Verbo de ligação


os amigos dos nossos filhos
27/08/2012, 21:45
Filed under: Prosa

– Volta e meia eu estou conversando com o meu filho, sabe? Vou falando, esclarecendo as coisas, fazendo a cabeça dele. Tem uma coisa que eu sempre lhe digo, desde pequeno: filho, os teus únicos amigos são o teu pai e a tua mãe. Nós somos as únicas pessoas que nunca irão te abandonar, aconteça o que acontecer. Os outros, nas horas difíceis, te deixam na mão. Eu, não. Tua mãe, não. Por isso, filho, confie só na gente. Nos outros, não. Os outros são seus coleguinhas, você brinca com eles e depois se despede. Nós, não. Nós vamos estar sempre com você. Não se esqueça disso, viu?

Ouvi o homem falar e reconheci esse discurso. Com pesar. Lá em casa, como em tantas outras, era cultuado como mais um dos inúmeros e intermináveis “sábios conselhos do papai e da mamãe”.

Nem tão sábios assim. Mas eu acreditava neles. Porque eram pronunciados pelas pessoas em que eu mais confiava no mundo.

E, por acreditar, passei a olhar com certa desconfiança as crianças com quem eu gostava de brincar.  A brincadeira estava boa, mas eu começava a imaginar que elas poderiam, a qualquer momento, fazer algo que me deixasse triste. Porque elas pareciam ser amigas. Mas não eram, já haviam me dito meu pai e minha mãe. Então, pensava eu, elas estavam fingindo.

E, por suspeitar de que elas poderiam me ferir a qualquer momento, passei a ter mágoa prévia delas. Que tipo de amigos eram? Não amigos verdadeiros. Claro que não. Bem que Papai e Mamãe haviam me precavido. Ainda bem que eu tinha a amizade desses dois, porque com as outras pessoas eu não podia contar.

E, por me ressentir da maldade que se escondia dentro dos meus amigos, passei a desprezá-los. Para feri-los. Já que vocês querem me machucar, eu machuco antes.

E, por eles se magoarem com a dor do abandono ou da ofensa aparentemente gratuita que eu lhes provocava, eles se vingavam. Feriam-me também. E me abandonavam. Mesmo porque eles possivelmente já tinham ouvido aquele clássico discurso em casa.

Que circo de desconfiança armamos juntos! Findou que todos ficamos medrosos, tristes… E solitários. Uns mais, outros menos, dependendo da quantidade do terrorismo doméstico e da qualidade do amor circulante.

Ocorre que, quando você consegue perceber a armadilha em que, sem perceber, entrou, custa sair dela. Dá um trabalho danado! Os nós emocionais não doem apenas enquanto estão sendo feitos. Doem no seu desenleio também.

Então agora eu vejo esse homem falando aí das lições que oferece ao seu filho e me dá um dó pensar nesse garoto! E nos milhões de crianças que crescem ouvindo essa mentira medonha que os pais gostam de contar pensando que estão fazendo algo muito nobre.

Se esse homem pudesse me compreender, eu lhe diria:

– Não, meu irmão. Não é por aí. Eu sei que você, a seu modo, ama e quer proteger seu filho, mas essa que você ensina é exatamente a trilha da dor. Traz muito sofrimento.

Pois olhe: tive oportunidade de conhecer outro jeito de viver e sei que ele é mais feliz. Adoraria poder compartilhar com você. E também com você, que me lê.

Começa assim: ofereça bondade para o seu filho. Não presentes caros, mas o seu tempo, a sua atenção e o seu carinho. Ouça-o sem condená-lo. Oriente-o com firmeza e suavidade. Se você criticá-lo sempre, ele começará a mentir para você, para se proteger dos seus ataques. E para o mundo, porque aprendeu em casa que falar a verdade só traz problemas.

Leve-o para um passeio especial, às vezes com outras crianças, para que eles se divirtam muito juntos e experimentem o quanto é agradável a companhia das outras pessoas. Outras vezes, reserve um tempo só para vocês dois – para que ele se sinta especial. Gratuitamente, sem condições. Apenas porque ele merece, deixe isso bem claro. Ele se sentirá amado.

