Verbo de ligação


dignidade
24/07/2013, 18:16
Filed under: Prosa

Foi criatura oprimida desde que nasceu. Pelo pai, pela mãe, pelos seis irmãos mais velhos.

Não teve a chance de esquentar banco na sala de aula. Foi cedo retirada da escola “pra não ficar escrevendo carta pra namorado”. Pra que mulher sabida?

Casou-se – obviamente – com um homem autoritário. Não existia para obedecer?

Diante dos abusos morais, sofria, chorava secretamente, se revoltava. E reclamava. Baixinho. Erguer-se, nem pensar. Quem era ela para ousar tanto, ainda tão caçula diante do mundo?

E, talvez pressentindo que assim abria uma janela em sua vida, lia, lia muito, lia tudo. A mãe lhe dizia que aqueles jornais eram uma perda de tempo para uma dona de casa. Mas ela insistia. Queria tanto “fazer parte” do mundo… Queria educar bem os filhos. Queria saber como fazer comida saudável para a família. Queria aprender a cultivar plantas lindas, ora, queria que a admirassem por algum motivo! Queria ser uma boa esposa e uma amante melhor – quem sabe o problema daquele casamento não era ela?

Tinha, também, outras trincheiras. Não perdia uma chance de dizer para as filhas que estudassem, que trabalhassem. “Sejam inteligentes e independentes, só assim vocês serão respeitadas”, falava, com a autoridade de quem conhece cada letra do que pronuncia. Era a sua bondade e sua subversão suprema: forjar a liberdade da próxima geração.

Um enfarte, essa doença do coração fechado, deixou-a viúva mal completara 40 anos.

Só ela e Deus sabem o que precisou enfrentar, dentro e fora de si, para superar o choque. Mas vingou.

Agora já se passaram quase três décadas. Nesse tempo, reagiu, voltou a estudar, seu sonho, voltou a desenhar, sua paixão, voltou para a igreja – seu sacerdócio ao marido era tão devotado que não se atrevia a cultivar interesses próprios, como a espiritualidade.

– Eu tinha que fazer o que ele mandava – me disse essa senhora um dia desses, por telefone.

Resolvi responder. Com respeito e suavidade falei:

– Não tinha.

Ela silenciou. E, depois de instantes, deu-me uma mostra admirável da evolução da consciência humana:

Agora eu sei que não tinha. Mas naquela época eu não sabia.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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2 Comentários so far
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Belíssimo texto…………….realidade de muitas infelizmente….bjos de luz 🌺
Isa Moron

Comentário por Isa Moron

Amo sua suave narrativa!

Comentário por Ana Santos




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