Verbo de ligação


seu bima, música, ritmo e harmonia
26/04/2013, 21:56
Filed under: Imagem, reportagem
Abismar Gurgel Valente é, provavelmente, o músico de mais longa carreira no Acre: 70 anos (Foto: Arison Jardim)

Abismar Gurgel Valente é, provavelmente, o músico de mais longa carreira no Acre: 70 anos (Foto: Arison Jardim)

Silencie. Reduza o ruído interior. Torne-se pequeno e despretensioso. Só assim terá uma chance de entrar no mundo dessa pessoa que vibra num ritmo muito particular. E harmonioso.

Seu Bima fala pouco. Não porque não tenha o que expressar. É que a linguagem que elegeu para se comunicar é a música. Se ouve uma pergunta, responde duas palavras… E toca. Toca lindamente o seu violão, toca com atenção e afeto. E há um quê de desprendimento em sua atitude, que faz sua música soar bela e delicada.

Sem pressa e sem demora, conclui sua execução. E sorri de leve, satisfeito.

Parece que, intimamente, continua contemplando a floresta, sua morada durante muito tempo. Sente saudades de lá: “Aquilo é uma tranquilidade, é um povo sadio”, diz.

Com a mãe e três irmãos, pequeno veio de Tefé, no Amazonas, e foi morar no Seringal São Francisco, próximo ao Rio Envira, no município de Feijó, Acre. Aos dez anos, aprendeu, sozinho, dois ofícios fundamentais em sua vida: cortar seringa e tocar violão. O primeiro desenvolveu durante 40 anos, o que lhe valeu uma aposentadoria como Soldado da Borracha. O segundo mantém até hoje: “Eu me sinto bem quando toco”.

Assim, Abismar Gurgel Valente é, provavelmente, o músico de mais longa carreira no Acre: 70 anos. É um dos últimos herdeiros da cultura do baque musical, transmitida pela tradição oral e muito comum nos antigos bailes do seringal, que iam do anoitecer até o amanhecer do dia seguinte. “Era cada festa boa, animada… Fui muito querido quando era novo”, relembra.

O repertório de Seu Bima é composto de valsas, marchas, mazurcas, xotes, xeréns, choros e desfeiteiras (veja abaixo), e alcança várias gerações anteriores. “Seu cabedal é riquíssimo e sua técnica é única, ele sola com a unha”, observa Alexandre Anselmo, músico e pesquisador da cultura dos baques e diretor do projeto Baque-Mirim.

No ano passado, o músico, que vive em Rio Branco há quase 30 anos, participou da gravação do álbum “Baques do Acre”, que reúne também outros expoentes da cultura tradicional do estado, como Antônio Pedro e Antônio Honorato.

Aos 81 anos, Seu Bima tem 11 filhos, netos e bisnetos. Mas o companheiro de todas as horas é o violão. Gentil, só não toca à noite, para não incomodar os vizinhos. Mas o instrumento permanece ao seu lado, na cama, aguardando os primeiros acordes que virão com a manhã.

Onides Bonaccorsi Queiroz

(Foto: Arison Jardim)

(Foto: Arison Jardim)

O que é a desfeiteira?

É uma dança folclórica tradicional, de caráter humorístico, criação de escravos negros e caboclos paraenses, que, após o trabalho, divertiam-se no barracão, aproveitando-se da oportunidade para se vingarem dos patrões e “tirarem graça” com os companheiros.

A denominação de desfeiteira vem do fato de que, em determinado momento da dança, a música parava de tocar e o dançador que estivesse na frente do conjunto era obrigado a cantar uma pequena quadra. Protegidos por um momento de imunidade, cantavam, então, quadrinhas indecorosas – ou seja, “desfeitas” –, muitas vezes desrespeitando seus próprios patrões, que não interferiam, para não haver quebra da amistosidade.

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