No agir, dê-lhe bons testemunhos. Proceda com retidão e honestidade. Trabalhe com dignidade. Ele está observando seus atos e vai imitá-los porque é você a maior referência para ele.

Trate todos com respeito, especialmente as pessoas mais velhas, as crianças, as pessoas mais humildes e todos aqueles que, de alguma forma, estão numa posição mais fragilizada. Trate com carinho o nosso planeta. Mostre-lhe como ser um esteio, e não um chicote, para o mundo.

Quando errar, peça-lhe desculpas. Meu pai fez isso comigo e posso afirmar que foi uma das experiências mais marcantes da minha vida.

Estimule-o a refletir sobre a compaixão, sobre a necessidade de sermos solidários uns com os outros, mostre-lhe exemplos que comprovem isso: conte-lhe sobre Jesus, sobre Buda – pois pessoas de bem estão em todas as religiões e também fora delas –, conte-lhe sobre Gandhi – ah, assista com ele àquele filme fabuloso com Ben Kingsley! – e sobre todos os heróis e heroínas anônimas que tornam o mundo um lugar melhor. Inspire o espírito do seu pequeno para a benevolência. É fantástico como as crianças respondem favoravelmente a esse tipo de estímulo! Suas reações e observações são primorosas.

Busque, com todas as suas forças e sabedoria, superar a sua desconfiança no ser humano. Porque a confiança é a base de todas as obras que permanecem. É um dos nomes da fé. Se você alimentar a confiança no desenvolvimento dos seus semelhantes, certamente elevará a confiança em si próprio. E será capaz de superar as suas dificuldades mais profundas.

E, ao se portar com positividade e afirmar a confiança na evolução, você conquistará amigos. Cultive-os. Escolha-os bem e acrescente, nesses relacionamentos, uma dose de generosidade, porque amigos são humanos como você e erram. Às vezes nos desapontam. Quando isso acontece, a gente dá um tempinho para se refazer e reflete sobre a situação. É tão grave assim ou dá para seguir em frente? Ah, sim, tem gente que simplesmente não tem condições emocionais de ser leal. Não por maldade, mas por imaturidade. Mas, tantas vezes, a gente lembra as qualidades dos nossos amigos e tem vontade de reatar. Aí a amizade fica ainda mais gostosa!

É tão bom se sentir bem na companhia de alguém! É tão bom ter aquelas conversas deliciosas que nos alimentam lá no fundo! É tão bom poder confiar em alguém a ponto de poder compartilhar uma situação difícil, de contar um segredo, de chorar, em desabafo. E ter a alegria de oferecer o ombro e poder estar a postos também quando o amigo precisar!

Os amigos são uma bênção. Uma vida sem amigos é, certamente, uma vida pobre.

Então, seu filho precisa saber que há pessoas com quem pode contar, além dos pais dele. Mesmo porque há momentos em que nossos pais não conseguem nos entender e a conversa fica inviável. Em outros, eles são os principais envolvidos no problema que estamos atravessando, e não podemos recorrer à sua ajuda. E, ainda, um dia, eles deverão se ausentar materialmente de nossas vidas. Precisaremos, nessas situações todas, de outros bons amigos para nos dar a mão.

Daí a importância de a gente validar a amizade, entendendo que, quanto antes essa habilidade começar a ser construída, melhor.

Cercado de bons e verdadeiros exemplos familiares, seu filho se tornará um excelente ser humano. Terá feito germinar, em si, aquela espetacular semente que o torna único e maravilhoso. E, assim amável, será deveras amado – o que muito alegrará o coração de seus pais. E atrairá pessoas de bom caráter para perto de si. E outras um pouco mais problemáticas, que se aproximarão porque precisam da paciência e compaixão dele. Que descobrirá jeitos de amar a todos.

Com amor no coração, seu filho será um vencedor e ajudará os filhos das outras pessoas a serem também.

Eu acho mais bonito esse jeito de ser.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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2 Comentários so far
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Uauuuuuu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Bjs, amiga, cumadi, você me faz falta.

Comentário por Marta

Por isto meu chefe… vai ser um grande chefe…pergunta se o pai/mãe dele manda nele…rsrrsr…Saudades

Comentário por eduardo h romero neto




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