Verbo de ligação


professor
15/10/2012, 15:00
Filed under: Prosa

Médicos e advogados se queixam de que aonde vão e têm sua identidade profissional conhecida, alguém lhes pede um parecer técnico – gratuito, naturalmente. Minha amiga Fátima, dermatologista, diz: “Na minha área é pior ainda, porque todo mundo tem uma pereba, uma coceirinha, uma-bolinha-que-apareceu-aqui-ó pra me mostrar…”

De mim esses profissionais não se queixarão. Minha fissura são os gramáticos, filólogos, linguistas. Sempre fui unha e carne com professores português. Meu tipo inesquecível? A querida Ana Maria, da Escola Nossa Senhora da Assunção, onde estudei oito anos, em Curitiba. Tempo bom! A Ana era ótima e ética e amável. Alô, alô, Ana Maria, onde anda você?

Também em Curitiba, eu usava, há uns 15 anos, o Telegramática. Como saí de lá há tempos, não sei se ainda existe. Era um serviço muito útil, mantido pela prefeitura. A gente ligava, expunha a dúvida e os professores esclareciam. Com clareza, comentários e exemplos. Logicamente, eu era freguesa.

Anos depois aconteceu de eu dar aulas de redação. Às vezes levava pra casa umas 300 dissertações pra corrigir no final de semana. Desafio! Ainda hoje, as oficinas de texto são alguns dos momentos mais gratificantes do meu cotidiano. Pela possibilidade da transmitir, de estimular, de trocar e de me aproximar de gente.

Pensando bem, é tão prazerosa e instigante a relação que tenho com a linguagem que pode muito bem ser definida como caso de amor. E, como legítima enamorada, tenho atração, apreço, dúvidas e uma curiosidade danada.

Assim, por diversas vezes recorro a um trunfo: peço socorro àquele que nunca me rejeita, quando nem o Dr. Google sabe me esclarecer. Àquele que me recebe com um sorriso, nem que seja por telefone ou e-mail. Que sempre tem uma luz para lançar sobre a minha “inguinorãmssia”: o professor Beneilton Damasceno!

Gente, o Bené deve tomar sopa de letrinhas desde pequeno, porque responde tudo, e de pronto! Com ele aprendi, por exemplo, que o verbo “desfrutar” é transitivo direto. Vixe! Então, a gente não desfruta “de” algo, a gente desfruta algo! E pensar que desfrutei tão inadequadamente esses anos todos! Isso deve explicar muita coisa…

O professor também me contou que aquele queijo que em italiano se chama “mozzarella”, em português se torna – calma! – “muçarela”! Isso mesmo, cruz credo, com cê cedilhado! Não é incrível? Aliás, horrível? Respira fundo que passa. É que o “zz” de palavras italianas vira “ç”, como carroça, que vem de “carrozza”.

Não bastasse, o Bené é pra lá de bem humorado, muito me faz rir com suas tiradas, suas expressões tipicamente acreanas puxadas da cartola. Esses dias tricotávamos – adivinhe qual é o nosso assunto preferido? – sobre os manuais de redação dos grandes jornais. Disse-lhe que vi, em algum deles, que sugeriam grafar o nome do coisa-ruim com inicial caixa alta, porque, afinal, mais os menos assim defendiam, a palavra “Deus” se escrevia dessa maneira e o “concorrente” merecia a mesma deferência!

Aí perguntei ao professor sua opinião: maiúscula ou minúscula? Ele me olhou indignado, respondendo, na lata:

– Caixa baixa toda vida! E eu vou dar moral pro cão?

Onides Bonaccorsi Queiroz

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1 Comentário so far
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Adorável do começo ao fim…

Comentário por Adriana




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