Verbo de ligação


essa dissimulada senhora
09/06/2012, 16:23
Filed under: Prosa

Quase todo mundo diz que não gosta. Mas repare se a tristeza não é sedutora como aquela dorzinha na gengiva, que dá certo prazer cutucar.

A tristeza, acostumada a ocupar espaços, está sempre à espreita. Basta que algo saia do esperado e lá se apressa ela, esgueirando-se sinuosa pelas frestas, ora discreta, ora dramática. Ou crônica.

Você conhece seus sintomas. O coração fica pesado, o contentamento não parece possível, você olha pra ela e lhe responde ao aceno. Aí ela emenda, com feição de piedade: “Coitadinho! Te feriram mais uma vez. Mas eu estou aqui: descansa no meu ombro…”

E, como você não está vendo outra possibilidade, nela encosta, fechando os olhos. É quando crescem seus tentáculos, longos, largos e macios e ela vai te envolvendo, silenciosa. Tudo vai escurecendo e você acha até bom, porque pode dormir, esquecer a vida, enrodilhado nela: a sua tristeza.

Como se dissesse a si próprio: “É, realmente, não adianta tentar fugir. É isto que existe para mim. Então, venha, amiga, sejamos íntimos!” Aí você mergulha. E nada no velho mar de decepções. Refestela-se.

Nem percebe que, enquanto se banha, engole sua água, desse sabor conhecido. Mas tóxica.

Pois a tristeza não apenas te abraça. Ela te sufoca. Te reprime os impulsos vitais, te deprime, te imobiliza e amedronta. Está sempre soprando no seu ouvido a maior mentira: “Eu sou sua e sou pra sempre”. É assim que vence, um dia de cada vez.

Sua especialidade é fazer esquecer que, a cada momento, surge uma nova chance. Cega, a tristeza nunca menciona essa possibilidade: o novo. A nossa capacidade de virar o jogo.

Porque, na verdade, ela opera com uma cúmplice quase sempre oculta: a preguiça. A nossa preguiça de reagir. A preguiça de recobrar a sanidade. A preguiça de afirmar constantemente o nosso direito à felicidade.

Porque alegria é consciência, consciência é vigília e vigília é trabalho.

Assim, quem a tristeza aprecia mesmo são os irresponsáveis. As vítimas do mundo. Que gostam sim dela, porque essa dissimulada senhora nunca lhes dirá o que mais temem ouvir: “Levanta e vai à luta!”

Isso eu digo porque sei. A tristeza já fez de mim gato e sapato. Ô freguesa boa que eu já fui! E cheia de orgulho do meu martírio…

Mas ocorreu que, com o passar dos anos, observei sua dinâmica pobre e simplesmente: cansei. Quanto mais me lanço à vida, menos preciso do sabor desse alimento venenoso. Tristeza é vício.

Às vezes ela ainda me pega. Mas desperto cada vez mais rápido e lhe digo alto, furiosa: fora daqui!

Meu destino é ser feliz.

Onides Bonaccorsi Queiroz

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4 Comentários so far
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Muito ótimo seu texto Onides. Parabéns pelo talento, não conhecia seu dom de escritora. Super abraço! Docimari

Comentário por Doci

Onides:
Muito bom seu texto. Palavras suaves, e ao mesmo tempo firmes, na descrição deste sentimento que nem sempre é fácil de ser identificado. ele é camaleônico também. Mais trabalhoso ainda é reconhecer e se libertar. Legais os toques necessários no processo de libertação. Em resumo: tire a bundinha da cadeira…e aja.rs
grato
Gilvan Almeida

Comentário por Gilvan Rodrigues de Almeida

Querida Onides, muito bom o que escreveu, isso mesmo, preguiça. Mas precisa de muito trabalho interno para vencer essa paralisia. Nao e nada facil, um lugar sombrio que vejo muitos completamente impotentes para sair.

Bj

Comentário por Marta

Delícia ler aqui tudo o que se quer falar mas faltam as belas e charmosas palavras… Sim, ela é terrível e oportunista: a tristeza entra e vai tomando conta de tudo, simplesmente porque a deixamos entrar… E logo que encontra a D. Preguiça, não quer mais parar de aprontar!!!!!! Persistência, fé e boa vontade para varrê-las das nossas vidas, maninha!!!! Te amo, sua linda!

Comentário por Adri




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