Verbo de ligação


o que meu carro velho me ensinou
18/02/2014, 18:37
Filed under: Prosa

Meu carro velho está de partida. Adequadamente substituído, deixa-me lições que não pretendo esquecer.

Ao longo de anos, acompanhou momentos importantes da minha vida, mudanças de espírito e de endereço. Guardo gratidão por esse pedaço de matéria que me levou para todo canto, de dia e de noite, que acomodou meu filhote no banco de trás ao longo de sua infância, que me protegeu da chuva e do sol e facilitou enormemente meu cotidiano.

A quantas amigas, inclusive mães de família, tenho assistido se desdobrarem pra lá e pra cá, com suas crias, dependentes do precário transporte público? Velhinho mesmo, meu automóvel foi companheiro, bravo, econômico e ágil.

Mas eis que o tempo foi passando, as fábricas continuaram montando, o governo facilitando e o povo comprando seus carros novos, coruscantes. Quando me dei conta, meu carrinho passou a ser o mais antigo de cada parada no sinaleiro, cada estacionamento, de todo lugar a que eu ia. Me descobri na contramão do mundo, ou, pelo menos, do Brasil emergente. E comecei a me perguntar se não deveria adquirir um modelo mais novo.

Na ponta do lápis: faltava acabar de pagar a casa, providenciar melhorias. Tinha sentido adquirir um bem dispendioso naquele momento? Não. A prioridade era claramente outra.

Muito bem, a parte objetiva estava resolvida. Só um probleminha: o que eu fazia com o meu… constrangimento social? Ô, sentimento desconfortável! De perceber, de aceitar, de refletir e sobretudo de mencionar esse tão delicado assunto: a vergonha de não ser rico o suficiente, o medo de se sentir excluído moralmente pelos pares e – é sem reserva de hipocrisia que admito – o receio de não estar à altura da opinião pública.

Felizmente identifiquei a grande oportunidade que o acanhamento me punha nas mãos: a de me libertar, ao menos em parte, do jugo do consumo. Uma coisa eu sabia: não queria comprar um bem com o objetivo primeiro de ostentá-lo e nem queria me endividar até a raiz dos cabelos para tão somente ter.

Foi quando tomei a decisão, da qual não me arrependo: “é com este que eu vou”. E fiquei com o meu “poisé”.  Essa alternativa me propiciou uma experiência singular, uma reflexão longa e trabalhosa, que me levou a questionamentos, mais que pertinentes, indispensáveis: quem sou eu ? Em que reside o meu valor?

Olhei para minhas qualidades e meus sonhos. Para minhas dificuldades e desafios. Revi a minha história e sei que ela é bela. Na autodescoberta, tenho me encontrado com uma pessoa de quem gosto muito, que tem sido cada vez mais minha amiga.

Assim, que importa o carro onde ando? Importa o afeto que sou capaz de dar. Que importa se os bancos do meu veículo são de couro? Importa que eu olhe para a necessidade real daquele que está bem próximo e lhe ofereça algum conforto. Que importa os lugares que frequento? Importa a dignidade que carrego em minha consciência. Ora, importa o que sou, não o que pareço, porque é isso que conta na hora da verdade. Na hora da necessidade.

Em justa contrapartida, entendi que não estou interessada no fragmento de amizade de alguém que, porventura, me julgue pela aparência. Escolho quem me acolhe.

E tive compreensões que me lançaram a outro patamar de existência. Se em algum momento as pessoas me impressionaram pelas suas posses, hoje eu não levo mais esse fator tão a sério. Claro que a riqueza é bonita, que o conforto é agradável. Mas isso não é o mais importante. Porque todo recurso se torna perverso quando não é compartilhado.

Observei também que existe gente rica que é finíssima. E há gente rica que tem comportamento deplorável. Conheço gente pobre que esbanja alegria e conheço pobre que chafurda. Acima de tudo, na relação com a riqueza, é preciso manter algo claro em mente: pessoa é pessoa, e coisa é coisa.

Ao fim da travessia, declaro que me angustiei sim nesse conflito de autoestima, que suei muito nesta cidade quente sem ar condicionado a bordo, mas tirei precioso proveito da experiência. E cheguei ao outro lado.

Daqui olho as pessoas, eu inclusa, mais de perto.

Onides Bonaccorsi Queiroz

Anúncios

3 Comentários so far
Deixe um comentário

Bjos Onides.
Aí no Acre carro com ar é necessidade!

Comentário por terezina

Texto muito bacana. Amei sobre tudo, mas o parágrafo que mais me chamou a atenção foi “Olhei para minhas qualidades e meus sonhos. Para minhas dificuldades e desafios. Revi a minha história e sei que ela é bela. Na autodescoberta, tenho me encontrado com uma pessoa de quem gosto muito, que tem sido cada vez mais minha amiga”. =)

PS: Agora tens que fazer um sobre o antigo celular, Onides! rs.

Xeirinhus :*

Comentário por Ísis Veras

Muito especial. Lindíssimo, querida!!!

Comentário por adrianaqueirozAdriana




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: