Verbo de ligação


mulher refletindo madrugada adentro
06/05/2014, 18:43
Filed under: Prosa | Tags: ,

Noite alta, acabara de deixar o amigo no aeroporto. Não qualquer amigo. Se era o nome daquele homem que estava gravado na aliança que ela usara mais de uma década. O pai de seu filho.

Supusera, durante anos, que envelheceria ao lado dele. Mas o enredo os surpreendeu e gradativamente tudo se transformou, tudo passou a ser outro. Dentro e fora.

Culpa de quem? De ninguém. A vida não pede licença para mudar. Simplesmente sopra ventos, ilumina espaços, evidencia escuridões, questiona, reforma sonhos, enfim, movimenta peças. Não raro e não por acaso, produz sofrimento, dado o apego, a ignorância, o medo. E segue seu curso.

Mas agora, incrível, o que já fora um mar de aflição e perda não lhe oferecia sequer uma gota de dor, era apenas um capítulo da sua história. E felizmente e porque assim decidiram, restara entre eles o respeito, o querer bem e a gratidão.

Ao volante, pensava com satisfação nessa conquista tão simples e incomum, enquanto sentia o confortante frescor da noite. Movimento pouco na estrada, a volta para casa era embalada por música suave. E no mais tudo era silêncio e calma.

Foi assim serena e inesperadamente que constatou a natureza dos encontros: a efemeridade. Perdurem duas horas, vinte anos ou setenta, todos os relacionamentos são temporários. O que muda, além da duração, é a profundidade da troca. De modo que compartilhar alguns momentos com alguém pode ser mais significativo do que completar bodas de ouro.

Mesmo porque, com frequência o hábito estrangula a espontaneidade, o afeto e a vitalidade de um vínculo. E, encolhida, seja pelo receio do conflito ou pelo medo do novo, muita gente atravessa eras arrastando os cadáveres de contratos vencidos.

Ao compreender que a única presença imprescindível para sua felicidade era ela mesma, essa mulher se recusou a perder a vida assim. E, agora que já tinha pago o preço de viver um anseio legítimo, era muito mais fácil aceitar as partidas. Com alívio, via afrouxar em si a necessidade de prender alguém. As pessoas vêm e vão, e está tudo bem.

Importa é manter o coração aberto. Importa se reconciliar com a solitude original humana: nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Importa se amar. Importa desenvolver a capacidade de estabelecer relações cada vez mais ricas, equilibradas de entregas e recebimentos. E saber festejar e reverenciar a eventual companhia do outro, o que é natural quando se sabe que não é definitiva.

Naquela madrugada, a ilusão se desvaneceu. E ela compreendeu que o amor entre duas pessoas só pode ser feito de liberdade. Sentiu-se feliz, muito mais leve. E tinha o coração pacífico como sono da criança que dormia bem ali, no banco de trás.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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5 Comentários so far
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Lindo, querida!!! É isso mesmo, sigamos em frente como coração aberto e tranquilo…Muitas saudades suas!

Comentário por Camila Simon

Saudades também, Camila. Beijos, bela!

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz

Envelheceremos sim, um ao lado do outro, como bons amigos que se querem bem e que torcem mutuamente pela felicidade do outro. Lindo texto! Preciosa elaboração! Parabéns!

Comentário por Marco

… (lágrimas)

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz

Há si ainda tive aliberade de ficarmos sozinhos (as) durante a noite fora de casa e adimirarmos a beleza da natureza , as estrelas a lua e tudo mais a violência nos tira a esta liberdade , e hoje isso é um sonho…

Comentário por maria das Graças Pereira Silvestre




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