Verbo de ligação


uma bandeira para a pátria humana
Bandeira do Estado de Pernambuco, Brasil (Foto: internet)

Bandeira do Estado de Pernambuco, Brasil (Foto: internet)

Aquela palavra escrita em cima do livro grande de capa preta era gostosa de se pronunciar: atlas. Era o livro dos mapas, eu aprendia. Não só. Também das bandeiras. Quanto tempo da minha infância terei dedicado a analisá-las, atribuir-lhe beleza ou feiura, eleger minhas preferidas?

A do meu Paraná natal eu achava bonita sim. Leve, altiva, familiar. A de Minas Gerais é tão simples, inquietante e original quanto o psiquismo dos mineiros. Como tantas outras crianças devem ter feito, lia do meu jeito a frase em latim grafada em torno do triângulo encarnado: “Liberta que serás também”. Não é bem essa a tradução, mas não deixa de ser verdadeira.

A do Brasil me emociona até hoje. Sim, somos ainda um país imaturo e atrapalhado, mas riquíssimo de gente, cultura, espiritualidade e natureza. Amo incondicionalmente o chão onde nasci.

Com aquela cruz azul deitada sobre o branco solene, a bandeira da Finlândia é, para mim, o cúmulo da elegância. Já na do Uruguai há o sol que esboça um sorriso… É alto-astral como os uruguaios que conheço: simpáticos e acolhedores. E a visão da bandeira da Itália me dobra pelo afeto, com ela tenho uma ligação “troppo sentimentale”, porque é do país da minha mãe.

Deferência toda especial reservo para a Índia, pela preciosa história que conta. Um testemunho de libertação. A atual versão foi adotada em 1947, depois que Gandhi, liderando seu povo em ações de resistência pacífica, obrigou os ingleses a se retirarem do país, após quase 90 anos de dominação. Como não reverenciar tão elevada conquista?

Mas, acima de todas, há uma flâmula que me encanta. Que me enche os olhos. Que faz minha alma vibrar. Bela, pulsante, lúdica, forte, cheia de positividade. É a do Estado de Pernambuco. Ô, lindeza!

Enquanto em tantas bandeiras figuram como heroicos fatos belicosos e sangrentos, dos quais seus narradores deveriam mesmo é se envergonhar, no estandarte pernambucano ocorre algo inusitado: uma proposta de vida feliz para todos.

Assim leio o convite: na porção inferior, uma faixa branca. E, em seu centro, uma cruz de cor vermelha. Poderia ser outro símbolo de significado semelhante, inclusive um coração. Esse conjunto simboliza o espírito e estabelece a paz e amor como bases da existência.

Na área superior está representada a vida na terra, a matéria. Nessa esfera o azul profundo tudo permeia. Então há um arco-íris, fenômeno que é todo mistério e beleza, etérea ponte entre a terra e o céu. E, em se tratando de Pernambuco, não é difícil imaginar seu colorido remetendo às bandeirinhas das festas juninas.

Para a magia dessas celebrações, nada pode melhor nos transportar do que a música envolvente de Luiz Gonzaga, contando das antigas e inocentes noites de festa, de encontro de amigos, da libido tão vital em olhares e namoros, da brincadeira de crianças e adultos, da dança e da alegria. Sobretudo da tradição cultural: trata-se de um nosso modo de ser feliz.

Mais contemporaneamente, o arco-íris, já que feito de diferentes cores justapostas e harmonizadas, ali bem representa o legítimo anseio de cada vivente: ser incluído. Ser parte. Ser respeitado e amado. “É para repartir com todos”, lembra-nos, a partir da floresta, a voz do amazonense Thiago de Mello.

É dia: no centro do lábaro, o sol. Luz, calor e consciência, indispensáveis para a manutenção da vida. E também é noite: mesmo na escuridão a estrela soberana paira sobre tudo.

Bandeira é ideal. E, embora aprender a viver neste mundo não seja tarefa das mais fáceis, o sonho ainda é o propulsor-mor das necessárias transformações. Oxalá um dia a bandeira de Pernambuco seja a bandeira da pátria humana!

Onides Bonaccorsi Queiroz

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1 Comentário so far
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Quanta sensibilidade, é lindo!

Comentário por ronaldo amaral




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