este mundo com o nome de Henry David Thoreau, escreveu: “Vá confiante em direção aos seus sonhos. Viva a vida que você imaginou”. E essa ideia me pareceu tão sensacional e apropriada que eu nunca quis me esquecer dela. Tornei-a uma baliza do meu caminho, embora frequentemente me dê muito trabalho respeitá-la – mas nunca arrependimento.

Como essa, deparei-me com outras reflexões tocantes, que me disseram algo bem além das palavras, e senti que gostaria de periodicamente revê-las, pensar mais sobre elas ao longo da vida.

Também vi imagens marcantes, que me aqueceram ou instigaram a alma e desejei poder reencontrá-las sempre, ou, pelo menos, enquanto me causavam tal sensação.

E havia as mensagens afetuosas que mantinha guardadas, fotos, pequenos ótimos contos e curiosas notícias, poemas e até tiras de humor. Também as frases que às vezes emergem comigo ao despertar, como esta, que chegou num período em que eu me sentia um tanto deprimida: “São seus olhos que pintam as cores do mundo”.

Ah, e os bilhetes que meu filho escreveu pra mim desde que foi alfabetizado. Um dos últimos foi num fim de semana destes: “Mãe, saí pra jogar bola. Não quis te acordar. Beijo.” Ô, delícia do meu coração! Como vou me desfazer da lembrança de uma atitude delicada assim, desse menino que ainda brinca – benzadeus! –  e já tem o cuidado de me deixar descansar?

Até que, em certo momento, compreendi que cada uma dessas peças era parte de um tesouro, o meu tesouro vivencial, pois elas representavam algo que havia despertado em mim amor, encantamento, beleza, riso, inquietação e mais vida.

Então resolvi reunir todo esse acervo afetivo-existencial no mesmo lugar. E criei, há uns 20 anos, o meu singelo e lindo “Caderno de Coisas Bonitas”.

Alimento-o regularmente e há pouco descobri que falta exatamente uma página e meia para completá-lo. Planejo o segundo volume. E, trato, portanto, de permitir que as “coisas bonitas” continuem fluindo na minha vida e cuido de ter olhos para elas.

Meu caderno acaba se tornando fonte de consulta também. Às vezes necessito de uma determinada referência para escrever e lá está registrada a citação e seu autor. Às vezes me deparo com um problema e me lembro de que ali há uma boa sinalização de saída.

Outras vezes simplesmente leio o caderno como um livro e me comovo, e me divirto. Há um pequeno recorte de jornal que diz assim: “Uma siciliana de 80 anos deixou o marido de 96, alegando que a vida conjugal havia se tornado muito monótona e ela queria se divertir”. O texto relata que o ancião processou a mulher por abandono de lar. Mas o juiz, felizmente, deu ganho de causa a ela.

De modo que meu caderno me gratifica muito e dele só tenho uma queixa, que pode bem estar relacionada à minha limitação tecnológica: ainda não inventei um jeito de colar ali minhas músicas preferidas.

De qualquer forma, eu lhe tenho o maior carinho. E fico imaginando que, caso resista ao tempo, meus descendentes, se tiverem interesse em conhecê-lo, poderão dizer, a meu respeito: “Olha só do que ela gostava…” E quem sabe essas ideias em que acredito, ali ilustradas, não servirão para ajudar a montar o quebra-cabeças da trajetória deles?

Quando folheio o meu caderno, sei que há algo rico em minhas mãos e percebo que minha intuição estava certa ao supor que essa coletânea seria frutífera. É como se fosse um extrato de sabedoria, de liberdade e de beleza, chama que vale a pena manter sempre acesa.

Com o tempo, essas informações todas tão verdadeiramente tem reverberado em minha consciência que se tornaram parte de mim. Daí a imensa gratidão que tenho para com esses seres que ajudam a acender minhas luzes interiores: Gandhi, Goethe, Drummond, Adélia Prado, Rolando Toro, Lao Tsé, Jung, Jesus Cristo, Oscar Wilde, Tagore, Einstein, Dalai Lama, Rudolf Steiner, Clarice Lispector, Buda, Gibran, Mestre Raimundo Irineu Serra, Proust, Shakespeare, Guimarães Rosa, Mandela, Confúcio, Mário Quintana, Joseph Campbell, Manoel de Barros, Cora Coralina, Leminski, Teresa D’Ávila, Cecília Meireles, Paulo Freire, Helena Kolody, Thiago de Mello e muitos outros que convidei para figurarem na antologia, além de familiares e amigos.

Quando leio o relicário amado, meu espírito se alegra com tanta boniteza que os seres humanos são capazes de produzir e eu sinto uma vontade irresistível de viver.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: Onides Queiroz)

(Foto: Onides Queiroz)

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1 Comentário so far
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Uma obra de arte, com delicadeza e sensibilidade.

Comentário por Ronaldo Amaral




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