Verbo de ligação


o amargo vendedor de abacaxis doces

Bom dia, boa tarde, nem adianta saudar. Ele não responde. Está claro que considera o procedimento dispensável. Inconveniente até. Isso é para quem tem tempo a perder.

Ele trabalha, trabalha e trabalha. Não que goste. Mas a vida não é feita para agradar, é para ser suportada. É guerra sem trégua – instrução marcada a ferro quente em sua pele quando ainda delicada.

De modo que, pela manhã, lá está ele. Na lida. Debaixo da marquise da casa noturna, com sua velha picape lotada de frutas. À tarde também. E aos sábados. Aos domingos. E feriados, claro. Sempre. Afinal, o que há mais para se fazer neste mundo?

– Abacaxi? Cinco reais, dona. Leva um saco de laranja também – diz, sem qualquer inflexão de cordialidade na voz. De textura áspera e timbre rude.

Agradeço e respondo que hoje não. Fecha a cara – mais. Sim, é possível.

O olhar é rápido e duro. Obviamente, sorrir está fora de questão.

Seu couro agora espesso e rugoso como casca de árvore, lança-me para a floresta. E ali encontro o fio da meada. Nasceu no seringal acreano ou amazonense. Deu duro desde cedo. Cinco? Oito anos de idade?

Durante a infância espoliada pela pobreza, pouco lhe foi permitido do que mais seu corpo e sua alma pediam: brincar. Foi privado do prazer fundamental.

Colo de mãe? Proteção de pai? A possível misericórdia de um coração de avó? Comida que bastasse? Ao que tudo indica, não. É fácil conferir que não restou em seus olhos qualquer brilho que remonte a consideração dirigida à sua pessoa.

Mas deve ter sido alvo fácil de palavras e gestos ríspidos, seguidos episódios de abandono emocional, senão também físico, e violência. E, desde que empurrado para a cidade, fez de tudo até que tenha se tornado esse pequeno comerciante.

Não, o espinhento vendedor de abacaxis não precisa me contar a sua história, a menos que queira. Certamente é mais rica do que posso imaginar. Embora não distante, em essência.

Sigo sendo sua freguesa. Mesmo que de doçura pareça ter apenas as frutas para me oferecer. Prefiro adquiri-las dele, em sua antipatia honesta e justificada, a comprar do supermercado, com sua propaganda mentirosa, funcionários de modos adestrados e vegetais plastificados e insípidos, não raro envenenados. Que cobiça e miséria são duas faces da mesma degradação humana.

Portanto, sua rabugice não me fere. O que me dói é sua amargura. O aprisionamento de sua alegria. Discretamente, presto-lhe minha solidariedade. E lhe murmuro mensagens sem pronunciar uma palavra.

– Você já se esqueceu dela, homem. Que, de tão apavorada, se escondeu. Tão entristecida, se encolheu. Tão maltratada foi, que usa máscara de espantar. Mas de origem tão nobre que não pôde morrer. E se envolveu de grossas cascas para resistir. Você já se esqueceu da criança que foi. Mas eu continuarei olhando para ela.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: Onides Queiroz)

(Foto: Onides Queiroz)

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4 Comentários so far
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Cara Onides,
Como é fascinante ler um texto tão bem redigido e que, sobretudo, nos mostra quão limitadamente humanos somos.
Achei genial a leitura que você faz da alma desse nobre vendedor.
E já que você tem esse dom de captar a essência boa de cada indivíduo, então, quando eu for ao Acre gostaria imensamente de fazer uma breve ” análise ” contigo. Prometendo apenas um prazeroso “Bom Dia!” , um elegante sorriso e, é claro, um delicioso suco de abacaxi. Rs.
Parabéns pela rico texto.
Tenha um ótimo domingo!
Beijo no coração.

Comentário por Evandro

Será bem-vindo, Evandro. E também tem cupuaçu, graviola, cajá…

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz

Nunca podemos esquecer a criança que existe em nossa alma.

Comentário por jomabastos

Isso, isso, isso! 😉

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz




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