Verbo de ligação


fortuna do céu
08/05/2013, 17:19
Filed under: História, Prosa

Dizem que as histórias têm poder curativo. E eu acredito.

Dia desses ouvi uma assim: um casal vivia discutindo. O marido chegava em casa e começava a reclamar: da vida, da comida, da esposa. A mulher se zangava e respondia, ele ia pra tréplica e ficavam horas nesse pingue-pongue.

Ela estava cansada dessa situação, que não lhe trazia nada de bom, mas não sabia o que fazer. Um dia, ouviu falar de um velho sábio que morava próximo à cidade. E quis conhecê-lo, pois, talvez, contando-lhe sobre o ambiente familiar infernal em que vivia, ele pudesse lhe dar alguma orientação.

Foi até o velho, que a recebeu com gentileza e ouviu atentamente sua queixa. Quando ela acabou de falar, o homem se levantou, pegou uma garrafa azul com um líquido dentro e lhe entregou, dizendo:

– Todos os dias, assim que seu marido entrar em casa, tome uma colher desta água.  Fique com ela meia hora na boca, sem engolir, falar ou cuspir.

A mulher, que estava muito aflita, sentiu uma ponta de esperança. Agradeceu ao velho, pegou a garrafa e foi embora.

Fez como o velho recomendou. Quando o marido chegou, ela apressou-se em tomar a água. E o homem logo começou com sua ladainha de reclamações. Ela, com a água na boca, manteve-se quieta. Aquilo dava raiva nela, a atitude agressiva dele e a impossibilidade de lhe responder. Mas queria mesmo uma solução para o caso. E manteve-se quieta.

Ele, vendo-a calada, entornou o caldo, caprichando na cantilena. Ela se concentrava no seu ideal e não revidava. O marido passou ainda algum tempo exercendo o vício de reclamar e brigar, mas ela, água na boca, dia após dia mantinha silêncio. O que deixava mais espaço para ele ouvir suas próprias palavras.

Até que as reclamações do homem foram diminuindo, diminuindo… E a casa daquela família começou a ser um lugar mais calmo. O marido começou a falar com a mulher sobre assuntos mais agradáveis. Ela, quando percebia que ele estava calmo, conversava com ele. E eram bons esses momentos.

Acontece que a água no vidro estava se acabando. E a mulher foi ficando preocupada, porque não queria perder a paz que havia conquistado. Então procurou o sábio de novo, relatou as mudanças que ocorreram e lhe pediu, “por caridade!”, mais daquele líquido precioso.

– Você não precisa mais disso – disse o ancião. A transformação não veio da água, mas da sua determinação. Você já aprendeu o que tinha que aprender. E, quer saber? Aquilo era água de torneira.

Aqui acaba essa história.

E começa outra: uma mulher ouviu essa história e se sentiu exatamente na pele da esposa.

Resolveu seguir seu exemplo. Literalmente. Encontrou uma garrafa especial, encheu de água – filtrada – e botou num cantinho.

Todos os dias, o marido chegava, ela corria para tomar um gole. As semanas foram se passando e o lar foi se acalmando. Até as crianças foram ficando mais tranquilas.

Quando o casal começou a conversar de verdade, a confiança foi se restituindo e eles resolveram montar um pequeno empreendimento. O negócio deu certo e a vida de toda a família melhorou.

Aqui acaba a segunda história. E começa o comentário de uma conhecida:

– O quê? Essa história manda as mulheres a calarem a boca! E nós temos direito à voz. Não é uma boa história.

Ouvi essa fala e percebi que, embora a lógica do comentário parecesse pertinente, por algum motivo a história tinha conquistado meu coração. E resolvi não abrir mão dela.

Depois entendi por quê. Pra começar: que remédio serve pra todo mundo? Em todas as ocasiões? Nenhum. Então, essa recomendação não é para todas as mulheres – nem para todas as pessoas. Há casos em que a situação e o momento não pedem silêncio, mas a clara expressão do que se pensa ou sente.

Mas às vezes esse remédio serve. Às vezes é a exata medicação que a mulher – ou o homem – precisa tomar. Por exemplo, a mulher que ouviu a história e se identificou com ela.

E é em respeito ao grande poder da narrativa que quando os contadores de histórias de algumas regiões da África fazem a abertura de suas sessões dizendo: “História, história…”, o público responde: “Fortuna do Céu, amém!”

Onides Bonaccorsi Queiroz

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