Verbo de ligação


o que os cotovelos falam
22/11/2013, 18:28
Filed under: Prosa

– Uma mulher se conhece pelos cotovelos – ele me disse. E eu fiquei desconcertada.

É que naquela época eu só sabia aparentar, eu não sabia ser. E como não tinha entendido o que ele havia falado e achava que devia parecer inteligente, ainda mais diante de um homem tão culto, medrosamente, fingi que entendi.

Logo que me vi diante do espelho fui conferi-los. Tomei um susto: eram medonhos os meus cotovelos! Passei as mãos sobre eles e me horrorizei ainda mais, tão ásperos, secos e calosos.

E o homem viu – vexame total! Agora ele sabia muito bem que tipo de mulher eu era!

Só um problema: eu não sabia. Afinal, quem era eu mesmo?

Essa pergunta tão breve desencadeou em mim a necessidade de obter uma resposta, que veio em longo prazo. E, como primeira providência para sair do constrangimento, passei a cuidar melhor do meu par. Adotei a bucha vegetal e, a todo banho, esfregava-os com gosto. Passava um bom creme todos os dias, pois ora, ora, eu era sim uma mulher digna, o que é que você está pensando, moço? Mas eles deviam mesmo se encontrar em mau estado, porque foram necessários meses para domesticá-los.

O tempo se passou, eu esqueci o comentário do homem mas mantive o hábito do cuidado. Outro dia me lembrei desse acontecido. Pensei um pouquinho e comecei a rir. Acho que enfim entendi.

O que são os cotovelos? São essa parte do nosso corpo que é visível, mas não chama a atenção. Não são como o rosto, área nobre da fachada humana, que atrai tantos olhares, nem são o colo, que das mulheres recebe decotes e ornamentos, ou as mãos, que gesticulam e estão em evidência.

Os cotovelos estão anônimos. Não são muito notados, tornando-se, assim, dignos de pouco pouco zelo por parte do seu portador. E por isso podem dizer muito da personalidade de alguém. O estado deles pode revelar em que emprego minha vitalidade: em criar um personagem para me sentir aceita ou em gratificar meus anseios mais íntimos e verdadeiros?

Eu, por exemplo, vivia, sem perceber, o drama de não saber o que sentia, apenas procedendo socialmente como uma pessoa “respeitável”. Como poderia, então, sem essa conexão, ser autêntica? Como poderia ser eu mesma? Por isso os cotovelos estavam grossos. Era como se me delatassem: ela está muito longe de si… E não se ama tanto assim, pois, caso realmente se apreciasse, iria se permitir ser quem de fato é!

Não sei se foi isso o que meu amigo quis dizer naquela época, mas não importa. O relevante é a compreensão que ao longo dos anos floresceu na minha consciência.

E fico contente por ter empreendido uma viagem tão significativa para dentro que hoje me permite dizer: estou aqui para ser feliz, não para atender as expectativas das outras pessoas. Por isso, presto atenção ao que sinto. Agora eu sei do que gosto. E do que não gosto. Eu sei o que me faz vibrar. Eu conheço alguns dos meus sonhos. E eu não sei tudo, mas estou conhecendo algo de mim, o que tem me alegrado.

Sem mais para o momento, desejo que mais mulheres e homens tomem conta de seus cotovelos.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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4 Comentários so far
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Lindo !!!

Comentário por Lize

Parabéns pelo texto, porque realmente é lindo e de bastante reflexão! Adorei!

Comentário por Vânia

Essa frase merece muita, muita, muita reflexão mesmo… Muito lindo!

Comentário por Adriana

🙂

Comentário por Onides Bonaccorsi Queiroz




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